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sexta-feira, 24 de junho de 2016

soneto violento

o artista é a vingança em estado bruto
dizei em voz alta que artista viveu como um deus
sem nunca ter ido sequer uma vez até o inferno?
ou mesmo tenha vivido parte de sua vida nele?

o artista é a vingança contra a vida.
a vida trapaceia os fortes, humilha os covardes,
faz do tempo sua arma e marca a ferro e fogo
a carne de todos que ousam nela escrever seu nome.

o artista é o agente da tristeza.
o apaziguador das almas inquietas,
o rei das terras escassas no reino da solidão.

presa fácil de ser abatida,
alimento intragável de ser digerido
o artista não presta para nada.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Consequências




Demorei então até descobrir enleado
que é de fim que se faz o começo
como é noite e em que já amanheço
a pensar em seguir o mesmo lado

pelo qual tenho estado em começo,
enquanto que no fim desde o passado
tens ficado: esta boca de beijo acabado,
meu amor por ti derramado: arrefeço,

como pobre diabo em tristeza logrado.
De chama acesa: por dentro apagado
como tudo que vai sobre a mesa, é fato

que me esqueceste no fim do teu preço
e não sou mais quem um dia fui preso
ao teu sofrimento, em mim mutilado.

E,a,p'

sábado, 28 de maio de 2011

Soneto de Nostalgia

De novo atravesso as ruas de minha infância,
Buscando em cada milímetro encontrar
Qualquer parte que me faça relembrar
Um cheiro qualquer, agridoce, da lembrança.

De toda parte, busco o belo que não tive lá
Mas que aqui, colho, na semente vermelha
Que teima da árvore cair, de e em cada telha
Tilintando o barulho que tanto lá se fez estar.

Vejo a árvore no meio da rua, teimando
Crescendo altiva e sempre ali, a subir e subir
Com as mãos nos bolsos passo lembrando:

(Ai quem me dera eu pudesse crescer tanto assim!)
Há tanto que não encontro nesta rua algo meu...
Ah, e quem dera, rua, quem dera eu fosse teu!

E,a,p’

domingo, 22 de maio de 2011

Até o Fim

Jason Taylor - Evolucíon Silenciosa



Até o fim eu insisto na ideia, rouco.


Martelando-a, comprimindo-a


tirando o suco da polpa, destruindo-a.


E se me dizem que vou louco,



Digo que acho ainda pouco!


Pois para descrevê-la, traduzi-la,


no fim do mundo, agarrando-a,


o faria até mesmo se estivesse morto!



Se no fundo dela, há um abismo,


hei de me agarrar em seu fio fino,


pois ter em mãos a ponta ínfima




é ainda algo que me agrada, sacia.


Melhor que insistir numa ideia acabada,


terminada, difundida, que - coitada! - se atrofia.


E,a,p'

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Gosto de Maracujá

Tu, acalma minha ânsia, perfeita
em detalhes, em mínimos feitos,
de maracujá: já sinto, os cheiros,
que afagam minha cabeça, refeita

pelo desdém de teu vai-e-vem,
a acalentar, pequeno, no braço
como tirasse, matasse, o cansaço
com que acumulo e para além

do vento da tarde, e eu aguardo,
tua calma plenitude, e quando vem,
mata-me de amores, a preguiça

todo o fado, o fato, o trato, olfato,
do que sustém minha submissa,
vontade de ali ficar - nada além.


E,a,p'