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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Disparate para N.O.A.

Queria te encontrar para dizer que estou feliz por ver que as coisas têm dado certo para você - sim, eu sei que estão, e você sabe que eu sei.

E, por incrível que pareça eu lembro dos nossos últimos momentos com certa amargura mas com um tom de misticismo que eu nunca entenderei como pude ter tido tanta certeza do que fazia. Porque, por mais que nos amássemos (e nos amávamos), sentia em meu peito que eu era um vírus para a sua vida.

Embora a cidade tenha ficado pequena demais para você, com todas as ruas dando de encontro para o seu rosto, é certo que retirar a única pedra de sustentação do teu caminho foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por você. Claro, que, ao falar isso posso estar dizendo que eu era para você como se fosse um deus - mas eu e você sabíamos e sabemos ainda que deuses não existem e eu também não me consideraria um.

Lembrei, enquanto me agraciava com tuas vitórias, da história do cara que chuta uma tal vaca do precipício, mesmo sabendo que essa vaca era a única fonte e sustento de uma família. Logo depois ele volta e vê que a família prosperou.

Diferente da família que não via um futuro pela frente, eu enxergava em ti todo o potencial que uma vez vi em 2009, quando éramos amigos, ainda na batalha - daonde o nosso amigo Metal está hoje em Novo México - e eu sabia que tudo o que fazíamos era um desperdício.

Não digo com isso que me arrependo. De jeito nenhum, a vida segue, e o máximo que podemos fazer é pegar carona nela.

Mas ao me chutar da tua vida rumo ao precipício, não posso deixar de crer que você cresceu e muito e grande. Era esse o estímulo que você precisava. E, claro, sinto muito se fui rude no modo como pus as coisas ou se nos momentos seguintes as coisas ficaram mal esclarecidas.

O fato é que, eu sempre serei um vírus - e não falo isso para me autodepreciar, é da minha natureza isso. Nunca fui a sustentação que eu mesmo precisei e me sentia culpado de não ser a que você precisava naquele momento.

Assim sendo, a única coisa que fica para a minha própria reflexão é saber o que preciso chutar de minha vida para que ela comece a dar certo?

Será que você sabe a resposta?

De qualquer maneira, em algum momento eu posso estar sendo o vírus de outra pessoa, mas eu não o quero ser. Só que desta vez, ao invés de refazer o que fiz, vou procurar a única saída possível que é obter o melhor que o esforço real por algo real é capaz de oferecer.

E é isso que você tem que eu ainda não tive.

Precisei esperar 26 anos para descobrir que até aqui viver não passou de uma mentira e que os planos de verdade vão começar agora. É o fim da letargia.

Nunca poderei dizer isso pessoalmente, mas sei que você sabe que pode me encontrar aqui. E quando estiver lendo isso, saiba que estou verdadeiramente feliz pelo rumo que a tua vida tomou.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

atual estado das coisas

tudo que escrevo é produto da dor
nunca fiz nada pelo belo belo belo olhar
não escrevo por opção ou por não ter mais o que fazer
na verdade tenho muito o que fazer de minha vida
e todas essas palavras ficam aqui na minha garganta
e por mais que eu queira,
só de escrevê-las, elas já perdem a força,
e escrever é meu modo mais singelo de pedir desculpas
porque eu preciso cuidar da minha vida
e o fardo que carrego de dor parece maior que meu próprio corpo
parece mais pesado do que o que posso aguentar
e eu não aguento
eu sempre torno a escrever todas essas palavras
todas essas coisas
que fazem de mim um ser de carne e osso
e sentimento

às vezes eu esqueço o quanto sou humano
e vivo como entidade
flutuo pelo mundo como uma bola de gás
um espectro que se arrasta pelas sombras
pelos cantos das paredes descascadas
pela vida que eu não escolhi.
eu não escolhi ser triste
eu não escolhi ser fraco
eu não escolhi e não posso julgar que vocês possam rir de mim
ou chorar comigo.

eu descanso meus olhos por esses anos
mas nem sei mais porque ainda insisto em escrever
porque eu não tenho escolha talvez
e deve ser por isso que esses versos se alargam tão feios
sem serem lapidados ou cuidados
simplesmente porque eu não sei como
dizer todas as coisas que eu sinto, nem nunca soube dizer em 5, 10 anos
desde que eu soube que eu podia
que eu devia
escolher não ter escolhas
e não é destino, não me entendam mal
isto que aqui vai
é puramente escolha.

não faço sentido.
desculpem por isso.
quem ler essas palavras hoje, amanhã, ou depois, espero que não as entendam mal.

não é poesia, é só confusão.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

a fortuna da carteira

um assaltante me pediu a carteira e respondi que não ando de carteira.

juro por deus, não ando de carteira. 

mas, veja: objeto mais íntimo não há. mais íntimo que o celular que entreguei de bom grado, com todas as fotografias, rascunhos de futuros versinhos, minha agenda telefônica -- sou péssimo em relembrar números.

mas raciocinei porque não uso carteira, e descobri que é que por ela, me resumo:

abro: cartão de crédito desativado, cartão de débito de contas canceladas, documentos inúteis, um dólar que trouxesse, ansiei, fartura -- não funcionou -- e fotografias.

eu com a máscara do batman.
minha mãe.
meus irmãos.
você (sim).

eu não gosto de abrir essa carteira. lembra que lembro que tenho saudades.

segunda-feira, 31 de março de 2014

ensaio sobre virgem

a mudança tensa, maleabilidade pesada, duma força outra, duma força imóvel, arenosa, nem tanto, lameada. quintal das vestes, corrente no tornozelo, sábios os íntimos, e a feitura das nossas pequenas contradições -- ai, que teu amor, esse nada quase, esse nem-amor, esse todo quase nada -- certeza nas quatro paredes, apenas se me sussurrares no ouvido a palavra sonhada. martírio, cruz, ódio abaixo de zero e o poder da palavra voltada para dentro (hermes e as mensagens que nunca enviou aos deuses, sua sabedoria reservada). sabedoria que de dentro para fora é busca da perfeição, desoladora vontade de. única mulher, sim, sensações táteis à flor da pele, mas, arredia, ou entregue, suja-se apenas aí, para ter prazer no banho -- quem fora você no carnaval? que seja fidedigna sua vontade, mas, por favor, que não me digam "segura minha mão e leva adiante", sabendo que não há instante em olhar pra frente, posso compreender lograr da sorte das circunstâncias, mas o suor é a gota máxima do sossego, teu remédio é molestar minha visão prática -- mas por favor, peço além disto, não me peça para dizer palavras de afeto líquido, essas derramam-se, indignas, desvirguladas, sem acentos; prefiro que saiba que aqui guardo o nosso destino na palma da mão, nossas, dadas, até te posso soltar mais adiante, e derrubar todos os livros da estante, assustada, arredia, desregrada, desgraçada, para que faça nova ordem, reversa, apenas num glossário de cálculos onde me encontro, refazer a perfeição buscada, e a mão, esta, lavarei, para que sequer da tua sujeira lembre a memória.

eap

segunda-feira, 10 de março de 2014

partida de futebol


times: presídio zona norte x presídio zona sul. começa o jogo, z. norte faz o primeiro em cinco minutos, z. sul empata, jogadores da z. norte reclamam de impedimento, juiz rebate, diz que não, prossegue o jogo: z. sul vira, aos onze, nova reclamação e fim de jogo aos vinte e dois do primeiro tempo.

resultado final: zona sul 2, zona norte 1, 4 mortos e 3 feridos, incluindo o juiz e a bola, ambos por facada.

eap

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

paisagem móvel

retratos vezes mil nas janelas a mil
quem vai na onda dele se perde
e maiores são as notícias - espera:

vamos voltar do início, refazer o poema. calma, respira, o ônibus tá em linha reta, seu pensamento também. as notícias nem são notícias, são os outdoors, a gente não pode seguir adiante, ele vai dobrar, ela vai descer, e 

na alça da blusa dela,
as onças se abocanham,
podem andar pela extensão
de toda a savana de pelos
dos quais o seu braço é feito
na nuca - calma:

não tem mais muito o que dizer, mas os versos surgem até

do bigode dele
acompanho a vazão que dá
as idas e vindas que sua vida
cuidou de fazer - passa o troco
e no cofiar dos dedos,
percebo-lhe vaidade
para além dos anos que lhe vêm
para agora dos anos que lhe vão.

"no vão das coisas que a gente disse
não cabe mais sermos somente amigos
e quando eu falo que eu já nem quero
a frase fica pelo avesso - meio na contramão"

de repente entra o trecho da música da ana carolina no meio da coisa toda e tudo se embola feio, mas nem tanto - percebo de onde vi, and I drag behind, depois de descer do ônibus - o último cigarro da noite,

quem sabe da vida inteira,
estrela essa que carrego
na ponta dos dedos,
iluminando apenas os meus olhos
enquanto vai-se apagando
por dentro do que esquenta
(a morte da estrela-anã vermelha)
eu astrônomo todos os dias,
conto no cobertor, e no buraco do teto
todas as estrelas que posso

agora, sono, e quanto mais penso mais vontade dá de pensar, e pensando associo, como prosa, mas saem versos da ponta dos dedos, como parar, eu na-

o til nem teve tempo
de se sobrepor no a,
foi instantâneo, e, mesmo
depois que o a se forme em
inúmeros zês pela madrugada
meu pensamento continua
dissociando o intangível das memórias
que nunca tive,
da tesoura e do escorpião
e de todas as coisas
que num dia
fiz verso do avesso.

eap

domingo, 9 de fevereiro de 2014

doesn't remind me

sobretudo me incomodam retratos familiares conturbados. e não necessariamente precisam ser conturbados, mas retratos familiares de um modo geral.

pego-me às vezes sendo vítima, e nem sei bem se essa seria a palavra mais adequada para isso, de objetos de estudo puramente freudianos. é estranho ver-se desnudado por teorias - e dói.

odeie quem odiar, mas sou canceriano, ascendente em touro, lua em libra, denota uma personalidade pacata e sensível. mas o lado canceriano fala alto no que diz respeito à memória, esta, nem sempre agradável, mas, penso, responsável por uma sensibilidade pelo que se vê aqui nestas páginas desde 2009 e que vem de mais tempo, desde os treze.

vejo: os laços e desenlaces familiares e suas consequências sempre foram temas que me marcaram - e a maneira como o cotidiano de todas as pessoas é afetado por relacionamentos. tudo na vida gira em torno do que dentro da instituição afetiva criada com o outro gera: personalidade, atitudes (sejam elas quais forem), profissões, opiniões, igualmente - tudo. daí perguntarem o por quê desse apego a relacionamentos. ora, mas é disto que são feitos maior parte dos retratos cotidianos aqui expostos.

os meus mais íntimos sabem dessa fixação toda minha. e no quanto acredito piamente nisso.

quando penso por exemplo na figura de meus pais e em tudo o que se desenrolou na separação deles (sim, meio constrangedor, mas para que eu divulgue o que determinou este insight precisarei recorrer ao pessoal), foi responsável por lágrimas e mais lágrimas derramadas e olhos embaciados por filmes, músicas e livros que retratassem a figura paterna como provedora de algum desenlace - de cabeça lembro: estamos bem mesmo sem você (filme italiano do gênero drama, que retrata uma família conturbada pelo abandono da mãe), lembranças (sim, com robert pattson, em um papel talvez demasiado dramático, entretanto, final surpreendente, destaque para o papel de pierce brosnan), e, o que deu origem a esta crônica: o clipe de doesn't remind me, do audioslave, que retratou em síntese todas estas palavras até aqui.

no dito videoclipe vemos que tipo de destroços são criados com o pós-guerra (ao que tudo indica, a do iraque, ou afeganistão). uma criança que libera sua energia para suplantar uma dor que incomoda (vou escrevendo e achando cada palavra piegas, mas, que seja) no boxe.

ora, acho que é uma maneira de escapismo, jogar a fúria num esporte, adolescentes escolhem outros caminhos etc., mas aí denotaria uma outra breve reflexão de sociedade: lidamos com um modelo norte-americano de fraqueza, onde, como disse ariano suassuna, um jesus cristo modelo seria o superman.

que seja, tanto faz, não discordo, nem concordo - muito pelo contrário (risos). o fato é que: não é interessante como essas instituições nos transformam?, transtornam, também. de toda forma, ainda no assunto do que uma guerra pode gerar, vemos a figura de um soldado que nos diz o seguinte (naquilo que acredito ser um dos primeiros parágrafos mais legais da wikipédia:

" O Tenente-General Sir Adrian Paul Carton Ghislain de Wiart VC, KBE, CB, CMG, DSO (05 maio de 1880 – 5 de junho 1963), foi um oficial do exército britânico de ascendência belga e irlandesa. Ele serviu na Guerra Boer, Primeira Guerra Mundial, e na Segunda Guerra Mundial. Levou um tiro no rosto, cabeça, estômago, tornozelo, perna, quadril e ouvido, sobreviveu a um acidente de avião, escapou de um campo de prisioneiros, e mordeu e arrancou seus próprios dedos quando um médico se recusou a amputa-los.

Mais tarde, ele disse: 'Francamente,eu adorei a guerra!'"

não queria, sinceramente, que este texto se arraigasse pelas vias da boba demagogia sentimentaloide. vade retro. mas como não refletir e fazer paralelos?, ou então só uma mente paradoxal como a minha associa essas minúncias - mas, o tal videoclipe me conseguiu marejar os olhos (coisa lá não muito difícil), e fica-se aqui a indagação desta responsabilidade fardo que somos obrigados a carregar. nem sei ao menos a quem se há de atribuir uma culpa - e se há.

enquanto não se encontram formas de se saber o que por aí vai, deixo aqui o aviso prévio de que freud ainda vai incomodar por bastante tempo com obviedades. vamos à guerra ou ela vem a nós?

eap

ensaio sobre libra

meu amor é racional - não posso doar-me sem doação. cada poro venusiano imposto na frigidez da racionalidade tende a fazer-me total entrega a prazeres que subjazem a cara, que apenas logra a vida entregue em cheiros e gostos. falava-te dos poros, dos meus meneios de cabeça, as mãos insatisfeita com a falta de perfeição duma hora negada - lembro do amor como ele o é, entretanto entre razão pela porta da frente, máscula, sou apenas a versão livre de um amante veneziano. cobro nada que se cobre e na guerra faço-me juiz, mediador, embora acredite que a verdade seja necessária. equilibra-te, milimetricamente somos obrigados a comparar-nos, mas, ora, quando olho em derredor, qualquer cor mais forte arrefece os olhos, cansa, desgasta - e no final das contas perco minha calma inata de ser ativo na arte de amar em demasiada constância lisérgica - all you need is love, disse um digno representante, mas olhai pelos olhos dele, meus olhos também: não existe no mundo equilíbrio possível, exagero sem comedimento. alegro-me com a ideia do caos como obra divina.
eap

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ensaio sobre escorpião

define-se pântano, água calma, dentro, que há? não há nada, o cosmos sabe bem que tudo tem hora de vir à tona, meu sorriso é um rifle, eu pretendo te aprisionar livre, deixar-te vagar, cavalgar, cavalar-se, deixo porque observo, meus olhos que separam no silêncio os feijões podres - talvez os coma, apenas para fazer doer a bílis, e quando lá chegar acompanhar comedidamente a dor latejar, mas não se atreva a levantar meus olhos, deixai que com as mãos, os ombros, acomodar-me-ei nos braços, deixarei de lado as lágrimas que vazam de fora para dentro, inundando - e elas se transformam no murro que por vezes pode explodir na parede do quarto escuro, trancado, sozinho e sem ninguém. por que às vezes me transtornas como o diabo? por que às vezes me faz odiar  dizer as minhas verdades de tal forma que sem dó nem piedade na cama eu tenha que me vingar, deixando na tua pele a marca de minha vingança? rabisco poesia russa em tua pele com meu odiamor, e te deixo com a vontade de me querer, de não perder, sou assim quem cuida as ferrugens, do que ninguém mais quer e reemerjo-lhe às margens purulentas de uma realidade que eu não nego nem negarei - te puxo o braço, encaro fixo, sou o planeta guerreiro, sou macho, apesar da feminilidade inerente às minhas feridas que crio sozinho; sou um planeta frio e distante, sou nem isso, não sou planeta, sou judas, que apesar de tudo, olhe de novo, nunca deixou de ser apóstolo.

eap

carta nunca enviada

22/08/2013

para jf.

tua ausência eu entendi
à tua tristeza fui órfão - 
mas sempre soube que doía
como dói o amor exausto.

eu sou o futuro da tua dor presente num déjà vu desses indesejáveis. 
a cruz é a mesma? 
a dor é por si só uma e tudo é dor, aqui, lá, aí, sua, minha nossa, sei das dores do mundo, não sei da cura, mas sei dizer manso que como toda ela vem, vai, como nosso destino: a gente corre pra chegar e foge para não ir.
ah minha querida, rua acima desce rego abaixo toda lágrima... somos vis e vislumbramos belezas intensas. sabes das madrugadas, sei das noites de riso e sofrimento. 
poupo palavras, não poupo amor. 
sei que por aí te corre um medo mas é na fraqueza que o músculo se transforma; esse músculo invisível do coração; sei também que a repetição é o mundo dando voltas - entretanto o retorno é conhecido, passarás como tudo passa, e saberá que o espinho que te feriu o pé não estará lá novamente, faz-se parte da tua carne (conquanto não pares), profundississimamente nela se entranhou.
sei que isso é um grito surdo, palavras rabiscadas (também eu apanhei na cara, sofri das dores e inchaços da face, do dente quebrado e das raízes expostas - fiz delas um canal), mas amanhã também o sol nasce e renasce. essa metáfora da vida.
portanto nessa noite, liga tuas torneiras, inunda tua casa, rega teu jardim, vem de volta quando quiseres, vem correndo ao meu abraço, que isso tudo ainda não é nada.

eap

domingo, 13 de outubro de 2013

ensaio sobre sagitário

meus pés querem galgar o infinito, o infinito sem nome das vozes que recorrem à memória outrora esquecida, na verdade meus pés não têm sentido em permanecer na estrada: voo, e é assim que assanho os cabelos e destilo minha liberdade, meus três sentidos d'alma, meus poucos reflexos; já se foram a faísca, o fogo, me resta a brasa, que ainda tem força para queimar, para ser, para ter. mas não quero ter, quero ser, e nisso de procurar, não crio raízes, saio do chão, galgo com as pontas dos dedos, qualquer coisa que me faça sentir prazer de não ter sempre nos olhos este mesmo céu que teima em ser azul, em ser infinitamente azul, indefinida, sórdida, maléfica, doloridamente azul. meus olhos creem, meu corpo sabe, minha mente tosta as ideias que por enquanto tento não mostrar, mas minha língua é pontuda e ferina, qual lança envenenada, e hei de dizer-te, de falar-te, de jogar um balde de verdades na sua cara, seja que cheiro ou espessura e viscosidade estejam contidas em tuas verdades; não negue nada aos meus olhos e ouvidos, não hei de escutar, segura minha mão apenas se for para ir comigo, nunca para ficar, porquê eu não fico, não olho para trás, não vou lá nem para pegar impulso, nem para ver o destroço do elefante que entrou na lojinha de artefatos de porcelana e resolveu sair assustado; não olharei, não atinarei, mas se quiser vir comigo, te estendo a mão, um pouco do meu coração, e a gente pode, quem sabe, saber da alma um do outro, e falar de como foi bom noutras línguas.

eap

39

para: mãe, que não sabe,
mas os versos de antes, de agora
e os de depois são meio seus. 

hoje você dorme com o cheiro da lua. não acho que seja em vão que teu aniversário seja assim no dia das crianças; eu sempre pareci muito mais velho e ranzinza que você, você mesma me pedia conselhos, no alto de minhas faculdades mentais -- ainda hoje pergunta qual melhor roupa, melhor cor, se está bonita. se está bonita?, ora, você é a mulher mais bonita do mundo, a mulher na qual, segundo freud, foi buscar enlaces de traços seus, de destroços seus, mais que eu tenha negado, ou tente negar, tem algo de ideal no teu jeito -- mesmo que vez por outra os astros me digam que cê me deixaria um pouco irritadiço, e deixa, é algo assim que há na perfeição. mas não seja assim, seja mais, se é possível; do teu lado desde sempre, embora já tenha dito dos arrependimentos de existir, hoje me arrependo, acredite. em dias que sim, tem dias que não. mas sinto saudades suas, dos abraços que nunca demos, e que hoje recobro, exagerado, toda aquela gana de te encher de beijos, seja que dia, que hora for, fumarmos juntos, sem temer hoje, conversar, rir, saber desses teus novos amores, desses que sabem que é fácil cair de encantos pelo teu jeito, difícil é te ter, escorregadia (culpa minha). não direi, não direi nada, mas se era difícil dizer antes, agora soa fácil, esse afeto, amoleço-te, cê sabe disso, mas quero-te firme, porque a vida é dura contigo, conosco, mas a gente sabe como driblar ela nos sábados à noite, rindo dessa vida besta que a gente teima em levar. viva mais, muito mais. hoje cê dorme com o cheiro da lua, mas cê sempre me acolheu a noite como tal. cê é a própria lua.

eap

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

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22 de fevereiro de 2013

Meu lugar no mundo eu já não sei. Sei apenas das minhas palavras, e por favor, não me prive delas. Quero entrelaçar-me nos seus grifos, garatujar e engaratujado ser pelos traços e destroços que ela me proporcionar – a palavra não é a vida do escrevente, é arte à parte, arte à vontade, é tudo o que poderia ser e é, entre papeis, nas ideias – que são as ideias senão organismos vivos à procura de espaço, solitude? o que procura existência é algo que procura existir, portanto existe mesmo que sobreposto no nada. assim vivem as palavras que ainda não escrevi, que ainda procuram agarrar-se a ideias soltas que minha cabeça ainda não teve força de juntar.

eap

-



e dar-se – que grande covardia, a minha, claro, de não ser tão bom assim sozinho, de não ser próprio a esmo neste mundo. de não encontrar porto que descansar navegar, navegar... um mar de presente, esse popular galgar da vontade da braçada e ir... pra quê, pra quê, meu deus? busco ilha em que me firmar, aconchegado na maciez estável de areia... distante das marés instáveis. dessas quero distância.

eap

ensaio sobre capricórnio



para mim o que importa é o puro e o sólido, as coisas práticas e úteis, a vontade não é nada se não há necessidade e utilidade. seus ossos e lágrimas só pertencem à terra, em deus, quem sabe, ainda delego gosto pelas virtudes de meu suor. inicio com vontade, gana, e não me importo com as bestializações, as filosofias, as máquinas de sonhos, as sensibilidades – em que cauda de cometa, em que anel desses de poeira de saturno esqueci meus sentimentos petrificados, prontos para desintegrar-se como fosse assim uma estátua de sal, que não olha para trás? –não olharei jamais para trás, porque importa o tempo presente, meu sangue quente, meu suor, minha vida. deixo esse tempo para quem o quiser. importa querer e ser à custa de um retorno inversamente proporcional: nascer cheio de nada, morrer vazio de tudo.

eap

domingo, 28 de julho de 2013

santas e santas


algo do real cotidiano (infelizmente)

mais que ninguém sabia que de nada ele esquecia. seu irmão, outra vez, tivera a audácia de lhe dizer que de nada adiantaria tentar fazê-lo mudar de ideia, aquele, seu homem. nada, porém fazia mudar de ideia a pequena, que de tão bobíssima das ideias de criança do tal príncipe encantado, já se desfizera de todas as bonecas do quarto – quando se debateu em direção à vida, ah, que malogro, o primeiro rapazote já lhe tinha despedaçado as vestes do coração. era mais uma no meio daquela multidão de pessoas que não tinham sequer a coragem de outrora – a coragem que as crianças têm de sonhar com a perfeição das páginas e das vozes das mães antes de dormir.
tão normal. às vezes é um medo do erro dos pais, aquele casamento que deu errado, tanto sofrimento, se desambiguam assim em dois grupos distintos: os que não querem correr o risco de magoar-se e magoar alguém, e os que tentam fazer diferente. badalou os sete dobrares do sino da capitalzinha, e lá estava ele, bigodinho cofiante, profundamente desconfiável, rezando padre nossos e ave marias, ela passa, ele olha, quarenta e seis anos de espera, era aquele, fez-se santo, na parede do quarto de motel (o que tem ventilador no teto e espelho sobre a cama – onde depois da santificação se observaram nus, adão e eva, joão e maria).
toda santa concebida sem pecado na cabeça, ela, a santa, o pecado, lugar nenhum, já que aos dezesseis, seus amores iam às loucuras de pôr-se moça. os moçoilos de mesma idade, caíam desejosos, encharcavam a calçada da baba que lhes escorria. nem aí, que ela tinha o distinto quarentão, na flor da volúpia. o anelzinho no dedo, dele, que importava?, na cama era meu amor, minha vida, meu tudo, meu meu meu meu, minha minha minha minha. que importava a esposa, os filhos, a vida era boa assim. Jesus cristo nascido.
jesus nascida no corpo de menina, entretanto, sua maria era espessa nos prazeres, nada mais, queria seu deus pra seu josé. carpintar as horas dos dias – esse jesus de cabelos loirinhos e voz esganiçada era sua própria passagem aos cantares divinais. as trombetas do apocalipse eram suas posses, seus desmazelos – queria fazer-se dama de copas, gritar e ser, e calar o choro da pequena. calou-a afogada n’água benta da torneira do quintal, cloro, claro, calada, sua propriedade, seu ventre, seu, sua, toda, ante ao sumiço de deus, que subiu aos céus, sem nunca ter deixado de cofiar seu bigode no paletó branco; maria maria, seus olhos vermelhos de ver o mar, o mar vinha e ia; querida, quem é você?


eap

quinta-feira, 25 de julho de 2013

saber-se oceano

perdido no espaço tempo de si mesmo, quase sem pensar, e ao mesmo tempo, pensando no tudo que poderia ter sido, no que não foi, no que a vida ainda há-de guardar. quem sabe se a gente se desencontrasse, pelo menos uma vez, as coisas um dia ou outro chegassem assim, de viés, para nos favorecer -- seja lá o que for. se deixares teu coração e mente frias, um fechado e outro aberto, quem sabe assim, teu sorriso se desbote um pouco menos, mas é como nascer de novo, porque o coração é aberto, e a mente se fecha no espaço que não pertence a este tempo presente, nem a nenhum que por outros dias tenha passado, é o tempo de dentro: inexorável e lento, como nenhum outro, onde as horas são cada vez mais como os anos que passaram de uma só vez, todos os dias, quase como se fosse assim normal. não é uma história, nem uma consequência dos tempos que não perdoam. perdoam o quê ou quem? nunca saber. é preciso nascer de novo, todos os dias, saber da consciência e não das emoções. de tudo isso, resta afundar-se em si mesmo mais uma vez, renovar-se, destemido, que o oceano é um todo profundo -- indestrutível. que da vida que se faz frágil é apenas o deserto alagadiço que povoa -- a essência que corrói a própria essência, o mal que a si mesmo maltrata.
acostumar? 
pode ser, um dia.

eap

domingo, 16 de junho de 2013

dos astros imperfeitos

à  a.b., dessas tardes sem energia
(que transformamos em fumaça)

naquela tarde, havia um cansaço, e próprio dela era me achar louco. mas ela me disse ser de gêmeos, e eu tinha na mente um pessimismo latente em relação às crenças todas - e não somente por estar cansado de falar sobre os defeitos latentes do meu-eu-coitadinho, sempre fodido. que nome: câncer. melhor não seria. até mitologicamente era um covarde, criado para beliscar o pé de hércules enquanto ele lutava, foi esmagado pelo pé do herói -- a deusa, maternalmente, lhe presenteou com uma constelação, também ela uma filha da puta...

e se vangloriava das belezas de ser geminiana, de ser louca, de ser gasta no mundo, de ter o pedaço do peito chamuscado de energia para fazer quisesse o que quisesse. vontade de agaranhar o mundo inteiro com os braços. e se estendia nisso, e disse para ela que nenhum signo é perfeito, e a prova de tudo isso está na obssessão de cada um, a primordialidade de todos, ela me perguntou por quê. dá cá, e a tarde ficava bonita, e eu soltava o verbo, firme e forte, ela parou, enfim, para me escutar.

áries, eu disse, tem a energia do fogo que tudo queima e nada faz além disso, é o fogo primário, a porra do filho mimado. depois a energia se concentra no possuir e no apego às posses -- mas nada é passível de posse, tudo se constrói, desenvolve e morre, e vai, por isso touro, depois a energia se expande, na forma de ar, e busca fazer mil experiências consigo, usando o próprio corpo, esquece-se donde começou a gênese, passível de loucura, mas concentrável, embora pouco, incoerente, bipolar, dúbio, depois a energia se condensa na forma de água -- a água primordial que deu origem a todas as coisas, o útero materno, placenta cheia, o apego maternal, sofrível por dar todo o amor possível -- mas as coisas vão-se, por isso sofre câncer;

fumei, soltei, e ela ouvia embasbacada, continuei, depois a energia volta a se expandir, na forma de auto-expressão, do se ser, do independer-se da experiência adquirida com a ausência, quer estar à frente, leão, mas não há o que liderar, existem os que simplesmente não se importam com o líder, com nada, e a juba baixa, debaixo da patinha murcha os olhos de gato, ok que cê adquira a experiência de se auto afirmar, ok, daí pra frente vai existir o julgamento, o auto-julgamento, a busca da perfeição de virgem, também impossível, cê mais que ninguém sabe... aí depois desse julgamento, a energia buscará o equilíbrio de tudo, continuará enlouquecendo, constantemente, pela ausência desse equilíbrio, um equilíbrio que só se consegue sozinho, então por essa ausência buscava-se a intensidade dos sentimentos reprimidos desde câncer, só que com a força acumulada, duma água que tem a capacidade de se refazer mais rapidamente, para começar o processo de loucura, de insanidade, de força, que chora, mas não demonstra, que quer e pode e é;

tossi, umedeci a garganta e continuei, cerveja na mão: cê sabe que das energias é o constante processo de transformação, isso é lei da química, da física, foda-se, a energia astral se volta novamente para o mundo, para se expandir, e busca uma auto-afirmação baseada na liberdade, na vontade de, na ausência dessa vontade, que é inerente ao ser humano, o cansaço mata o último fogo latente, que apaga-se aos poucos e tristemente, a força sensível e livre de sagitário, resta a ele concretizar, tentar pelo menos, as experiências que tentou adquirir e obter lucro com isso, mas, é tanto conhecimento junto, tanto, que a prática falha, e o que se vê é um capricorniano, inteligentíssimo, entretanto, sem dedos para moldar a filosofia, a ciência, e o último grão de areia se desfaz assim, como quem não percebe, então a busca é pela quebra dessas convenções adquiridas, essa ciência falha, essa coisa toda que acabrunhou essa energia, é a loucura no seu estado mais anárquico, independente, quase, quase nada, suicida mesmo, kurt cobain tá aí pra nos dizer isso... Sei que nessa tal busca, de uma realidade completamente destruída, imagina você um cenário de psiquê apocalíptica, onde nada mais faz sentido?, qual tua primeira reação, já que você não se suicidou nem morreu em meio à loucura na qual se prendeu?, você busca a água profunda dos oceanos, tristes, escuras, que na margem de câncer deu origem à vida conhecida, agora é o último abrigo, onde se sonhará numa realidade diferente, embriagado pela crença, pela fé de que isso aconteça, busca-se isso dando-se, entorpecendo-se -- cê manja que existe uma conversa de que quem é residente em peixes é a última vez que encarna, né?

bebi o gole da cerveja, e disse: os signos nada mais são que a prova definitiva de que somos passíveis da imperfeição, jamais seremos perfeitos, e por mais que busquemos e que um dia haja essa tal convenção que nos diz do certo e do errado, vai haver sempre alguém que o diga, que não é o amor, mas sim a liberdade que é certo, que o amor priva a liberdade, que não é a liberdade e sim as posses materiais que trazem o estado perfeito de felicidade e satisfação, então alguém abre mão das posses e lidera uma guerra para provar que ter o mundo inteiro é a melhor coisa a se fazer, e guerreia, e conquista, mas, sem saber o que fazer dá início a um ciclo de tudo que nós conhecemos na história até hoje: homens que se sacrificaram pelo amor, outros pela guerra, uns pela liberdade, outros pela fé, enfim.

foi um silêncio tenso e bonito que se seguiu, e eu só pude esboçar mais uma coisa que ainda não tinha ocorrido: o pôr do sol tá indo embora e acabou-se a cerveja, acho que a gente deveria voltar pra casa.

eap

segunda-feira, 20 de maio de 2013

sub(ida)


inclusive nunca me atinara a vontade de voltar, proteger-me demasiado, saciar a sede na água da garrafa, acender um cigarro, ler um pouco, os óculos repousados sobre nariz da luz embaciada da cozinha; me proteger da chuva, me proteger da rua, sob a vontade dum frio desejado, ouvir a chuva de longe, ouvir a rua de longe, evitar a rua, evitar a chuva, o mundaréu de gente, aquele sopro no dorso do pescoço, os perfumes que nem beijam nem se escondem, os olhares cobiçosos; pegar um táxi correndo, sem qualquer proteção, não dar palavra e atravessar a cidade desfazendo o percurso de ida, numa velocidade que te assegure no assento; inclusive, disso posso garantir, aquela vontade de dançar passara, mesmo que os atabaques fossem mais altos que a reverberação dum vaguear doido por ali – saber-se não-sozinho e sentir-se melhor, livre: mais livres os braços, os olhos e a cabeça e os cabelos... regidos pelo mesmo signo, ess'água que nos afoga, podia ver na cabeça loira e no suor que escorria e na água que nele se espraiava e na sua loucura tenra, algo doutras épocas; aqueles tais atabaques se sobrepunham a qualquer fartura de xamã qualquer, orixás e babalaôs, farofa e galinha assada, cachaça prata, nada nada nada (naquilo) daquilo, nisso, minha cabeça zonzeava sem entorpecer, sem nenhum minuto padecer sob nenhuma circunstância, mesmo esforçando e ainda por cima chovia, rua acima era temporal fechado, um vendaval na minha testa, abrir-se o chão, levasse o que fosse, levasse pr’algum lugar, que dessa rua eu só sabia que subia, descia, encontrava-o, sua voz grossa, sua loucura de cachaça, de cigarro, de baianice, baianidade, idade, nenhuma, sofrimentos de 6 minutos de uma casa pequena com uma varanda chamando as crianças pra jantar, isso é pra viver, ou morrer?, sua preguiça, a memória sortia-me, em casa, encharcado da rua, da chuva, um cigarro, saciar da sede da água da garrafa, a vontade de voltar, de cama, de travesseiro, inclusive.

eap

domingo, 14 de abril de 2013

pode ser que sim

pode ser que um dia eu o perdoe pelos erros do passado, pelo vago pesar do seu andado, pela maneira como deixa fugir dos dedos seu não ser de antes. sua não maneira de ser. mas hoje não. e não adianta força: feridas têm o tempo certo de se fechar, de se cicatrizar, de não sobrar nada, nem aquele vago resquício de mágoa -- todos têm seu tempo. 

lembro sim, que andávamos juntos, ríamos, conversávamos (quando criança era tudo melhor). quase vislumbro numa memória 'polaroidica' nós dois juntos, ele, eu sobre uma velha moto preta ou vermelha; eu era pequena criança rechonchuda, branquinha, à frente, do meu próprio riso nem me imaginava a carranca de hoje, esse silêncio pesado. na garagem tocava os alquimistas estão chegando, de jorge ben... sabe lá dessa nostalgia.

eap