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sexta-feira, 31 de maio de 2024

pulso

tropeço nas pedras, inválido.
consigo premeditar o estampido
porém, refém da gravidade, caio,
boca na sarjeta pr’onde verte o córrego
e na rua escura, minha tragédia
é rir da comédia que faz chorar.
as feridas vertem sangue
que se misturam às turvas águas.
já acodem meu corpo,
peso de uma vida a reboque
de uma desenganada morbidez
que floresce do descaso
com que venho tratado a mim.
escolho o sofrimento pelo conforto
e essas palavras pululam a derme
encharcada de sujeira que, satisfeito,
recolho de mão cheia.
voltam velhos pensamentos,
mas com tal intensidade,
que chegam às vias de fato,
enquanto recolho meus ossos e gordura.
o doutor-açougueiro sutura
o rombo abissal que me amedronta
e me fascina;
profere palavras de cautela
enquanto a inflamação lancina
fisga firmemente e febrila
madrugada adentro, alucinado,
confeccionando a mortalha de minha algoz
que porta bate estaca
enquanto sua silhueta se agiganta.
febril, 39 graus.
vocifero blasfêmias como possuído,
mas não há demônio,
somente o pobre diabo,
que desejou ter partido infeccionado
untado num sarcófago de cera
feita de meu próprio pus enrijecido.

mar de musgo

rascunho velhos versos
em busca de coisas perdidas
como se garranchos mal-acabados
pudessem me dizer mais
que meu mapa astral

e conforme lembro
deflagro guerra contra mim
na vontade de sentir novamente
sentimentos antigos
sem pestanejar

navego sem norte
pelo mar de musgo
que revolve minhas braçadas,
pesadas braçadas,
que me prendem no mesmo lugar

uma guerra vã contra a memória
recheada de culpa
recheada de mágoa
e alimenta os dias mais solitários
sem cansar, ressaca escura.

refazer a trilha, bússola retida
incansavelmente perdida
parte do momento que errei
e deixei para trás
tudo o que tinha certo
ao sul de lugar algum.

mas quais correntes são verdadeiras
quais são inventadas 
pela ilusão da terra firme
essas memórias lancinaram
meus ossos e órgãos
com a gravidade
de 1 tonelada de mágoas

uma sereia surrada lembra:
"quem bate não lembra
só quem apanha",
pois olhai para mim
que bati e lembro
de cada segundo!

queria não querer esquecer
tudo isso que senti
faz parte de mim
parte de você
e aprofunda pelas braçadas
de chegar à terra firme
tão perto
e tão longe.

morrer de sede na água salobra
livre na imensidão
preso pelo peso
de dias intranquilos.

domingo, 18 de setembro de 2022

o cronista de meus amigos

meus amigos estão cada vez mais distantes
e eu deles, também,
porque é assim que tem sido.
mas nada pode e nem será mais como antes.

caminhamos calados, taciturnos, reclusos.
vislumbramos na alvorada, com certo espanto,
a porta de saída, a poucos passos,
e tantos dos nossos já a cruzaram.

cada qual a sua maneira, toca como pode,
porque é assim que tem sido.

não sei ainda se caminhamos por querer,
ou simplesmente estamos sendo empurrados,
mas não deixemos de dar as mãos,
por favor, não deixemos.

tudo é triste e sombrio hoje,
mais que quando supúnhamos ser
os anos mais felizes de nossas vidas,
e hoje o desbotado dos dias embota a rotina.

sei que há um sabor amargo
em cada verso que tritura os dedos,
mas sei também,
que no finzinho dessa fruta tem doçura

pois, qual não é o gosto das memórias
que guardamos das calçadas quentes
sob a sombra das castanholas
e dos dias mais nublados?

marchamos como quasímodos,
levantados do chão.

esse sentimento, agridoce, na língua
fica pra sempre? queria saber.
ou no momento certo, cederá
ao melhor que podemos ter ainda?

"eu vou seguir o caminho do verme",
dizia uma música que ouvi na juventude,
e o cantor, à época, tinha a minha idade,
talvez certas dores, acabem sendo comuns.

enfiados no fundo da memória,
os rostos dos meus amigos não tinham
cabelos brancos despontando
e eu sigo sendo o cronista do fim.

terça-feira, 26 de abril de 2022

desabafo dos 30 e poucos

30 anos e o medo ainda é o mesmo de dez anos atrás:
todos os momentos que guardei
hoje são como momentos fugazes
e coisas que me pareciam antes
tão importantes
estão empoleiradas e empoeiradas
na estante dos grandes fracassos que acumulei
eu mesmo durmo neste espaço às vezes
agarrado aos sonhos de ser um poeta,
um romancista, um contista, um músico,
um diretor de cinema com assinatura própria.
hoje, a arte daqueles dias evaporou e paira sobre minha casa:
tenho o ímpeto de sê-lo, mas nunca poderei tê-lo;
agarrar o vapor de ar que se espraia como ilusão,
e, como todos os meus pares, poderia ter sido tanta coisa.
mas não me debulho em lágrimas,
todas elas evaporam, hora ou outra,
tudo o que poderia ser e é, é o que está,
talvez outras escolhas, outras escolas,
outros erros que transformaria em acertos,
justificando todos os pecados que quis e gostei de cometer,
ao menos, na curva do destino, terei a noção
de que todos as minhas escolhas me trouxeram aonde estou hoje,
como não posso me queixar de ter sido falho,
mas quem nunca o foi, pensando em sempre acertar
e estar certo em tudo?
talvez minha única virtude foi nunca ter mirado na certeza,
mas nas dúvidas do caminho, ou, sequer, ter pensado,
na montanha-russa vertiginosa da vida
minha escolha foi sempre seguir reto,
como um autômato que esqueceu de ter outra programação
e pensando bem, 30 anos de escolhas não são 30 anos de erros.
olhando para trás, carrego bons momentos,
e eles são tudo o que posso me orgulhar,
estar vivo, apesar de tudo, estar são, apesar de tudo,
estar eu, apesar de todos,
dobrei-me, com certeza,
sem a pétrea certeza do ferro, mas a maleabilidade do plástico,
e a plasticidade da vida foi tornando os dias mais amenos
bem como existir se torna, cada dia menos, um fardo insuportável,
como um dia foi,
pois, aos 10, aos 20, o momento é o agora, 
e a mudança é para ontem,
hoje as mudanças podem ser amanhã, pois o hoje é impróprio.
até mesmo estes versos foram adiados à exaustão,
pois eles acontecem no momento em que a realidade me consome,
e mesmo a realidade é um mundo paralelo à parte,
de programas a serem executados e sofrimentos pelo tempo curto,
eu não sou mais o poeta de 2012,
tampouco o de 2014, muito menos o de 2017.
o poeta de hoje escreve com a incerteza de que esses versos
não poderiam ser uma prosa envergonhada,
mas também, quem sabe, essa seja a maneira que encontrei
para expressar melhor todos os sentimentos amalgamados no ar
que não sei se são bons ou ruins, se são coloridos ou não,
o fato é que a realidade me consumiu enquanto verso,
parágrafo ou texto e hoje não sou nada mais que um tijolo.

sábado, 24 de agosto de 2019

para uma poesia classista

não ao individualismo
não ao eu
não ao intimismo
não ao singular
sim ao plural
sim a nós, vós e elas e eles
sim à classe
sim à maioria
mas, sim, aos desejos do homem
sim à necessidade e à luta
sim a um mundo que perece
nas periferias
em cada favela, rua e chão de fábrica
sim ao despertar constante
da consciência de classe,
sim ao estímulo à luta
contra nossos senhores
entre nós a certeza
de que existe um conflito
que vai além do ódio
que precisa de norte
que precisa de luta, pão e revolução.

paz entre nós, guerra aos senhores

mais vale a nossa luta através dos séculos
que esses reacionários,
mais vale o momento,
que as mentiras,
e o resto, é construção, corpo a corpo, olho a olho,
e não nos enganemos: é uma luta de uma vida,
talvez de duas e meia,
mas é a única luta que vale a pena.

delimitemos nosso front,
sempre foi assim e sempre vai ser.
nossa arma é a palavra,
é a ideia, a verdade e a história.
e o resto, é ficção, mentiras e mais mentiras.
e não nos enganemos: nos nossos dias, todas elas
têm o mesmo valor da verdade
para quem não nos quer emancipar -
mas é a única luta possível.

não é necessária a piedade ou compaixão
por aqueles que nos tem
escravizado através dos tempos,
muito menos com os detratores de nossa causa.
a vitória há-de vir, mais cedo ou mais tarde,
o resto, são tigres de papel,
e não nos enganemos: essa luta já tem vencedores.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

tudo há-de se iluminar

tudo se ilumina com o tempo
mais que os obscurantistas estejam aí,
o que importa é que mais dia menos dia
tudo se ilumina.

demorou séculos na idade média,
demorou décadas na ditadura,
talvez esta fase demore anos
mas o que importa é sempre chega o dia
na mais demorada noite escura.

é fato que existem pessoas cegas,
mas são poucos os que conseguem
enxergar na noite escura,
apenas aqueles que andam
com uma lanterna de conhecimento
sabem que o mal não dura.

e eles vão tentar esconder a luz,
apagar o registro geral,
atirar contra nós
e alegar que foi acidental.

vão nos dar facões
e vão bradar
que o inimigo está nesse quarto,
e nós vamos nos cortar
antes que tudo se torne mais claro.

eles vão dizer que era impossível prever
mas meus olhos estavam bem atentos
meus ouvidos ouviram as vozes:
e eu vi a mão no interruptor,
e as gargalhadas dos nossos algozes.

eles nos querem cegos,
eles nos querem desorientados,
eles nos querem com ódio,
eles querem nosso sangue
e vão, inevitavelmente, ter.

mas não importa: tudo se ilumina,
tudo há-de se iluminar.

daqui a alguns anos,
vão fazer mea culpa,
vão apertar nossas mãos,
nós pedir pra limpar a bagunça
e nos fazer sentir certa culpa.

mas a história é clara
e há um grande volume
debaixo do tapete.

não dá mais para esconder do que essa gente é capaz,
mas eu sei:
que antes de se iluminar completamente,
ainda vai escurecer um pouco mais.

mas sejamos fortes,
vamos dar as mãos
a quem merece;
soltar pelo menos uma
e usá-las como se deve.

apertar o pescoço
que já vem com força pronta no nó da gravata
sentir seus corpos estrebuchar,
e em cima deles
criar uma sociedade que vai prosperar.

o inimigo é muito claro:
e não é este que está nu e desqualificado,
este aí, é só um ventríloquo
seu mestre está de terno num blindado.

eu sei que parece difícil,
eu sei que parece terrível,
mas tudo se ilumina, acredite quando digo:
essa história ainda vai ser escrita
pelas mãos de quem está resistindo.

terça-feira, 23 de julho de 2019

a saudade nos envelhece rápido

para laís helena alcântara souza
a quem devo saudade, afeto
e um espaço preenchido na história e na memória.

eu entendo tua partida
entendo que houve uma dor.
uma dor tamanha,
que não se mede pelo que sobrou.

queria entender mais
pra segurar uma tristeza tamanha
que também não se mede pelo peito
e é composta apenas de uma força estranha.

não posso voltar no tempo
mas se pudesse iria
te abraçar sem hora de acabar
te segurar as mãos
e não deixar esse tempo passar.

vou deixar teu nome no tempo,
vou deixar teu nome na história,
pra deixar que, sempre que precisar,
saibam que laís ocupa uma memória.

[mas fique aqui por perto,
fique aqui por dentro
e crie suas raízes
dê seus frutos, dê suas flores, dê suas sementes,
dê seu riso, dê sua presença, dê sua lembrança
mais além que uma pedra com teu nome e foto.
é o que fica dentro de nós que vai ocupar um espaço fora:
esse espaço vazio preenchido de ausência.]

já tenho saudades de você,
e essa saudade durará pra sempre,
o arrependimento também
- e deus sabe o quanto dói,
mesmo que eu seja incapaz de chorar -
fico pensando,
olhando esse vazio que você deixou,
não faz nem um dia,
e eu já me sinto velho de saudade.

tomara encontre o bem -
e se puder avisa, se puder me diz,
se puder me conta se você já tem a paz que sempre quis.

eu vou ficando, vou levar como der.
tenho tantos planos, tantos projetos,
ainda vou realizá-los - porque é o que me move
e vou te contar quando for aí - se você quiser.

terça-feira, 16 de julho de 2019

pixo

isso, de se escrever na parede das coisas,
ainda vai dar pano pra manga,
vai ser folha pras histórias
e ainda vai ocupar os espaços
de todas as memórias.

isso de ser
mancha preta em muro branco,
de levantar teu olhar pra cada canto,
onde a cidade se subverte em alento
é herança djalgum banto
perdido de nossa veia em algum momento.

isso de ser
mancha vermelha em roupa de varal,
na calada da noite tingida,
por coturno e boina cinza,
inda vai ser odiosa manchete de jornal,
nas calçadas de casas e lajes distintas.

mas é nas calçadas e nos céus de fios de poste
com vozes agudas que não podem fugir
abafadas em cigarro
e afogadas em café forte,
que eu vejo todo dia essa tinta emergir.

e eu, que já cansei de caiar esses muros
cansei também de esperar
e deixo o pixo do muro,
que é pela voz deles que a cidade vai falar.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

sem título 121

tem esse silêncio
cercado de barulho
no caminho pra casa.

eu o abraço
e me aconchego
e vejo a dança dos fios dos postes
feliz, como uma criança
que descobre a física
das coisas não ditas.

tem essa aura suja
que carregam as capitais:
é peso demais
pra se carregar
numa única chuva
que cumpre seu papel
de lavar nossa sujeira
e escorrer
uma lama
que só se desloca de rua a rua
como este ônibus
que me leva
do ponto a
ao ponto b
sem demora
e como sujeira,
eu vou embora.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

caçada

você vai me seguir
você vai me procurar
você vai se frustrar
você vai se fingir
de amigo e conversar

você vai me seguir
você vai me abordar
você vai se cansar
depois de me infligir
tapa e pontapé, tentar dialogar.

você vai me torturar
e eu vou conseguir
enfim me libertar
sem soltar um único a
até você se frustrar e me matar.

não vou ser mártir
não vou ser herói algum
mas vou te assombrar
à noite, quando você deitar
debaixo de sua cama vai checar

e quando eu for fantasma
monstro que você criou
você vai se perdoar
lamber suas feridas
e me incriminar

mas tudo bem,
tudo bem,
eu vou ficar bem,
tudo bem,
tudo tem o seu tempo,
tem e vem,
como tudo na vida
eu vou levar bem,
numa boa.
no além e aquém
do que tem de estar bem
sendo eu:
seu ninguém.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

estrangeiro nativo

eu não sou deste país,
eu sou cidadão do mundo,
eu sou cidadão do fundo
de um quarto escuro.

eu não sou empregado de ninguém,
eu não sirvo a mestre nenhum,
eu crio os meus castelos e moinhos
e com meu escudeiro, vou além,
vou pra lugar algum.

eu não falo português,
eu falo outra língua,
não adianta me imitar
nem tentar fazer rima,
eu sou latino americano,
tenho sangue quente,
não tenho eira nem beira,
mas sigo contente,
e toda vez que me acusam
eu chamo toda a gente,
pra bater, pra te xingar,
quem sabe até te esmurrar
e fazer careta,
ocupar uma rua
ou uma cidade inteira.

eu canto samba de raiz
mas curto rock n' roll,
não faço questão de ir a igreja
e faço dos versos o meu show,
não toco violão, não tenho oração,
mas guardo sempre a boa intenção
de fazer valer o que eu sou.

eu não sou brasileiro, eu sou cearense,
sou de fortaleza, do itaperi,
que é lugar de gente,
eu sou dessa rua, eu sou desta casa,
eu sou minha família,
eu sou minha asa,
não tenho eira nem beira,
mas faço como ninguém
um café e puxo uma cadeira
pra conversar dessa situação,
desse nosso sofrimento, desse novo apagão,
eu falo dessas coisas e não digo nada
durmo tranquilo quando não faço amor de madrugada.

sábado, 19 de janeiro de 2019

sapato emprestado de um amigo (ou carta em versos com a voz de belchior)

eu uso sapato emprestado
já há mais de 3 anos
e é o sapato de um amigo, que chamava de ex
tamanha infantilidade
eu nunca pensei.

mas olha, meu amigo eu te carrego comigo
e faz mais de um ano,
mesmo que se falar
a gente já não fala faz um tanto.

eu peço desculpa pela minha ausência,
quanto mais eu sumo
mais o coração cobra clemência
porque hoje o que eu carrego comigo
é mais que dois pares de sapato
um cadarço encardido
e um solado desgastado
eu carrego minha vida
pois não me esqueço nunca daquele dia
em que eu quis me matar
e você me levou numa viagem
que eu neguei por não enxergar
o bem que você me fazia.

hoje eu sou arrependimento
mas também sou gratidão
pela sua companhia
mesmo que tão ausente
e a culpa é toda minha.

eu carrego bem mais que léguas andadas
eu carrego também
as canções que foram cantadas
no calor daquela casa
e as muitas conversas regadas a cachaça
e coca cola pela madrugada na sala.

é, meu amigo, talvez esse sapato eu não devolva
mas quero retribuir essa amizade
essa paz que você leva e traz consigo
que é um caos calmo e contido,
apenas pela alegria de ser.

é, meu amigo, eu verso na voz de belchior,
e creio que esse presente ruim, ainda vai nos trazer
algo muito melhor
ou até muito pior,
mas eu acredito no seu sonho
ele é um pouco meu também
e esse sapato, eu lembrei,
calçou meu pé tanto tempo
findou sua sola,
mas não se preocupe, que convém
que na minha próxima visita
leve uma bebida na sacola
e uma conversa pra uma boa prosa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

mi carino II

é um carinho mudo
que eu nutro no meu canto
pelas coisas bonitas do mundo.

tenho vontade de beijar meus amigos
desconhecidos
irmãos
sentir um abraço quente
bater no peito a peito
mão a mão.

é esse sentimento de concreto
que se solidifica no meu peito
como uma imagem criada
instantaneamente.

bebo o amor líquido
enquanto trago meu cigarro
tomo meu café
enquanto espero um afago.
e como uma luz que se exalta em meu peito,
eu ilumino meu caminho,
na direção certa de um abraço.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

um conselho ao poeta romântico

o poeta baixo é grande
quando fala por uma mulher
o poeta, eu acho,
não está interessado no que ela quer.

o poeta fala, versa a mulher amada
odes e sonetos sobre a mulher invisível
sobre a mulher sonhada
sobre a mulher impossível

a mulher sem pêlos,
a mulher sem cor,
a mulher sem anseios,
a mulher sem amor.

é fácil matar o poeta,
se uma mulher começar a falar
é fácil enforcar um poeta
se ela começa, ela mesma a versar.

o poeta instituição, histórico,
o poema indiscreto de coxas e seios
de boca, de lábios, de desejo irrisório
de quem a mulher não nutre desejos.

imagine a mulher que fala do falo,
da frustração do homem mediano
imagine a poetisa que diz não me calo
a uma versão minha que não amo.

imagine você, que a poesia é feminina
que o poeta cria seu verso infantil
crescendo nesse substantivo que culmina
nas criações de uma mente indiscutivelmente viril.

o poeta tem que mudar sua poesia,
o poeta tem que ouvir uma, toda mulher
saber que seu horizonte se amplia
a medida que fora do corpo se constrói o que se quer.

respeite o corpo que versa, pense nisso!
é mais fácil que descrever o impossível
e se matar aos 27 por ter sido omisso
ao pouco que se preze do que é crível.

este mesmo poeta, se revisitado, tem suas falhas
é impossível não ter sido um erro antes deste fato:
pensar fora do corpo feminino e das suas saias
e deixar essa masculinidade velha e aborrecida no passado.

pense nisso, poeta; pense com carinho!
vamos criar novas crianças com um amplo horizonte
e fazer dessa geração um exemplo, um caminho
para ir mais além do que fomos, para ir cada vez mais longe.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

uma canção desesperada

eu tenho um violão e umas ideias na cabeça
e faço delas o meu norte pras palavras.
eu tenho poucas notas, mas carrego uma certeza
-- e faço dela o pedestal pra minhas mágoas.

eu tenho uma vontade e um milhão de desejos
e faço deles aço pra construir minhas asas.
eu tenho um sonho e um bolso cheio de segredos
e em cima deles me sinto a prova de balas.

eu tenho tudo o que preciso para ser quem eu sou
tenho o tempo comigo para ser meu abrigo
eu tenho a pólvora pro meu canhão de amor,
sou o mais perigoso terrorista do meu inimigo.

eu faço versos e não a guerra do homem,
que serão eternos como a esperança
eu faço guerra contra a ignorância de quem tem fome
pra que eles se juntem a mim num levante de vingança.

eu tenho uma canção na garganta pronta para entoar
e ela agora é cantada entre suspiros e murmúrios.
eu tenho essa canção e ela um dia vai ecoar
vai fazer cair as armas e derrubar os muros.

eu tenho uma visão que no escuro envaidece
eu tenho uma cegueira que na madrugada é trunfo
eu tenho uma missão e o dia ainda amanhece
e quando isso acontecer a gente vai...

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sem nome nº 120

que mordaças são essas
que me aquecem a boca
encharcada de sangues
de outras eras?

que mão é essa
que estrangula minha garganta
com unhas negras
e força meu silêncio?

quem são esses fantasmas
que me perseguem
silenciosamente
pelas sombras da cidade?

de quem é esse grito
que abafa o som
de tantas vozes --
seriam eles, meus algozes?

que bala é essa,
que não é perdida,
uma vez que meu corpo
está caído na esquina?

eu continuo ouvindo passos
na calada da noite
marchando uniformemente
todos em direção ao abismo.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

depois do fundo do poço

percebi com os meus olhos baixos
que o caminho que seguimos
é cada vez mais sombrio.

por mais que arregalasse meus olhos,
por mais que acendesse as luzes,
estávamos caminhando
ladeira abaixo nessa escuridão.

o porão do fundo do poço
foi descoberto

e cada um de nós caminhou,
uns a contragosto
outros por vontade própria
e uns, ainda, empurrados sem saber,
nesse piche
que queima e gruda na pele.

o sangue negro e do índio
correm pelas nossas mãos,
pelas nossas calçadas,
mas cada vez menos
são bombados
pelos nossos corações.

quando assim fechar-se a tampa do alçapão
vamos dar conta
que o último prego
da tábua que fecha este lugar escuro
ao qual fomos jogados sem escolha,
é o único lugar possível
para aqueles que já estavam tão próximo dele
mas que tinham medo de estar lá.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

morrer de viver de morrer

o que é a morte
pra que se vive
porque não se morre
quando se quer
sem dor
sem trauma
sem alma

por que morrer tem que doer
em mim
e em você
e em você
e em você

por que morrer não é como uma viagem
longa, distante e sem previsão de volta
por que?

morrer dá sentido à vida
ou a vida é
fator da morte
tudo é certo
inclusive
que ninguém precisa
morrer

tem tempo para vir
e tempo para ir
com livros que não vieram
e livros que nem fomos
filmes que virão
e filmes que nem vimos
e há também
tanto amor no mundo
que não sabemos
como mensurar.

morrer é bom
quando se morre

existem mil razões para ir
tão poucas para ficar,
o pêndulo balança
para qualquer justificativa
igualmente – seja porque somos pequenos demais
ou grandes demais
para tão pouco espaço
morrer é solução
para quem busca mudar
e não muda porque não há espaço
ou existe
espaço demais
nesse mundo que é universo.

apenas tente,
apenas fique,
há tantos cafés
e delícias
e palavras
que vão ficar vazias
sem que exista uma voz
para dizê-las

há tanto amor para se dar
receber
e fazer

tantas pessoas para
conhecer
matar
e morrer

mas não você.

existe esse relógio que pende
o relógio do fim do mundo
o relógio do fim de tudo
vamos contar esses segundos
e ver
até onde o nosso corpo aguenta
porque morrer
vai doer sempre
se não em mim
mas em você
em você
e em você.

poema rápido para as paranoias recentes

dia e noite a gente se fala
é engraçado pensar
que parece que a gente se conhece
quando tem tanto por dentro
que ainda me faz duvidar
quando bate aquela paranoia tal hora
da madrugada
quando você dorme
e eu fico acordado, fitando o teto,
pensando em fumaças
e onde é que eu comecei a te perder.
mas eu não te perco
a gente se acha
mas eu não quero me achar
ficar todo pomposo, cheio de mim.
eu gosto dessa humildade quase servil
que eu te ofereço
de nunca ser bom o suficiente
porque nunca sou
porque nunca serei
porque sou homem
e isso é tudo o que posso ser.
eu te entendo, eu penso que te conheço,
mas sei o que há agora
o que vem depois é bom saber na hora
em que a gente ri
só quando os dedos acariciam o pescoço
e cê se retorce com um sorriso e uma gargalhada.
nesses instantes, até o meu sopro
te faz rir
e quando cê ri
eu deixo fluir um rio inteiro de felicidade
que fica aqui dentro
esperando qualquer lágrima ou saliva
pra se encher
e voltar a preencher versos
quando na verdade eu só penso mesmo
é em pegar um ônibus e um táxi
descer na tua porta
dar boa noite ao porteiro,
desembocar minha mochila no canto da parede
e dormir agarrado ao teu braço
de calça, descalço
sem medo do tempo
sem pensar em nada
só naquele momento
em que a gente se esquenta
mesmo que não precise
nesse calor das noites de fortaleza.