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quarta-feira, 5 de junho de 2024

o amor que levo

tenho teu amor de vingança
para me proteger
dos perigos de um mundo tão duro.
e é bom ainda saber
que eu tenho um amor espada e escudo
metralhadora, míssil, arpão,
tenho teu amor de herança
que molda tua memória como artesão.

tenho teu amor em mistério,
que guardo comigo no peito
e rogo que não seja estéril
posto que ele por mim foi desfeito,
e as culpas desse amor misterioso
queimaram minha pele morena
descascadas, fiz delas couraça
pra me proteger do desamor insiodioso.

carrego teu amor de bagagem
que quando a mente atormenta,
pesa uma tonelada,
quando vou em paz, alimenta,
é cura, remédio ameno,
amor-mantimento: curativo, muleta
amor-mercúrio: corrosivo, veneno.

encrostado teu amor enquanto tatuagem
dor boa enquanto feita
marcado em tinta escura
cicatriz que o tempo enfeita
as cores já até desbotam,
mas preso em mim eternamente
enquanto dura.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Disparate para N.O.A.

Queria te encontrar para dizer que estou feliz por ver que as coisas têm dado certo para você - sim, eu sei que estão, e você sabe que eu sei.

E, por incrível que pareça eu lembro dos nossos últimos momentos com certa amargura mas com um tom de misticismo que eu nunca entenderei como pude ter tido tanta certeza do que fazia. Porque, por mais que nos amássemos (e nos amávamos), sentia em meu peito que eu era um vírus para a sua vida.

Embora a cidade tenha ficado pequena demais para você, com todas as ruas dando de encontro para o seu rosto, é certo que retirar a única pedra de sustentação do teu caminho foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por você. Claro, que, ao falar isso posso estar dizendo que eu era para você como se fosse um deus - mas eu e você sabíamos e sabemos ainda que deuses não existem e eu também não me consideraria um.

Lembrei, enquanto me agraciava com tuas vitórias, da história do cara que chuta uma tal vaca do precipício, mesmo sabendo que essa vaca era a única fonte e sustento de uma família. Logo depois ele volta e vê que a família prosperou.

Diferente da família que não via um futuro pela frente, eu enxergava em ti todo o potencial que uma vez vi em 2009, quando éramos amigos, ainda na batalha - daonde o nosso amigo Metal está hoje em Novo México - e eu sabia que tudo o que fazíamos era um desperdício.

Não digo com isso que me arrependo. De jeito nenhum, a vida segue, e o máximo que podemos fazer é pegar carona nela.

Mas ao me chutar da tua vida rumo ao precipício, não posso deixar de crer que você cresceu e muito e grande. Era esse o estímulo que você precisava. E, claro, sinto muito se fui rude no modo como pus as coisas ou se nos momentos seguintes as coisas ficaram mal esclarecidas.

O fato é que, eu sempre serei um vírus - e não falo isso para me autodepreciar, é da minha natureza isso. Nunca fui a sustentação que eu mesmo precisei e me sentia culpado de não ser a que você precisava naquele momento.

Assim sendo, a única coisa que fica para a minha própria reflexão é saber o que preciso chutar de minha vida para que ela comece a dar certo?

Será que você sabe a resposta?

De qualquer maneira, em algum momento eu posso estar sendo o vírus de outra pessoa, mas eu não o quero ser. Só que desta vez, ao invés de refazer o que fiz, vou procurar a única saída possível que é obter o melhor que o esforço real por algo real é capaz de oferecer.

E é isso que você tem que eu ainda não tive.

Precisei esperar 26 anos para descobrir que até aqui viver não passou de uma mentira e que os planos de verdade vão começar agora. É o fim da letargia.

Nunca poderei dizer isso pessoalmente, mas sei que você sabe que pode me encontrar aqui. E quando estiver lendo isso, saiba que estou verdadeiramente feliz pelo rumo que a tua vida tomou.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

a fortuna da carteira

um assaltante me pediu a carteira e respondi que não ando de carteira.

juro por deus, não ando de carteira. 

mas, veja: objeto mais íntimo não há. mais íntimo que o celular que entreguei de bom grado, com todas as fotografias, rascunhos de futuros versinhos, minha agenda telefônica -- sou péssimo em relembrar números.

mas raciocinei porque não uso carteira, e descobri que é que por ela, me resumo:

abro: cartão de crédito desativado, cartão de débito de contas canceladas, documentos inúteis, um dólar que trouxesse, ansiei, fartura -- não funcionou -- e fotografias.

eu com a máscara do batman.
minha mãe.
meus irmãos.
você (sim).

eu não gosto de abrir essa carteira. lembra que lembro que tenho saudades.

domingo, 31 de maio de 2015

quando for saudade

quando eu for saudade as coisas vão ser mais fáceis.
não terei a obrigação de estar, nem de ser.
não farei mais planos de surgir do nada,
de falar qualquer coisa que te sugue a tristeza
ou de ainda desmanchar os descasos que criamos
apenas para nos dizer que tudo é imperfeição.

quando eu for saudade a tua mente vai deixar ir
todas as palavras mal-ditas e quem sabe até
ver em cada uma delas uma veemência de sanidade
ou mesmo ser lembrado como alguém ou algo
que nem sempre era agrado, era desequilíbrio,
alguém que chegasse e desmanchasse as coisas
para participar somente da reconstrução.

quando eu for saudade, ah, terão fotografias,
terão cartas, poemas, e-mails, gravações, camisas,
filmes, frases, citações, a marca do cigarro favorita,
músicas, textos, lugares, bebidas e perfumes,
que na rua, na casa, na vida, serão avenida
que cruzará a rua que terá meu nome, meu sobrenome.

quando eu for saudade a saudade há-de ser verdadeira,
que era de ontem, anteontem, mas, coisa passageira,
quando a saudade se fizer presente e meu corpo ausente,
minhas saudades de ser saudades serão tão nítidas,
que quem sabe eu cumpra a promessa outrora dita
de puxar teu pé à meia-noite ou até fazer cosquinha.

quando eu for saudade a presença será de espírito,
mas não desses que se dizem espírito, ou demônio,
será provavelmente a história que eu sempre repito
e a verdade é que sei bem que a verdade é que hoje ainda
me veio saudade de te ver, que vem quando puxo a carteira
daí teu retrato me lembra que saudade é fidelidade
do que agora é eterno mas surgiu como coisa passageira.

sábado, 6 de setembro de 2014

-

quem mais além de nós
saberá que pelas ruas
encontramos tanto além
de nós.

seria um erro entorpecer
meu corpo pela cidade
apenas ao meu bel prazer
satisfazer apenas teu gozo,

vou manter meu corpo limpo,
minha casa arrumada,
meus cabelos cortados
pelo meu amor próprio

e pelo amor vindouro
para que no meu perfume
ela possa farejar por aí,
meu cheiro.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

quando a noite chega sempre sobra a vontade de catar uma estrela no teu muro

teu braço ainda cai um pouco sobre o meu
e na parede silenciosa do vazio deixado
quem dera neles eu pudesse desfazer teu nome
escrito com umas poucas forças que ficaram
da manhã última em que acordei tão inspirado
em dizer-te coisas de se rir tanto, no teu ouvido.
fica do passado o resquício que da memória ainda jaz,
mas para o segredo do olfato, esses animais, nós,
cheiro um punhado de café e reduzo a vontade
e reduzo teu cheiro na minha camisa de botão,
refaço minha história como sempre: queimo tudo,
ateio fogo na nossa casa imaginária, no nossos sonhos
todos lindos, todos findos: o começo para que se rebanhe
para outro lugar as ovelhas indefesas, no fim da montanha,
longe de onde, e quanto menos se pensar, mais se irá fazer
que das coisas findas
muito mais que minhas,
muito mais que lindas,
haverá um gosto amargurado de sangue do beijo nunca dado,
na pele, o arrepio que os dedos nunca tocaram, da língua
que nunca queimou tua coxa,
a lembrança da palavra nunca dita, nunca escrita, nunca
nunca nunca.
fica, sempre fica, alguns de tal modo que se desfazem as horas
em conceitos desaprimorados de qualquer benção divina.
de qualquer amor, ai meu deus, eu guardo a chave do que é efêmero,
mas do que é lato, eu, moça, eu sempre farei questão de pintar
na parede das ruas que te seguem.
mas, minha tinta, minhas mãos e dedos, a preguiça da desistência já me toma
toda hora que me deparo com o sei-lá-o-que-que-você-pensa das coisas.
mas antes de mais nada, do que finda, eu digo, e desdigo: fica.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

paisagem móvel ii

para j
teu corpo colore uma tarde
com tinta-fábula, estremece minha parede
e no fim da noite prossigo,
amado e cúmplice, das enevoações do ser,
não, porém, refestelando-se pelas amostras,
e te conservas em casa, ou noutras ruas
para que o gosto do osso exposto ao sol
não venha assim a perfumar minhas narinas.
não pareço são em procurar-te, nem assim o quero parecer
(buscas são chaves duma loucura
mui particular)
mas tuas agruras quero estar ouvinte, senti-las,
faz parte da paisagem com que te fizeste, certa cor
de queimada do sol, de ressequida pelo tempo,
de amarelo-ser: pois agora te tornas outra
e vou admirar
o quadro pintado, revelado, austero, sincero.
nem pluma nem brasa corroi tua superfície
por si só profunda em tudo.
domino-me duas vezes mais - enlameadas as mãos
na tua pele-barro, tua voz-veludo, tuas mãos de nuvem
teu existir criado -- onde essa claridão some,
sou renome pintado
na borda inferior do objeto em que te fiz arte
hoje andas pelas ruas,
se andas, nelas te fazes vistosa aurora
apreciam-te outros amantes
e na verdade, sou moeda de troca
na hora em que trocam-se os olhares
*
tua paisagem se modifica
e nela fica de lembrança a outra coisa
da qual não evidencia tua convivência caseira.
claquete, vislumbre do último ato,
sinfonia em ré menor, tristonha
atenta às tuas olheiras,
o dia avança e a mente regressa
pelas calçadas outras
onde outrora uma mulher se jogou do quinto andar --
adivinho teus passos, e o olhar pro céu.
te refaço novamente.
eap

sábado, 28 de setembro de 2013

nada jaz


luto pelo amor

que dela
pedi.

luto pelo amor
que serena
e molha

as páginas
de agora.

luto pelas coisas
que sei
que sei:

não peço "volta",
mas minha memória
não a quer morta

tampouco eu,
que a amo
em sê-lo meu

e mudo
coro as faces
pelo tudo.

luto pelo amor
que dela perdi,
e nada depois
valeu o que fiz.

luto por mais
esta hora
e as próximas

e pelo sono
sem senso
sem nexo
sem sonho.

meu sonho
é negro e perdido
numa madrugada
entre tantos copos
tantas bocas,
tantos corpos
tantas roupas.

eap

domingo, 2 de junho de 2013

do amor de argos

era assim tal amor
que em cada gesto
via tanta intenção
a tal vontade

- ela sim
tomava a dor,
lambia as feridas
que sua essência,
mesmo de linda,
mesmo de fera,
era ainda capaz de sentir.

que me fez monstro,
cem olhos seus
para vigiá-lo
todos os dias,
todas as noites.
por ela, nunca
dormi.

lei dos
olhos fechados,
olhos abertos...

[por ti nunca dormi,
mesmo meus olhos
que descansavam
reproduziam
incansáveis, a tua beleza
e fragilidade de deusa
atrás das pálpebras
eu chorava.]

por ele as orgias
de todas as noites,
demasiado humano
(deus demais para ser
perfeito).
também eu
por tudo por ti fazer
papel maldoso
sabia.

na culpa inconcebível
de amá-la,
devoto dos olhos,
era fatal que meus todos,
cabeça pagasse - antes meu coração.

deixaste-me ainda
sendo qual engano:
persigo os amantes,
nas plumas onde
mal me caibo
entre a tua procura -
viver do resplendor
de ser teu bicho preferido
nem teu pão,
nem tua carne,
teu objeto de contemplação
(que vigia e contempla)
sensível e delicada selvageria
onde inda te procuro.

eap

sábado, 12 de janeiro de 2013

já faz tempo...

faz tempo que te não vejo... não te mando recados, não te envio flores, não bato à tua porta, não te telefono, nem envio cartas, muito menos aquelas, que não precisam do carteiro (a carta que se entrega de cara limpa, coração sujo de qualquer coisa), faz tempo que a gente não se encontra pra falar das coisas que nos incomodam, que a gente não sente preguiça juntos, que não te faço rir tentando ficar sério, faz tempo que faz tanto tempo, que eu já parei de te existir.

eap

segunda-feira, 2 de julho de 2012

te adorar

estranho como começou
agora, vamos nos entregar
de corpo e alma -- ah...
quem te vê assim,
mal sabe o que esperar,
e eu que já te conheço, enfim,
já posso te adorar.

eap

sexta-feira, 23 de março de 2012

Valsar Deitado


Éramos, por assim dizer, metade amantes, metade incestuosos irmãos. Suas lágrimas, nem todas doces, algumas amargas, eu engoli todas, e da sede que me deram, foi que tomei coragem para leva-la ao meu leito, e ali, deitados, meu divã, ouvi-a, ela me ouviu, e por instantes, estes, que duram tempos que não se medem no relógio dos homens, ela me amou e tem amado com tamanha constância que meu peito arfa como fosse eu aquele jovem Proust asmático.
Caralho... Como eu gostaria de poder ter na língua essas palavras, mas, que acontece, é que, no movimento de lábios, a procura doida dentro um do outro, meu corpo só se sabe falar por signos não linguísticos – o que dizer dos instantes infinitos, onde,  eu, extasiado , contemplava teu rosto, e por fim, minha língua tinha o trabalho lento e delicado de conhecer cada ponto entumecido de doçura na carne de teu lábio – ah, o portão belíssimo de tua candura, esse sorriso, o salto triplo no vácuo, a joelhada certeira na cara, tudo do mais doce impossível dos prazeres, as coisas que eu jamais teria descoberto sem a paciência do amante oriental que sou.
No mais, o corpo é a parte mais engraçada de tudo, pois que não é que nos enxergamos pequenas crianças na descoberta boba dos sorrisos enrubescidos de curiosidade e vergonha. Shy. Já chegaste vez na vida a reconhecer que mais bela palavra pra definir aquele momento? É algo assim como o zumbido elétrico e sussurrado das guitarras do My Bloody Valentine – aquela transa sexual deles, mesmo que também vermelha de timidez, olhando o cadarço desamarrado dos sapatos, essa coisa sem sentido – aquelas pobres crianças indefesas e infelizes, como nós, atordoadas em meio ao som branco dos segundos sem cor, sem som, sem nada.
E quanto que digo, meu bem, que isto tudo, é só uma parte do todo que já chega, chega já, ao som de um carinho a passar todo dengoso, naquela sala, naquele quarto, nas cozinhas e às vezes, um banheiro. A brincadeira da cócega que queima à fogo frio de dedo molhado, sei que enraivece, mas, é de se encantar, ver o sorriso surgir, mesmo que de livre e espontânea pressão. Não te enraiveça nem entristeça – é só guardar na memória que, mesmo que para o mal, funciona o tempo inefável em favor das coisas boas.
E, bailemo-nos, que, sei desde antes, que foi tu quem me ensinou a valsar deitado, e quando de pé, minha paspalhice é maior que a de Graham Coxon naquele clipe da moça do vestido vermelho – da qual tu roubaste o encanto para me atordoar por dias e dias, esse estender-se perpetuando por semanas em minha memória, e, aí vai tua pele trigueira, me chacoalhando o peito...

eap

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ah, Tua Leveza...


Te digo que apesar dos pesares
a leveza de tua calma
me faz ainda querer o peso
de dias e mais dias de tranquila sinfonia
desse inominável, esse não-se-sabe-o-quê,
um amar por-amar-e-pronto,
que justificar o amor não evidencia
tudo o quanto o faz mover aqui dentro.

Te digo que apesar dos pesares,
eu aguento o fardo,
eu levo a carga na cabeça,
o destempero absoluto
de amar mais que supunha
ser a minha capacidade.

Sem músculos, veias, artérias
o abstrato colorido de fumaças
que se entrechocam, e misturadas
são coisa só - a leveza da pluma
a leveza das asas de uma abelha
que fareja no ar o mel.

eap

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Cupid Come"

Talvez tenhamos que conversar,
sim, que conversar é bom,
melhor que o beijar -- salivar
na boca um do outro -- o gosto
palpitando na boca -- âmbar.

Sabeis vós que quer ar --
preza o nariz que não tem --
este peito a palpitar
e, morena, tua voz,
deixa em mim ressonar

o que da música sem par
temos mais que saber:
desse teu gosto pelo noir,
pelo caos frenético,
e de guitarras a desafinar

rompendo a aurora boreal
entre náuseas e cores-mil
havemos de distinguir -- cantar
esta voz ao fundo, tilintando --
ó doçura que se desfaz sem pecar...

eap

domingo, 11 de dezembro de 2011

Contrato Conjugal

É chorar, rir, por dois anos mais,
e lá direi:
- por mais dois!, e aí, findo o prazo:
- por mais dois!

Chego ao meu senhorio e digo,
- posso ficar por mais um tempo?
- por quanto quereis?
- só por até pra sempre.

Daí é unir as mãos e bocas,
anômalos fetos,
dois irmãos siameses,
dividindo um mesmo coração.

A J., por quanto tempo 
o tempo me puder fornecer.

eap

domingo, 20 de novembro de 2011

Acalma-te, meu bem...



Que penso do futuro? Que pensar? Futurar? Futurear?
Tenho espalmadas tuas mãos nas minhas,
e isto é o destino cruzado, de tuas mãos nas minhas...

Que penso do futuro? Esse jogo cego
de cartas marcadas e repetidas,
mas façamos diferente, amemo-nos até o fim.

Que penso do futuro? Esta incerta encruzilhada,
pronta para ser posta numa biografia
onde no capítulo intitulado Do Amor, protagonizaremos.

No futuro não penso, vivo-o agora, assombrado,
que o futuro é um passado deste escrito presente,
e não creio que será diferente depois,

pois que juntemo-nos, enlacemos as mãos,
deitemo-nos num tapete verde do jardim alheio,
contemplemos o céu -- que bem sabemos ser apenas o que é: céu.

Talvez te digam, alguém, que nós somos iguais
mas no fundo, bem sei, que não tentamos nem tensionamos por isso:
é fruto de outros tempos, é fruto das horas e do tempo.

E é este mesmo tempo,
passante, passeador por todos nós,
que nos vai levar exatamente para onde queremos.

E,a,p'

domingo, 21 de agosto de 2011

Dum Sorriso


Quero de ti, Poesia Viva,
mais que um beijo letrado,
um sopro rimado,
um terceto de abraço
enlaçado:

Quero teu fulgor cantado,
tua renascença poética ao amanhecer,
tua ressonância dengosa na madrugada
que assoma fria
à nossa voz entrecortada.

Quero toda esta figura,
de pele morena e olhar cálido --
duma tristeza ímpar neste mundo --
que levará para mais além
meu divagar.

Quero do mais belo dos sorrisos
a sutileza de um diamante
escondido por trás de minhas mãos,
que tentam te proteger
em vão.

A Ela, que tudo me ensina

E,a,p'

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Toma da Mão...

M. C. Escher - "Desenhando-se"







Toma de meu braço

pois sabes bem

que vou aonde fores,

porque hoje

é dia de ser feliz,

e se for do teu lado,

amada minha,

melhor ainda,

porque nessa estrada

terá muito mais flores

para mais além

que cinzas no caminho.




Toma de minha mão

algo que seja ninho,

que é pra cuidar de ti

- passarinho -

que é toda flor de união.



Fica mais um pouco a me fitar

e se quiser,

vou sim,

só pra poder me lembrar,

que hoje o dia foi bonito,

porque estive contigo;

que se amanhã eu te for ver,

saiba que eu

te ofereço ainda

meu tímido mindinho

a te buscar.


E,a,p'

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Gosto de Maracujá

Tu, acalma minha ânsia, perfeita
em detalhes, em mínimos feitos,
de maracujá: já sinto, os cheiros,
que afagam minha cabeça, refeita

pelo desdém de teu vai-e-vem,
a acalentar, pequeno, no braço
como tirasse, matasse, o cansaço
com que acumulo e para além

do vento da tarde, e eu aguardo,
tua calma plenitude, e quando vem,
mata-me de amores, a preguiça

todo o fado, o fato, o trato, olfato,
do que sustém minha submissa,
vontade de ali ficar - nada além.


E,a,p'

sexta-feira, 25 de março de 2011

Troca

Tenho tuas unhas cravadas

nas minhas costas...

Querendo dizer-me palavra mais

que teu resfolegar sadio, sadismo.


Quando te maltrato


"Penetras fundo em mim,

tirando de dentro das entranhas

tudo que há de bom em mim...

Porque sou tua; eternamente tua"


Quando nos maltratamos


E se te tenho toda,

é porque estou marcado,

com a cara encharcada

em tua blusa, morto de cansaço.


Como manda o figurino

descanso no teu braço,

redimindo-me em teu capacho,

frouxo, fraco - onde o macho?


Quando me maltratas


E,a,p'