quarta-feira, 5 de junho de 2024
o amor que levo
um cigarro, outro
e a vida já não é mais a mesma.
domingo, 18 de setembro de 2022
o cronista de meus amigos
porque é assim que tem sido.
mas nada pode e nem será mais como antes.
caminhamos calados, taciturnos, reclusos.
vislumbramos na alvorada, com certo espanto,
a porta de saída, a poucos passos,
e tantos dos nossos já a cruzaram.
terça-feira, 26 de abril de 2022
desabafo dos 30 e poucos
sábado, 24 de agosto de 2019
para uma poesia classista
não ao eu
não ao intimismo
não ao singular
sim ao plural
sim a nós, vós e elas e eles
sim à classe
sim à maioria
mas, sim, aos desejos do homem
sim à necessidade e à luta
sim a um mundo que perece
nas periferias
em cada favela, rua e chão de fábrica
sim ao despertar constante
da consciência de classe,
sim ao estímulo à luta
contra nossos senhores
entre nós a certeza
de que existe um conflito
que vai além do ódio
que precisa de norte
que precisa de luta, pão e revolução.
paz entre nós, guerra aos senhores
que esses reacionários,
mais vale o momento,
que as mentiras,
e o resto, é construção, corpo a corpo, olho a olho,
e não nos enganemos: é uma luta de uma vida,
talvez de duas e meia,
mas é a única luta que vale a pena.
delimitemos nosso front,
sempre foi assim e sempre vai ser.
nossa arma é a palavra,
é a ideia, a verdade e a história.
e o resto, é ficção, mentiras e mais mentiras.
e não nos enganemos: nos nossos dias, todas elas
têm o mesmo valor da verdade
para quem não nos quer emancipar -
mas é a única luta possível.
não é necessária a piedade ou compaixão
por aqueles que nos tem
escravizado através dos tempos,
muito menos com os detratores de nossa causa.
a vitória há-de vir, mais cedo ou mais tarde,
o resto, são tigres de papel,
e não nos enganemos: essa luta já tem vencedores.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
tudo há-de se iluminar
tudo se ilumina com o tempo
mais que os obscurantistas estejam aí,
o que importa é que mais dia menos dia
tudo se ilumina.
demorou séculos na idade média,
demorou décadas na ditadura,
talvez esta fase demore anos
mas o que importa é sempre chega o dia
na mais demorada noite escura.
é fato que existem pessoas cegas,
mas são poucos os que conseguem
enxergar na noite escura,
apenas aqueles que andam
com uma lanterna de conhecimento
sabem que o mal não dura.
e eles vão tentar esconder a luz,
apagar o registro geral,
atirar contra nós
e alegar que foi acidental.
vão nos dar facões
e vão bradar
que o inimigo está nesse quarto,
e nós vamos nos cortar
antes que tudo se torne mais claro.
eles vão dizer que era impossível prever
mas meus olhos estavam bem atentos
meus ouvidos ouviram as vozes:
e eu vi a mão no interruptor,
e as gargalhadas dos nossos algozes.
eles nos querem cegos,
eles nos querem desorientados,
eles nos querem com ódio,
eles querem nosso sangue
e vão, inevitavelmente, ter.
mas não importa: tudo se ilumina,
tudo há-de se iluminar.
daqui a alguns anos,
vão fazer mea culpa,
vão apertar nossas mãos,
nós pedir pra limpar a bagunça
e nos fazer sentir certa culpa.
mas a história é clara
e há um grande volume
debaixo do tapete.
não dá mais para esconder do que essa gente é capaz,
mas eu sei:
que antes de se iluminar completamente,
ainda vai escurecer um pouco mais.
mas sejamos fortes,
vamos dar as mãos
a quem merece;
soltar pelo menos uma
e usá-las como se deve.
apertar o pescoço
que já vem com força pronta no nó da gravata
sentir seus corpos estrebuchar,
e em cima deles
criar uma sociedade que vai prosperar.
o inimigo é muito claro:
e não é este que está nu e desqualificado,
este aí, é só um ventríloquo
seu mestre está de terno num blindado.
eu sei que parece difícil,
eu sei que parece terrível,
mas tudo se ilumina, acredite quando digo:
essa história ainda vai ser escrita
pelas mãos de quem está resistindo.
terça-feira, 23 de julho de 2019
a saudade nos envelhece rápido
para laís helena alcântara souza
a quem devo saudade, afeto
e um espaço preenchido na história e na memória.
eu entendo tua partida
entendo que houve uma dor.
uma dor tamanha,
que não se mede pelo que sobrou.
queria entender mais
pra segurar uma tristeza tamanha
que também não se mede pelo peito
e é composta apenas de uma força estranha.
não posso voltar no tempo
mas se pudesse iria
te abraçar sem hora de acabar
te segurar as mãos
e não deixar esse tempo passar.
vou deixar teu nome no tempo,
vou deixar teu nome na história,
pra deixar que, sempre que precisar,
saibam que laís ocupa uma memória.
[mas fique aqui por perto,
fique aqui por dentro
e crie suas raízes
dê seus frutos, dê suas flores, dê suas sementes,
dê seu riso, dê sua presença, dê sua lembrança
mais além que uma pedra com teu nome e foto.
é o que fica dentro de nós que vai ocupar um espaço fora:
esse espaço vazio preenchido de ausência.]
já tenho saudades de você,
e essa saudade durará pra sempre,
o arrependimento também
- e deus sabe o quanto dói,
mesmo que eu seja incapaz de chorar -
fico pensando,
olhando esse vazio que você deixou,
não faz nem um dia,
e eu já me sinto velho de saudade.
tomara encontre o bem -
e se puder avisa, se puder me diz,
se puder me conta se você já tem a paz que sempre quis.
eu vou ficando, vou levar como der.
tenho tantos planos, tantos projetos,
ainda vou realizá-los - porque é o que me move
e vou te contar quando for aí - se você quiser.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
caçada
você vai me seguir
você vai me procurar
você vai se frustrar
você vai se fingir
de amigo e conversar
você vai me seguir
você vai me abordar
você vai se cansar
depois de me infligir
tapa e pontapé, tentar dialogar.
você vai me torturar
e eu vou conseguir
enfim me libertar
sem soltar um único a
até você se frustrar e me matar.
não vou ser mártir
não vou ser herói algum
mas vou te assombrar
à noite, quando você deitar
debaixo de sua cama vai checar
e quando eu for fantasma
monstro que você criou
você vai se perdoar
lamber suas feridas
e me incriminar
mas tudo bem,
tudo bem,
eu vou ficar bem,
tudo bem,
tudo tem o seu tempo,
tem e vem,
como tudo na vida
eu vou levar bem,
numa boa.
no além e aquém
do que tem de estar bem
sendo eu:
seu ninguém.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
estrangeiro nativo
eu não sou deste país,
eu sou cidadão do mundo,
eu sou cidadão do fundo
de um quarto escuro.
eu não sou empregado de ninguém,
eu não sirvo a mestre nenhum,
eu crio os meus castelos e moinhos
e com meu escudeiro, vou além,
vou pra lugar algum.
eu não falo português,
eu falo outra língua,
não adianta me imitar
nem tentar fazer rima,
eu sou latino americano,
tenho sangue quente,
não tenho eira nem beira,
mas sigo contente,
e toda vez que me acusam
eu chamo toda a gente,
pra bater, pra te xingar,
quem sabe até te esmurrar
e fazer careta,
ocupar uma rua
ou uma cidade inteira.
eu canto samba de raiz
mas curto rock n' roll,
não faço questão de ir a igreja
e faço dos versos o meu show,
não toco violão, não tenho oração,
mas guardo sempre a boa intenção
de fazer valer o que eu sou.
eu não sou brasileiro, eu sou cearense,
sou de fortaleza, do itaperi,
que é lugar de gente,
eu sou dessa rua, eu sou desta casa,
eu sou minha família,
eu sou minha asa,
não tenho eira nem beira,
mas faço como ninguém
um café e puxo uma cadeira
pra conversar dessa situação,
desse nosso sofrimento, desse novo apagão,
eu falo dessas coisas e não digo nada
durmo tranquilo quando não faço amor de madrugada.
sábado, 19 de janeiro de 2019
sapato emprestado de um amigo (ou carta em versos com a voz de belchior)
eu uso sapato emprestado
já há mais de 3 anos
e é o sapato de um amigo, que chamava de ex
tamanha infantilidade
eu nunca pensei.
mas olha, meu amigo eu te carrego comigo
e faz mais de um ano,
mesmo que se falar
a gente já não fala faz um tanto.
eu peço desculpa pela minha ausência,
quanto mais eu sumo
mais o coração cobra clemência
porque hoje o que eu carrego comigo
é mais que dois pares de sapato
um cadarço encardido
e um solado desgastado
eu carrego minha vida
pois não me esqueço nunca daquele dia
em que eu quis me matar
e você me levou numa viagem
que eu neguei por não enxergar
o bem que você me fazia.
hoje eu sou arrependimento
mas também sou gratidão
pela sua companhia
mesmo que tão ausente
e a culpa é toda minha.
eu carrego bem mais que léguas andadas
eu carrego também
as canções que foram cantadas
no calor daquela casa
e as muitas conversas regadas a cachaça
e coca cola pela madrugada na sala.
é, meu amigo, talvez esse sapato eu não devolva
mas quero retribuir essa amizade
essa paz que você leva e traz consigo
que é um caos calmo e contido,
apenas pela alegria de ser.
é, meu amigo, eu verso na voz de belchior,
e creio que esse presente ruim, ainda vai nos trazer
algo muito melhor
ou até muito pior,
mas eu acredito no seu sonho
ele é um pouco meu também
e esse sapato, eu lembrei,
calçou meu pé tanto tempo
findou sua sola,
mas não se preocupe, que convém
que na minha próxima visita
leve uma bebida na sacola
e uma conversa pra uma boa prosa.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
um conselho ao poeta romântico
o poeta baixo é grande
quando fala por uma mulher
o poeta, eu acho,
não está interessado no que ela quer.
o poeta fala, versa a mulher amada
odes e sonetos sobre a mulher invisível
sobre a mulher sonhada
sobre a mulher impossível
a mulher sem pêlos,
a mulher sem cor,
a mulher sem anseios,
a mulher sem amor.
é fácil matar o poeta,
se uma mulher começar a falar
é fácil enforcar um poeta
se ela começa, ela mesma a versar.
o poeta instituição, histórico,
o poema indiscreto de coxas e seios
de boca, de lábios, de desejo irrisório
de quem a mulher não nutre desejos.
imagine a mulher que fala do falo,
da frustração do homem mediano
imagine a poetisa que diz não me calo
a uma versão minha que não amo.
imagine você, que a poesia é feminina
que o poeta cria seu verso infantil
crescendo nesse substantivo que culmina
nas criações de uma mente indiscutivelmente viril.
o poeta tem que mudar sua poesia,
o poeta tem que ouvir uma, toda mulher
saber que seu horizonte se amplia
a medida que fora do corpo se constrói o que se quer.
respeite o corpo que versa, pense nisso!
é mais fácil que descrever o impossível
e se matar aos 27 por ter sido omisso
ao pouco que se preze do que é crível.
este mesmo poeta, se revisitado, tem suas falhas
é impossível não ter sido um erro antes deste fato:
pensar fora do corpo feminino e das suas saias
e deixar essa masculinidade velha e aborrecida no passado.
pense nisso, poeta; pense com carinho!
vamos criar novas crianças com um amplo horizonte
e fazer dessa geração um exemplo, um caminho
para ir mais além do que fomos, para ir cada vez mais longe.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
uma canção desesperada
eu tenho um violão e umas ideias na cabeça
e faço delas o meu norte pras palavras.
eu tenho poucas notas, mas carrego uma certeza
-- e faço dela o pedestal pra minhas mágoas.
eu tenho uma vontade e um milhão de desejos
e faço deles aço pra construir minhas asas.
eu tenho um sonho e um bolso cheio de segredos
e em cima deles me sinto a prova de balas.
eu tenho tudo o que preciso para ser quem eu sou
tenho o tempo comigo para ser meu abrigo
eu tenho a pólvora pro meu canhão de amor,
sou o mais perigoso terrorista do meu inimigo.
eu faço versos e não a guerra do homem,
que serão eternos como a esperança
eu faço guerra contra a ignorância de quem tem fome
pra que eles se juntem a mim num levante de vingança.
eu tenho uma canção na garganta pronta para entoar
e ela agora é cantada entre suspiros e murmúrios.
eu tenho essa canção e ela um dia vai ecoar
vai fazer cair as armas e derrubar os muros.
eu tenho uma visão que no escuro envaidece
eu tenho uma cegueira que na madrugada é trunfo
eu tenho uma missão e o dia ainda amanhece
e quando isso acontecer a gente vai...
terça-feira, 13 de novembro de 2018
Sem nome nº 120
que me aquecem a boca
encharcada de sangues
de outras eras?
que mão é essa
que estrangula minha garganta
com unhas negras
e força meu silêncio?
quem são esses fantasmas
que me perseguem
silenciosamente
pelas sombras da cidade?
de quem é esse grito
que abafa o som
de tantas vozes --
seriam eles, meus algozes?
que bala é essa,
que não é perdida,
uma vez que meu corpo
está caído na esquina?
eu continuo ouvindo passos
na calada da noite
marchando uniformemente
todos em direção ao abismo.
terça-feira, 6 de novembro de 2018
depois do fundo do poço
que o caminho que seguimos
é cada vez mais sombrio.
por mais que arregalasse meus olhos,
por mais que acendesse as luzes,
estávamos caminhando
ladeira abaixo nessa escuridão.
o porão do fundo do poço
foi descoberto
e cada um de nós caminhou,
uns a contragosto
outros por vontade própria
e uns, ainda, empurrados sem saber,
nesse piche
que queima e gruda na pele.
o sangue negro e do índio
correm pelas nossas mãos,
pelas nossas calçadas,
mas cada vez menos
são bombados
pelos nossos corações.
quando assim fechar-se a tampa do alçapão
vamos dar conta
que o último prego
da tábua que fecha este lugar escuro
ao qual fomos jogados sem escolha,
é o único lugar possível
para aqueles que já estavam tão próximo dele
mas que tinham medo de estar lá.
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
morrer de viver de morrer
pra que se vive
porque não se morre
quando se quer
sem dor
sem trauma
sem alma
por que morrer tem que doer
em mim
e em você
e em você
e em você
por que morrer não é como uma viagem
longa, distante e sem previsão de volta
por que?
morrer dá sentido à vida
ou a vida é
fator da morte
tudo é certo
inclusive
que ninguém precisa
morrer
tem tempo para vir
e tempo para ir
com livros que não vieram
e livros que nem fomos
filmes que virão
e filmes que nem vimos
e há também
tanto amor no mundo
que não sabemos
como mensurar.
morrer é bom
quando se morre
existem mil razões para ir
tão poucas para ficar,
o pêndulo balança
para qualquer justificativa
igualmente – seja porque somos pequenos demais
ou grandes demais
para tão pouco espaço
morrer é solução
para quem busca mudar
e não muda porque não há espaço
ou existe
espaço demais
nesse mundo que é universo.
apenas tente,
apenas fique,
há tantos cafés
e delícias
e palavras
que vão ficar vazias
sem que exista uma voz
para dizê-las
há tanto amor para se dar
receber
e fazer
tantas pessoas para
conhecer
matar
e morrer
mas não você.
existe esse relógio que pende
o relógio do fim do mundo
o relógio do fim de tudo
vamos contar esses segundos
e ver
até onde o nosso corpo aguenta
porque morrer
vai doer sempre
se não em mim
mas em você
em você
e em você.
todos dizem eu te amo

mesmo que o amor seja esse conceito
transmorfo, amalgamático, verbo intransitivo: amar.
todos dizem eu te amo, sem nunca sequer
terem sido amados por alguém
que não tem razão nenhuma de amar.
quantas pessoas acreditam em você?
quantas pessoas são o que são inexplicavelmente
e você não critica, não julga, apenas ama.
quantos amigos, barbados, carecas, feios,
pobres, miseráveis, leprosos, aleijados ou calejados
você confia e fia-se sem saber
que em algum momento, nas palavras que não foram ditas,
há amor?
o amor é isso e aquilo mas é também uma coisa
e todos amam sem nunca ter amor.
amor não é bom dia, mas bom dia pode ser amor
um beijo, um abraço e até mesmo
nenhuma palavra, nenhum toque,
contém mais amor do que dizer
eu te amo.
“eu te amo” “por que” “porque te amo”, e o resto não importa.
eu te amo porque o céu é azul, mas às vezes é cinza
e a chuva que cai faz com que a gente pense um no outro.
eu te amo porque o ônibus demora e me irrito
pensando que te ter comigo não me faria irritado o tempo todo.
eu te amo porque eu mesmo me amo
e por conhecer o amor me sinto seguro em amar.
eu te amo porque comprei no supermercado hoje
a lasanha que você mais gosta.
eu te amo porque quando eu vou dormir
meu coração está tranquilo – e eu contigo sonho
mas se não sonho, tudo bem.
eu te amo porque o amor existe
e se ele existe, é no teu peito que eu encontro.
não porque você é única,
não porque eu preciso,
não porque estamos juntos,
ou porque hoje é seu aniversário.
eu te amo porque o agora é agora
e não depois – e o que seria antes, agora já passou.
todos dizem eu te amo,
inclusive eu, que te amo tanto.
27
embora eu negue
e finja que o aceite.
sei lá,
27 anos, parece que foi ontem
que eu estava feliz
porque tinha uma trilha enorme pela frente
e eu quebrei tudo
e mudei o percurso
e me desfiz em nada.
eu sou muito sonho, sabe?
e isso é tenebroso.
fico recheado de planos,
falo alto como se estivesse sempre
respondendo a perguntas imaginárias
feitas em um late night.
eu sou sonhador demais
e a gente que flutua no sonho
só sabe reclamar da realidade.
27 anos
a idade onde os gênios morrem.
já foi a janis, o jimi, o jimbo, o kurt e a amy.
ainda teve o johnson e ainda vai ter mais gente.
eu achei que um dia seria eu,
por mais humilde que eu tentasse ser,
eu sempre sonhei que seria grande,
sempre quis ser um reflexo invertido da minha realidade
quando na verdade,
você só pode ser o que você é.
27 anos – ainda tem um ano pela frente
pode ser que eu morra,
pode ser que eu viva,
o resultado é indiferente,
é só mais um,
não é gênio,
mas conhece os gênios,
quis ser um,
grande promessa,
se bem que o lil peep morreu com 21
e já era gênio.
aos 21 eu era promissor, como a maioria das pessoas que eu conheço.
aos 21 eu era ovelha negra da família
eu tinha orgulho de mim
e queria morrer,
hoje eu tenho vergonha do que me tornei
mas quero viver,
vai saber o que me aguarda.
pode ser que alguma coisa aconteça –
eu só preciso de uma chance,
afinal, estou cada dia mais próximo dos 30,
que é uma idade estranha.
eu lembro do meu pai com 30,
eu lembro da minha mãe com 30.
eu tenho medo do tempo, porque ele existe
e a gente passa por ele, e não o contrário.
um dia a gente passa
e ele fica
e o que resta é nada mais que um resquício no tempo
e meia dúzia de palavras que alguém deixou para
meia dúzia de pessoas.
fortaleza, 18 de julho de 2018:
eu fiz 27 anos e quero viver.
culpado demais
carrego muita culpa na bagagem
algumas delas eu nem gosto de proferir em voz alta.
eu sinto muito
mas não faço nada
não há mais o que fazer.
só seguir nessa de ir mudando,
aos poucos,
se desfazer, se desconstruir, se perdoar, pedir perdão
e entender que o karma existe,
o universo também, e ele revolve tudo.
a culpa é pouco.
como dizia o verso do meu primo,
a culpa é de quem pede desculpa,
eu sei, eu sei, eu sei.
já dei muitas desculpas,
algumas ainda estão por vir,
mas cada uma dessas desculpas
é como se eu arrancasse um pedaço da minha pele.
e é pra ser assim,
afinal, quem mandou, não é mesmo?
não há um único dia
em que eu não me pergunte
o que eu fiz pra merecer o que passo,
quando basta olhar pra trás
e ver que fiz muito
fiz demais
e é bem-feito.
agora, é colher os frutos podres,
os louros secos e as ervas daninhas
que estão estampadas no jardim do meu rosto
em forma de olheiras.
a última dança (ou o baile de sangue)

em que o baile parou
as máscaras caíram
e todos se assustaram com o que viram.
seus pares, que antes dançavam sem se conhecer
passaram então
a ver quem era quem
sem atentar aos detalhes
da mão que apertava
mais que o normal
a outra mão
que queria que a valsa continuasse
porque a dança era, em si,
algo que tendia a satisfação.
e houve o grito de horror
de milhões de vozes
que vociferavam um uivo lúgubre
e como nunca
pudemos perceber que a valsa era,
na verdade,
uma armadilha.
os rostos eram feios,
dentes armados
para morder
a carne dos seus comuns,
e fazer sangrar
um baile de sangue.
mas as máscaras só foram entregues
antes do baile começar,
os convidados chegaram
sem elas,
e o que se seguiu
não deveria surpreender.
então deu-se a matança
e uma cruz pesada,
caiu sobre os convivas
e só depois,
percebemos que jesus não estava naquela cruz.
o cheiro era de chumbo,
os sapatos eram botas coturnos,
e as roupas eram camufladas
como os seus rostos.
e não sabíamos,
não poderíamos imaginar,
o tamanho do orgulho
que eles sentiam
na hora de abrir nosso tórax
com unhas sujas
e retirar de dentro de nós
o nosso sangue.
quando a matança enfim acabou,
o que se seguiu foi que a banda
continuou
e ao invés de lanceios e braços e pernas
ouvíamos marchar
botas e baquetas
que conduziam nossos semelhantes
ao abate final
onde dançar seria proibido
porque aquela seria a última dança
desde agora,
até o infinito
para o terror de nossas crianças.
quando no futuro perguntaram
o que se sucedeu ao baile
as pessoas riram
e diziam que o sangue
era tinta
que as botas
eram de palhaços
e que os gritos
eram gargalhadas
e que as máscaras
eram rostos pintados.
o baile nunca existiu,
o baile era uma desculpa
para que covardemente pensássemos
que poderíamos estar juntos
sem culpa.


