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segunda-feira, 10 de março de 2014

partida de futebol


times: presídio zona norte x presídio zona sul. começa o jogo, z. norte faz o primeiro em cinco minutos, z. sul empata, jogadores da z. norte reclamam de impedimento, juiz rebate, diz que não, prossegue o jogo: z. sul vira, aos onze, nova reclamação e fim de jogo aos vinte e dois do primeiro tempo.

resultado final: zona sul 2, zona norte 1, 4 mortos e 3 feridos, incluindo o juiz e a bola, ambos por facada.

eap

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

ensaio sobre capricórnio



para mim o que importa é o puro e o sólido, as coisas práticas e úteis, a vontade não é nada se não há necessidade e utilidade. seus ossos e lágrimas só pertencem à terra, em deus, quem sabe, ainda delego gosto pelas virtudes de meu suor. inicio com vontade, gana, e não me importo com as bestializações, as filosofias, as máquinas de sonhos, as sensibilidades – em que cauda de cometa, em que anel desses de poeira de saturno esqueci meus sentimentos petrificados, prontos para desintegrar-se como fosse assim uma estátua de sal, que não olha para trás? –não olharei jamais para trás, porque importa o tempo presente, meu sangue quente, meu suor, minha vida. deixo esse tempo para quem o quiser. importa querer e ser à custa de um retorno inversamente proporcional: nascer cheio de nada, morrer vazio de tudo.

eap

condição


foi tudo isso.
e mais as de amanhã.
e as de ontem. 
e de alguns meses atrás. 
e dos meses (anos) que virão.


– cê tá bêbado.

não, eu sou bêbado. 
bêbado não é um estado, é condição.

eap

saber antes sendo depois



seus olhos tinham isso de expressar-se primeiro, e era magnético. quando ligou não pude deduzi-lo, mas poderia adivinhar pela sua voz, a maneira como fala, talvez olhando fixamente para as teclas, dizendo as palavras pausadamente, nem sei bem ainda se de propósito ou não, mas nisso comedia com suas unhas vermelhas o que aconteceria naquela tarde quando nos encontrássemos no café, e, depois das dez, lhe falaria das minhas saudades, dos meus desejos pela sua pele, pelo seu cheiro, daquele jeito, esgueirando-me feito uma cobra por cima da mesa, as mãos repousadas em suas coxas, os olhos em seu decote, que ela já escolhera; seguraria, saindo de lá, sua mão, teria com ela a noite inteira, beijaria seu pescoço, morderia sua boca, seus dentes, meus dedos em seus lábios calados, puxaria seus cabelos, no momento último ela riria ou choraria, chamaria “meu amor”, como antes, caso eu tivesse dito sim; caso não adivinhasse tudo pelo seu número, caso eu tivesse atendido. depois de tudo, tudo fica subentendido.

eap

sábado, 13 de abril de 2013

maria

maria, meu casaco anda tão molhado e sujo e mofado, acho que das duas uma: ou gostas de me fazer raiva ou deves gostar realmente de me ver resfriado, porque, maria, eu jamais estive tão longe dos teus pensamentos; faz-se sei lá quanto tempo que te tenho dito, ô condenada, que fazem vinte e cinco anos que me preocupo com o teu bem estar, com a tua compostura, teu status social, teu café fraco, que parece ter sido coado na minha cueca. fede, maria, fede esse teu café. você também, tem dias que fede, mas eu não te nego meu abraço, nem teu beijo de manhã. já te pedi pra parar com essa mania de botar a chapa no copo d'água antes de dormir (sem tesão não há solução, diabo!); tá, tá certo maria, a tua mãe morreu de câncer, e tu também já me pediste mil vezes para largar o cigarro, pra não botar cueca no chão da sala, pra não te encher o saco reclamando do meu time, pra não gritar palavrões, não peidar na tua frente, nem cagar de porta aberta (não te pedi nunca mais pra me trazer o jornal), pra não ser também tão grosseiro. mas, vai pra puta que te pariu, maria... eu te amo, porra. não força a barra e me beija.

eap