quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

uma canção desesperada

eu tenho um violão e umas ideias na cabeça
e faço delas o meu norte pras palavras.
eu tenho poucas notas, mas carrego uma certeza
-- e faço dela o pedestal pra minhas mágoas.

eu tenho uma vontade e um milhão de desejos
e faço deles aço pra construir minhas asas.
eu tenho um sonho e um bolso cheio de segredos
e em cima deles me sinto a prova de balas.

eu tenho tudo o que preciso para ser quem eu sou
tenho o tempo comigo para ser meu abrigo
eu tenho a pólvora pro meu canhão de amor,
sou o mais perigoso terrorista do meu inimigo.

eu faço versos e não a guerra do homem,
que serão eternos como a esperança
eu faço guerra contra a ignorância de quem tem fome
pra que eles se juntem a mim num levante de vingança.

eu tenho uma canção na garganta pronta para entoar
e ela agora é cantada entre suspiros e murmúrios.
eu tenho essa canção e ela um dia vai ecoar
vai fazer cair as armas e derrubar os muros.

eu tenho uma visão que no escuro envaidece
eu tenho uma cegueira que na madrugada é trunfo
eu tenho uma missão e o dia ainda amanhece
e quando isso acontecer a gente vai...

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sem nome nº 120

que mordaças são essas
que me aquecem a boca
encharcada de sangues
de outras eras?

que mão é essa
que estrangula minha garganta
com unhas negras
e força meu silêncio?

quem são esses fantasmas
que me perseguem
silenciosamente
pelas sombras da cidade?

de quem é esse grito
que abafa o som
de tantas vozes --
seriam eles, meus algozes?

que bala é essa,
que não é perdida,
uma vez que meu corpo
está caído na esquina?

eu continuo ouvindo passos
na calada da noite
marchando uniformemente
todos em direção ao abismo.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

depois do fundo do poço

percebi com os meus olhos baixos
que o caminho que seguimos
é cada vez mais sombrio.

por mais que arregalasse meus olhos,
por mais que acendesse as luzes,
estávamos caminhando
ladeira abaixo nessa escuridão.

o porão do fundo do poço
foi descoberto

e cada um de nós caminhou,
uns a contragosto
outros por vontade própria
e uns, ainda, empurrados sem saber,
nesse piche
que queima e gruda na pele.

o sangue negro e do índio
correm pelas nossas mãos,
pelas nossas calçadas,
mas cada vez menos
são bombados
pelos nossos corações.

quando assim fechar-se a tampa do alçapão
vamos dar conta
que o último prego
da tábua que fecha este lugar escuro
ao qual fomos jogados sem escolha,
é o único lugar possível
para aqueles que já estavam tão próximo dele
mas que tinham medo de estar lá.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

morrer de viver de morrer

o que é a morte
pra que se vive
porque não se morre
quando se quer
sem dor
sem trauma
sem alma

por que morrer tem que doer
em mim
e em você
e em você
e em você

por que morrer não é como uma viagem
longa, distante e sem previsão de volta
por que?

morrer dá sentido à vida
ou a vida é
fator da morte
tudo é certo
inclusive
que ninguém precisa
morrer

tem tempo para vir
e tempo para ir
com livros que não vieram
e livros que nem fomos
filmes que virão
e filmes que nem vimos
e há também
tanto amor no mundo
que não sabemos
como mensurar.

morrer é bom
quando se morre

existem mil razões para ir
tão poucas para ficar,
o pêndulo balança
para qualquer justificativa
igualmente – seja porque somos pequenos demais
ou grandes demais
para tão pouco espaço
morrer é solução
para quem busca mudar
e não muda porque não há espaço
ou existe
espaço demais
nesse mundo que é universo.

apenas tente,
apenas fique,
há tantos cafés
e delícias
e palavras
que vão ficar vazias
sem que exista uma voz
para dizê-las

há tanto amor para se dar
receber
e fazer

tantas pessoas para
conhecer
matar
e morrer

mas não você.

existe esse relógio que pende
o relógio do fim do mundo
o relógio do fim de tudo
vamos contar esses segundos
e ver
até onde o nosso corpo aguenta
porque morrer
vai doer sempre
se não em mim
mas em você
em você
e em você.

todos dizem eu te amo


poema2
para b.b. – porque toda palavra tem valor
e existem mil maneiras de dizer o óbvio.

todos dizem eu te amo mesmo sem amar
mesmo que o amor seja esse conceito
transmorfo, amalgamático, verbo intransitivo: amar.
todos dizem eu te amo, sem nunca sequer
terem sido amados por alguém
que não tem razão nenhuma de amar.
quantas pessoas acreditam em você?
quantas pessoas são o que são inexplicavelmente
e você não critica, não julga, apenas ama.
quantos amigos, barbados, carecas, feios,
pobres, miseráveis, leprosos, aleijados ou calejados
você confia e fia-se sem saber
que em algum momento, nas palavras que não foram ditas,
há amor?
o amor é isso e aquilo mas é também uma coisa
e todos amam sem nunca ter amor.
amor não é bom dia, mas bom dia pode ser amor
um beijo, um abraço e até mesmo
nenhuma palavra, nenhum toque,
contém mais amor do que dizer
eu te amo.
“eu te amo” “por que” “porque te amo”, e o resto não importa.

eu te amo porque o céu é azul, mas às vezes é cinza
e a chuva que cai faz com que a gente pense um no outro.
eu te amo porque o ônibus demora e me irrito
pensando que te ter comigo não me faria irritado o tempo todo.
eu te amo porque eu mesmo me amo
e por conhecer o amor me sinto seguro em amar.
eu te amo porque comprei no supermercado hoje
a lasanha que você mais gosta.
eu te amo porque quando eu vou dormir
meu coração está tranquilo – e eu contigo sonho
mas se não sonho, tudo bem.
eu te amo porque o amor existe
e se ele existe, é no teu peito que eu encontro.
não porque você é única,
não porque eu preciso,
não porque estamos juntos,
ou porque hoje é seu aniversário.
eu te amo porque o agora é agora
e não depois – e o que seria antes, agora já passou.
todos dizem eu te amo,
inclusive eu, que te amo tanto.