sexta-feira, 31 de maio de 2024
pulso
mar de musgo
em busca de coisas perdidas
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
tem que (acabar)
| Frusciante (1992-1997) |
Tem mais é que se acabar
Toda forma de esperança
Toda forma de pujança
Tem mais é que fenecer
No feno do dia a dia
Que rola e desenrola
Tem mais é que esmorecer
Nos muros que miram
Que mio, que mil de miró
Tem mais é que des-ser
E botar pra descer
Toda destra forma e desforma
E tem que não ter
Porque eu nasci pra morrer
E não nasci pra semente
Porque eu nasci pra sofrer
Sofrer e morrer que nem gente
Mas se não for pra merecer
Que seja eterno e sem hora
Pra gente ficar mais um pouco
Porque eu não quero ir embora
Tem mais é que falecer
Quem vive da vida dos outros
Tem mais é que merecer
Um palmo de terra um palmo no outro
Porque não dá mais pra se dar
Sem senso sem sentido
Sem cheiro sem paladar
Sem boca de desvalido
Tem tudo pra me oferecer
Mas me nega e eu morro de fome
Eu fico tão triste e disforme
Que ano que vem talvez
eu não te devore
Mas vão te devorar por mim
Vão te abocanhar por mim
Vão te rasgar enfim
Porque o que você tem
Nem tendo dá pra ter
E dividir você não quer
Então Se tiver de tomar
Eu tomo, eu degluto, eu engulo
Eu cuspo e sou chulo
Eu sou triste e tô raivoso
Me comprimem e eu não aguento
Não podem chamar as margens
Do rio de violento
Você tem que desistir
Porque eu sou bomba relógio
E quando eu explodir
Você vai desexistir
Porque já passou da hora
Dessa brincadeira acabar.
domingo, 18 de setembro de 2022
o cronista de meus amigos
porque é assim que tem sido.
mas nada pode e nem será mais como antes.
caminhamos calados, taciturnos, reclusos.
vislumbramos na alvorada, com certo espanto,
a porta de saída, a poucos passos,
e tantos dos nossos já a cruzaram.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
Saturno Demora
O tempo corre facilmente,
Sem pensar nem sentir
Os percalços do movimento -
Corre, e independe
Do que pensa ou pensamos de si.
Na velocidade com que passa
Rasga nossa pele
E joga em nossos cabelos
As cinzas das horas mortas.
O tempo voa sem bater asa,
Como voam os aviões,
Sempre como um pêndulo
Aproveitando-se das instruções
Que outros homens,
Em outro tempo,
Constataram pelo erro.
Qual não foi a engrenagem
Que destravou em mim
A memória de que o nosso tempo
Sempre corre pro fim?
O tempo viaja sem pressa,
Sem mala nem hora pra voltar -
Porque o tempo histórico do homem
Sempre passa mais devagar.
Quanto tempo o tempo tem?
Quem decidiu que ele o seria?
Por que o sofrimento dura um ano?
E por que é como um raio a alegria?
Quanto tempo eu ainda tenho
Para responder essas perguntas?
Quanto tempo a vida dura?
E quanto vale o que a segura?
Conforme seja: o tempo varia:
Para a criança é a ansiedade da espera,
O dia que passa de hora arrastada;
Para os adultos é uma maratona
que sempre falta um tanto
Para a linha de chegada;
Para o velho, é uma caminhada,
Rumo a saída
que se deseja adiada;
Para o suicida
É uma surpresa esperada.
Mas grosso modo,
O tempo é o senhor das mudanças
que pode demorar e demora,
Porque o tempo humano é pífio
E é uma página que demora a acabar
Mas ela virá:
Como um dia que, na enchente,
De uma enxurrada levará séculos embora,
Mas até lá, o tempo corre a conta-gotas,
Esperando esse rio que tudo arrasta transbordar.


