quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

30 min de silêncio

cheguei à sua casa, nada dissemos - ele sabia que eu não diria nada, sabe do meu jeito - sete anos de amizade, oito, por aí, sabe bem que não falarei. era meia hora de silêncio, eu teimoso feito um carrapato. um carrapato que suga o sangue - eu sugo o silêncio e a má vontade do ar pesado - preso à árvore, preso à vontade. meia hora disposta. não há melhor comparação - um carrapato não atinaria pensamento em entender o que há aí, eu tento, não consigo, vontade não me falta. mas deixo, deixo e não deixo, pois que passou-se a tal meia hora. me fui, sem pensar, sem levar nada dentro do peito, a não ser a cócega da situação - talvez o silêncio faça bem à amizade.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sad & Beautiful World

Rim Lee

A maré das coisas nos torna vulnerável, ou o contrário, às dores. 
Faz um tempo já decidi que não as iria mais sentir, e comecei a regredir alguns anos de minha (suposta) vida para voltar ao início, deitado em minha cama, fetal, às tantas da madrugada, e dia seguinte, acordar, ainda cheio do líquido viscoso da placenta, e cuidar de fazer daquele dia o primeiro dia da vida, sentir os primeiros ares, saber onde os ares são mais amenos, mais rarefeitos, onde bate forte o sol, saber que ele por muito tempo a deitar sobre a pele pode fazer mal apesar do belo espetáculo de vê-lo nascer. O sol nasce todos os dias. Nasce. E renasce. 
Assim, minha pele vai cuidando de adaptar-se aos seus raios, aos seus melhores dias. Os dias que nem sempre são bons – na verdade, a maioria é bastante ruim depois que toca o meio-dia – mas ainda assim divago nos divagares do meu monólogo particular. 
No intento de melhorar os pontos que se inconformam de permanecerem distantes – a vida se torna simples (como um círculo) àqueles que não se interessam por saber um pouco mais do que há por dentro da grande massa que nos revolve à tal maré... 
Nas mesmas poucas vezes em que me dispus a nadar contra a corrente das coisas, acabei por me defrontar com o poder abissal do mar – estar sobre a água, flutuar por algumas horas sobre, é o não ter medo de olhar para debaixo dos pés, ver o infinito se extinguir debaixo dos, and its a sad and beautiful world. Sussurrar isto ao pé do ouvido às minhas manhãs vai fazer com que eu vá aprendendo dia após dia em meus renasceres que nada vale a pena enquanto não nos tornamos cada dia um pouco mais surdos, mudos e cegos – ignorantes, insensíveis e indiferentes às pedradas que diariamente teimam em chover (à quem elas teimam eu não sei, apenas acontecem... entender é um começo).
It’s a sad and beautiful world.
E foi por isso que eu decidi naquele dia ir à praia. Fui ver até onde se deitaria o sol. O mar até tinha força de me entristecer, mas... eu ainda lutava, enquanto engolia água por todos esses anos que passei sem ter tempo de cuidar dos meus rins. Eles não agradecem, não podem e a porta vai se fechando a cada dia enquanto eu calado em renascenças ainda não aprendi a falar.
... e nem pretendo.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ensaio sobre escorpião I


que há demais em se mostrar pequena parte do meu todo? quando de repente notar, já terei partido numa bela bad trip, que há de me tragar, estrada adentro, sem sentido. quando eu for poeta, aí sim, eu poderei me dar por inteiro a tudo, mas enquanto não, eu vou me doando à conta-gotas, cuidando de ser ator de mim mesmo, cuidando de lapidar minha pele, meus dedos, minha voz, meus sentires e cantares. eu todo moldado na mentira que criei pra mim – mas mentira de poeta é arte, entretanto ainda não sou o poeta que almejo, nunca fui nem nunca serei – sou só a parte que me resta do meu próprio latifúndio, arando a mim mesmo a terra seca, descampando meu peito, descampada a minha história, meus retratos, porta retratos. tudo o que eu construí. eu vou fechar esta porta, eu vou trancá-la, vou passar a chave. nada entra, nada sai, eu estarei longe de tudo, mas perto de qualquer coisa. poderia até complicar mais, talvez abraçar alguém, confundir o nexo, retroceder dois passos, sorrir, dizer que sim, que não, que sim-e-não, e então sair de encontro ao acaso. eu encontro lá o ombro, o cheiro, os lábios semicerrados à minha espera, toco-os com os dedos e ganho tanto quanto perco, me refestelo no meu próprio cansaço, sorridente, e o cigarro sempre acaba quando mais se necessita, o copo sempre esvazia. o resto é consequência.

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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

apenas...


para Caroline Andrade
(incomum semelhança)

amar mais...
amar menos...
amar demais,
amar, a menos
que se se ame mais
aos seus amenos
distúrbios sazonais,
que farão claras
as noites serenas
a menos, claro,
que se ame (apenas).

eap

Passagem (I, II, III)


I

é bem assim que me reconheço,
desfazendo meus cantares --
de toda forma que me conheço
eu me refaço em desamares.

é bem assim que me refaço
me arrefeço nos mazelares,
de todo espírito impuro e meigo
que me invade nos calares.

é bem assim, que em mil colares,
colando verso após verso
que no distinguir de teus olhares
vou me desfazendo em gestos.

II

é bem à noite que me canso
de toda a euforia branda
que me revolve os olhos
e me sensibilizo à dança.

acendo meu cigarro guardado
a sete chaves na gaveta...
me esqueci do quanto era gente
antes de ser gente inteira...

levo de leve a leveza que me acalma
entretanto não suspiro breve,
tusso e ponho fora a minha calma
anuncio-me em mil olhos acesos,

qual brasa do lume,
hoje, eu me tanto faço quanto me fiz,
só ponho a cabeça cansada
e cuido de ser feliz.

buscando meu só,
buscando ser só,
buscando só
solitude/solidão.

III

vou calado, calcando o pé no meu cansaço
buscar a verídica parte que me falta,
que me dói e tem doído.
não encontro ninguém, nem nada,
apenas na calada noite
essa noite que se fez lenta
a face obscura de um poema,
onde o nadatudo de minha vida
se fez sólido no fundo do copo que bebia.
eu vou, natimorto, buscando levar
meu eu só no verso de me buscar,
e drummond bem sabe, quando me diz
da vastidão das coisas... o mundo é vasto
e me devasta.

eap