segunda-feira, 20 de maio de 2013

sub(ida)


inclusive nunca me atinara a vontade de voltar, proteger-me demasiado, saciar a sede na água da garrafa, acender um cigarro, ler um pouco, os óculos repousados sobre nariz da luz embaciada da cozinha; me proteger da chuva, me proteger da rua, sob a vontade dum frio desejado, ouvir a chuva de longe, ouvir a rua de longe, evitar a rua, evitar a chuva, o mundaréu de gente, aquele sopro no dorso do pescoço, os perfumes que nem beijam nem se escondem, os olhares cobiçosos; pegar um táxi correndo, sem qualquer proteção, não dar palavra e atravessar a cidade desfazendo o percurso de ida, numa velocidade que te assegure no assento; inclusive, disso posso garantir, aquela vontade de dançar passara, mesmo que os atabaques fossem mais altos que a reverberação dum vaguear doido por ali – saber-se não-sozinho e sentir-se melhor, livre: mais livres os braços, os olhos e a cabeça e os cabelos... regidos pelo mesmo signo, ess'água que nos afoga, podia ver na cabeça loira e no suor que escorria e na água que nele se espraiava e na sua loucura tenra, algo doutras épocas; aqueles tais atabaques se sobrepunham a qualquer fartura de xamã qualquer, orixás e babalaôs, farofa e galinha assada, cachaça prata, nada nada nada (naquilo) daquilo, nisso, minha cabeça zonzeava sem entorpecer, sem nenhum minuto padecer sob nenhuma circunstância, mesmo esforçando e ainda por cima chovia, rua acima era temporal fechado, um vendaval na minha testa, abrir-se o chão, levasse o que fosse, levasse pr’algum lugar, que dessa rua eu só sabia que subia, descia, encontrava-o, sua voz grossa, sua loucura de cachaça, de cigarro, de baianice, baianidade, idade, nenhuma, sofrimentos de 6 minutos de uma casa pequena com uma varanda chamando as crianças pra jantar, isso é pra viver, ou morrer?, sua preguiça, a memória sortia-me, em casa, encharcado da rua, da chuva, um cigarro, saciar da sede da água da garrafa, a vontade de voltar, de cama, de travesseiro, inclusive.

eap

terça-feira, 23 de abril de 2013

dos bobos

falava desses sentimentos 
bobos e preguiçosos
que mal não fazem
a ninguém
nem à memória.
pois que
tudo é prosa
poesia,
tudo é versável
versível --
o inverosímil --,
até a verdade
(aquela invisível),
até o irreversível.

eap

domingo, 14 de abril de 2013

Sem nome nº 17

tinha esquecido
que sou feito
de poesia


tinha ido
ao respeito
do que vinha

tinha lido
que do desfeito
o efeito é o que fica

eap

pode ser que sim

pode ser que um dia eu o perdoe pelos erros do passado, pelo vago pesar do seu andado, pela maneira como deixa fugir dos dedos seu não ser de antes. sua não maneira de ser. mas hoje não. e não adianta força: feridas têm o tempo certo de se fechar, de se cicatrizar, de não sobrar nada, nem aquele vago resquício de mágoa -- todos têm seu tempo. 

lembro sim, que andávamos juntos, ríamos, conversávamos (quando criança era tudo melhor). quase vislumbro numa memória 'polaroidica' nós dois juntos, ele, eu sobre uma velha moto preta ou vermelha; eu era pequena criança rechonchuda, branquinha, à frente, do meu próprio riso nem me imaginava a carranca de hoje, esse silêncio pesado. na garagem tocava os alquimistas estão chegando, de jorge ben... sabe lá dessa nostalgia.

eap

do mesmo ar

para luana laysa
que ainda desconhece estes versos 

por ela eu baixo o volume para escutar o que diz,
eu paro minhas leituras, pauso o filme.
rebaixo-me até envergar minha coluna
eu falo mansinho, eu tenho dó de gritar, de maltratar,
não exito em lhe chamar de meu bem, meu amor,
de lhe dar carinho, de pensar no seu futuro.
te cuido, mansamente, ponho para dormir,
tenho meus pseudo ciúmes,
não te deixaria ninguém maltratar, que não eu
por uma boa causa,
por uma causa que você desconhece hoje.
gosto do seu jeito de receber o meu amor incondicional
minha arte, minha sorte;
ver teu brilho nos olhos quando me vê
e o nome que só eu sei que me chamas.

eap