quarta-feira, 9 de março de 2011

O diabo que te habita

Era de um calor doido que eu estava sofrendo. O sol era maldito também - em nada ajudava. Como eu poderia estar tão quente? Todas as pessoas ao meu redor a tremelicar os dentes e eu aqui: a suar, molhando a camisa, formando bolinhas de suor nojentas, debaixo do nariz, acima da boca - lugar impreciso. Eu abro um botão; sacudo a camisa; o ar quente dança, por dentro da blusa:


- Que diabo me habita?


Derramado da testa, ao peito cai a gota de suor. Uma goteja, da ponta do cabelo, justo em cima da boca - um suor salgado. Um suor sagrado, já dizia aquele cantor daquela geração. O ar-condicionado conta dezesseis graus, e não se pode mais suportar o frio que fazem os dois, um contra o outro, a se encontrar neste pequeno recinto onde estamos.
E,a,p'

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os Pequenos Demônios - Fragmento

Os pequenos demônios ainda me olham por baixo da cortina.

A luz baça, escurecendo, quase a fraquejar, e de tão amarela, percebo seu ritmo, indo e vindo.

As paredes, movimentos de espectros angelicais ou maldosos espíritos que calçam vidros nos pés.

A orquestra de um pequeno horror causado pela madrugada, que vai fria fria, sem nenhum som a entrar pelas brechas da janela - eu poderia jurar que os olhos deles atravessam aquela fresta aberta entre uma tábua e outra e estão aqui na minha cama. Os pequenos demônios.

Eu poderia simplesmente acender as luzes, ver, quem sabe, que feições seus rostos lembram, se têm rostos, se não é apenas um buraco, sem olhos, sem boca, sem nariz, sem nada, apenas um enorme buraco a tragar o pecado, o medo alheio. Minhas mesquinharias, minhas pequenas manias. Percebe-se que não falo assim por falar. Há na minha dicção esse tremor insistente, e quem estivesse a me ouvir cochichar que não vou abrir os olhos já saberia disto.

O rosto que tenho, pode ser, não sei ainda, é dele. Como adivinharia, se não sou louco de abrir os olhos. Talvez eu seja um louco, de pedra, dos pães, sabe? Mas não por querer abrir os olhos, mas por tê-los fechados, e supor a existência dos monstrinhos. Mas eu não julgo ser louco, apenas sei que eles respiram quentes em minha nuca. Quase lhos ouço a sussurar meu nome. Ciciam no mesmo ritmo contínuo e fraco da chuva que vai pingando nas folhas da árvore do lado de fora. O telhado deixa goteja suas salivas - todos jurariam ser algumas goteiras, mas eu sei que não o são. Os demônios vão descer um dia, e vão fazer o que Travis Bickle um dia disse que uma forte chuva iria fazer com a cidade de Nova Iorque em Taxi Driver: vai levar toda esta maldita corja consigo, uma chuva forte. Eu estarei lá para vê-los, todos eles, e eu inclusive, sendo puxados para dentro de um grande fosso onde jorrará uma lama putrefata, e o cheiro de enxofre irá invadir a cidade, os becos mais recônditos, as ruelas, as ruazinhas, as ruas conhecidas e avenidas - a trombeta do anjo vingador, como eu devo ter lido em algum livro.

Os pequenos demônios são os anjos caídos, que sobem vez por outra para atormentar minha paciência, assim eles lha testam, assim eles vêem que eu posso ficar completamente louco ao ver que se eu não digo isto a ninguém, vou somando suas aparições, seus olhos vermelhos por trás de paredes, de colunas a me fitarem, e somando, aterrorizo-me, pois não encontro remédio para fazê-los irem embora.
(...)

E,a,p'

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Leminski



Minha mão dormiu


e sonhou


que a tua me acenava


de um navio




Paulo Leminski.

Não Estou Lá

A praia quis encostar no continente, meio em ondas, meio em turvas pancadas com que acerta a pedra. A pedra sequer sente a tal, mas um homem se esquiva enquanto ela chega, vem, bate, explode, se distancia, se espalha no ar e em seguida não é mais que arco-íris. Tudo isto vem, acontece, acaba, acontece, e acaba novamente, como é que não se pode aperceber-se de tanta beleza?


Alguém cutuca com um dedo frio minhas costas e eu me assusto por segundo de minha observação. Pobre mocinha das flores vermelhas. A flor na cestinha de madeira, seu rosto magro, moreno do sol castigante que do mar reflete - eu lembro que certa manhã eu fugi da aula para ver o mar, e naquele dia o mar refletiu a luz do sol com a força de um espelho. Parecia mais verde, mais ao fundo, mais azul, parecia querer se agarrar ao céu e a ele se juntar, se aglomerar, se misturar, ser um só, coisa mesma, nada além de uma mesma coisa que se estende longa e vai se distanciando.


O sol, falando nele, por vezes, reflete o corpo negro e retinto de um homem que insiste em pular na água. Desconhece talvez o perigo de cair n'água de cabeça e tchibum!, ir fundo, ser absorvido seu impacto, seu peso, misturar-se, como o sol, sua cor, sua pele, sua beleza, seus músculos. Ele sobe e recomeça novamente seu movimento, como a onda do mar que repete a sua fantástica explosão, que de água raivosa, espumante, barulhenta, que pode te afogar, se transforma no que é, um amontoado de cores, de reflexos, de luz e espumas que ficam assim, a pairar no ar uns instantes, molham e somem. O homem talvez não pense nisso. Ele quer é mergulhar, exibir seus músculos, cair, levantar, cair de novo. A pedra ao fundo talvez seja mais funda que sua cabeça possa ir.


A menina das rosas me oferece uma. Na verdade, moça não, um dia foi, eu quase a vejo, no mesmo lugar, a cestinha, o olhar pedinte, o sorriso feliz, não sei como. Eu espero um bom instante e não agüento, quero ir, mas ela não, parece que não espera o tempo de ir para sua casa, se tem, se não faz parte deste lugar, se não é parte habitante desta ponte a quem chamam, não sei por que, Ponte dos Ingleses, Metálica - se é feita de madeira, por vezes balouçante, é bem verdade. Deveria ser a ponte das rosas, da moça das rosas, deveria ter seu nome.


Hiperbolismo à parte, esta ponte tem mais histórias à contar por meus amigos que por mim, que passo aqui, vagueando só, sem destino certo, apenas apreciando o silêncio de alguns lugares, onde se possa usufruir uma boa dose de paz, onde agora nem se encontra mais. Vou apenas achando isto, enquanto as pessoas que se encontram, as que fazem barulho, vão se aglomerando, vão pondo seus flashes à mostra e rindo seus sorrisos. Já é hora de partir. A lua vai alta no céu a me acompanhar e antes de volver em meus calcanhares, ainda observo a lua que perto do mar joga seus cabelos, que, dizem os marítimos de Jorge Amado em Mar Morto, são os cabelos de Iemanjá, de Janaína. Lá, no alto, tão maior que cá na cidade, do meio do caos - que é uma lua medrosa, se escondendo por trás das palhas de coqueiros, dos prédios, das casas, e nunca dá as caras, com medo de se acinzentar, logo ela, tão prateada.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vadio

Procuro-te,

nas minhas noites mal-dormidas,

nas madrugadas de orgia,

copo após copo,

a te procurar.


E te procuro ainda,


em outros corpos

em outras bocas

em outros copos

em outras roupas.


E,a,p'