dia e noite a gente se fala
é engraçado pensar
que parece que a gente se conhece
quando tem tanto por dentro
que ainda me faz duvidar
quando bate aquela paranoia tal hora
da madrugada
quando você dorme
e eu fico acordado, fitando o teto,
pensando em fumaças
e onde é que eu comecei a te perder.
mas eu não te perco
a gente se acha
mas eu não quero me achar
ficar todo pomposo, cheio de mim.
eu gosto dessa humildade quase servil
que eu te ofereço
de nunca ser bom o suficiente
porque nunca sou
porque nunca serei
porque sou homem
e isso é tudo o que posso ser.
eu te entendo, eu penso que te conheço,
mas sei o que há agora
o que vem depois é bom saber na hora
em que a gente ri
só quando os dedos acariciam o pescoço
e cê se retorce com um sorriso e uma gargalhada.
nesses instantes, até o meu sopro
te faz rir
e quando cê ri
eu deixo fluir um rio inteiro de felicidade
que fica aqui dentro
esperando qualquer lágrima ou saliva
pra se encher
e voltar a preencher versos
quando na verdade eu só penso mesmo
é em pegar um ônibus e um táxi
descer na tua porta
dar boa noite ao porteiro,
desembocar minha mochila no canto da parede
e dormir agarrado ao teu braço
de calça, descalço
sem medo do tempo
sem pensar em nada
só naquele momento
em que a gente se esquenta
mesmo que não precise
nesse calor das noites de fortaleza.
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
27
eu tenho medo do tempo,
embora eu negue
e finja que o aceite.
sei lá,
27 anos, parece que foi ontem
que eu estava feliz
porque tinha uma trilha enorme pela frente
e eu quebrei tudo
e mudei o percurso
e me desfiz em nada.
eu sou muito sonho, sabe?
e isso é tenebroso.
fico recheado de planos,
falo alto como se estivesse sempre
respondendo a perguntas imaginárias
feitas em um late night.
eu sou sonhador demais
e a gente que flutua no sonho
só sabe reclamar da realidade.
27 anos
a idade onde os gênios morrem.
já foi a janis, o jimi, o jimbo, o kurt e a amy.
ainda teve o johnson e ainda vai ter mais gente.
eu achei que um dia seria eu,
por mais humilde que eu tentasse ser,
eu sempre sonhei que seria grande,
sempre quis ser um reflexo invertido da minha realidade
quando na verdade,
você só pode ser o que você é.
27 anos – ainda tem um ano pela frente
pode ser que eu morra,
pode ser que eu viva,
o resultado é indiferente,
é só mais um,
não é gênio,
mas conhece os gênios,
quis ser um,
grande promessa,
se bem que o lil peep morreu com 21
e já era gênio.
aos 21 eu era promissor, como a maioria das pessoas que eu conheço.
aos 21 eu era ovelha negra da família
eu tinha orgulho de mim
e queria morrer,
hoje eu tenho vergonha do que me tornei
mas quero viver,
vai saber o que me aguarda.
pode ser que alguma coisa aconteça –
eu só preciso de uma chance,
afinal, estou cada dia mais próximo dos 30,
que é uma idade estranha.
eu lembro do meu pai com 30,
eu lembro da minha mãe com 30.
eu tenho medo do tempo, porque ele existe
e a gente passa por ele, e não o contrário.
um dia a gente passa
e ele fica
e o que resta é nada mais que um resquício no tempo
e meia dúzia de palavras que alguém deixou para
meia dúzia de pessoas.
fortaleza, 18 de julho de 2018:
eu fiz 27 anos e quero viver.
embora eu negue
e finja que o aceite.
sei lá,
27 anos, parece que foi ontem
que eu estava feliz
porque tinha uma trilha enorme pela frente
e eu quebrei tudo
e mudei o percurso
e me desfiz em nada.
eu sou muito sonho, sabe?
e isso é tenebroso.
fico recheado de planos,
falo alto como se estivesse sempre
respondendo a perguntas imaginárias
feitas em um late night.
eu sou sonhador demais
e a gente que flutua no sonho
só sabe reclamar da realidade.
27 anos
a idade onde os gênios morrem.
já foi a janis, o jimi, o jimbo, o kurt e a amy.
ainda teve o johnson e ainda vai ter mais gente.
eu achei que um dia seria eu,
por mais humilde que eu tentasse ser,
eu sempre sonhei que seria grande,
sempre quis ser um reflexo invertido da minha realidade
quando na verdade,
você só pode ser o que você é.
27 anos – ainda tem um ano pela frente
pode ser que eu morra,
pode ser que eu viva,
o resultado é indiferente,
é só mais um,
não é gênio,
mas conhece os gênios,
quis ser um,
grande promessa,
se bem que o lil peep morreu com 21
e já era gênio.
aos 21 eu era promissor, como a maioria das pessoas que eu conheço.
aos 21 eu era ovelha negra da família
eu tinha orgulho de mim
e queria morrer,
hoje eu tenho vergonha do que me tornei
mas quero viver,
vai saber o que me aguarda.
pode ser que alguma coisa aconteça –
eu só preciso de uma chance,
afinal, estou cada dia mais próximo dos 30,
que é uma idade estranha.
eu lembro do meu pai com 30,
eu lembro da minha mãe com 30.
eu tenho medo do tempo, porque ele existe
e a gente passa por ele, e não o contrário.
um dia a gente passa
e ele fica
e o que resta é nada mais que um resquício no tempo
e meia dúzia de palavras que alguém deixou para
meia dúzia de pessoas.
fortaleza, 18 de julho de 2018:
eu fiz 27 anos e quero viver.
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poemas medíocres
culpado demais
a quem um dia fiz mal.
carrego muita culpa na bagagem
algumas delas eu nem gosto de proferir em voz alta.
eu sinto muito
mas não faço nada
não há mais o que fazer.
só seguir nessa de ir mudando,
aos poucos,
se desfazer, se desconstruir, se perdoar, pedir perdão
e entender que o karma existe,
o universo também, e ele revolve tudo.
a culpa é pouco.
como dizia o verso do meu primo,
a culpa é de quem pede desculpa,
eu sei, eu sei, eu sei.
já dei muitas desculpas,
algumas ainda estão por vir,
mas cada uma dessas desculpas
é como se eu arrancasse um pedaço da minha pele.
e é pra ser assim,
afinal, quem mandou, não é mesmo?
não há um único dia
em que eu não me pergunte
o que eu fiz pra merecer o que passo,
quando basta olhar pra trás
e ver que fiz muito
fiz demais
e é bem-feito.
agora, é colher os frutos podres,
os louros secos e as ervas daninhas
que estão estampadas no jardim do meu rosto
em forma de olheiras.
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a última dança (ou o baile de sangue)

e houve este dia
em que o baile parou
as máscaras caíram
e todos se assustaram com o que viram.
seus pares, que antes dançavam sem se conhecer
passaram então
a ver quem era quem
sem atentar aos detalhes
da mão que apertava
mais que o normal
a outra mão
que queria que a valsa continuasse
porque a dança era, em si,
algo que tendia a satisfação.
e houve o grito de horror
de milhões de vozes
que vociferavam um uivo lúgubre
e como nunca
pudemos perceber que a valsa era,
na verdade,
uma armadilha.
os rostos eram feios,
dentes armados
para morder
a carne dos seus comuns,
e fazer sangrar
um baile de sangue.
mas as máscaras só foram entregues
antes do baile começar,
os convidados chegaram
sem elas,
e o que se seguiu
não deveria surpreender.
então deu-se a matança
e uma cruz pesada,
caiu sobre os convivas
e só depois,
percebemos que jesus não estava naquela cruz.
o cheiro era de chumbo,
os sapatos eram botas coturnos,
e as roupas eram camufladas
como os seus rostos.
e não sabíamos,
não poderíamos imaginar,
o tamanho do orgulho
que eles sentiam
na hora de abrir nosso tórax
com unhas sujas
e retirar de dentro de nós
o nosso sangue.
quando a matança enfim acabou,
o que se seguiu foi que a banda
continuou
e ao invés de lanceios e braços e pernas
ouvíamos marchar
botas e baquetas
que conduziam nossos semelhantes
ao abate final
onde dançar seria proibido
porque aquela seria a última dança
desde agora,
até o infinito
para o terror de nossas crianças.
quando no futuro perguntaram
o que se sucedeu ao baile
as pessoas riram
e diziam que o sangue
era tinta
que as botas
eram de palhaços
e que os gritos
eram gargalhadas
e que as máscaras
eram rostos pintados.
o baile nunca existiu,
o baile era uma desculpa
para que covardemente pensássemos
que poderíamos estar juntos
sem culpa.
em que o baile parou
as máscaras caíram
e todos se assustaram com o que viram.
seus pares, que antes dançavam sem se conhecer
passaram então
a ver quem era quem
sem atentar aos detalhes
da mão que apertava
mais que o normal
a outra mão
que queria que a valsa continuasse
porque a dança era, em si,
algo que tendia a satisfação.
e houve o grito de horror
de milhões de vozes
que vociferavam um uivo lúgubre
e como nunca
pudemos perceber que a valsa era,
na verdade,
uma armadilha.
os rostos eram feios,
dentes armados
para morder
a carne dos seus comuns,
e fazer sangrar
um baile de sangue.
mas as máscaras só foram entregues
antes do baile começar,
os convidados chegaram
sem elas,
e o que se seguiu
não deveria surpreender.
então deu-se a matança
e uma cruz pesada,
caiu sobre os convivas
e só depois,
percebemos que jesus não estava naquela cruz.
o cheiro era de chumbo,
os sapatos eram botas coturnos,
e as roupas eram camufladas
como os seus rostos.
e não sabíamos,
não poderíamos imaginar,
o tamanho do orgulho
que eles sentiam
na hora de abrir nosso tórax
com unhas sujas
e retirar de dentro de nós
o nosso sangue.
quando a matança enfim acabou,
o que se seguiu foi que a banda
continuou
e ao invés de lanceios e braços e pernas
ouvíamos marchar
botas e baquetas
que conduziam nossos semelhantes
ao abate final
onde dançar seria proibido
porque aquela seria a última dança
desde agora,
até o infinito
para o terror de nossas crianças.
quando no futuro perguntaram
o que se sucedeu ao baile
as pessoas riram
e diziam que o sangue
era tinta
que as botas
eram de palhaços
e que os gritos
eram gargalhadas
e que as máscaras
eram rostos pintados.
o baile nunca existiu,
o baile era uma desculpa
para que covardemente pensássemos
que poderíamos estar juntos
sem culpa.
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poema,
poemas medíocres
arquitetura e verso
linhas retas, calungas e esquadros.
escalímetros, balanços e planos básicos.
as mãos fixas, seguram o compasso,
a mão tece uma linha, ponto a ponto e projeta no espaço.
obra de concreto feita pelo homem de barro.
obra de vidro feita pela mulher sem nenhum reparo.
a arquitetura das coisas é obra sempre por fazer
mas os dedos cheios de calos deixam sempre uma linha a mais correr.
e se corre pro infinito, de onde vem a luz,
pra saber onde fica o diedro mais que perfeito,
dos versos que vou tecendo mesmo sem saber como se faz direito,
nunca soube de um verso ou de uma casa sem um fiat lux,
mas tentando muitas vezes é que eu posso conceber
e fazer a primeira linha do poema e do projeto se erguer.
escalímetros, balanços e planos básicos.
as mãos fixas, seguram o compasso,
a mão tece uma linha, ponto a ponto e projeta no espaço.
obra de concreto feita pelo homem de barro.
obra de vidro feita pela mulher sem nenhum reparo.
a arquitetura das coisas é obra sempre por fazer
mas os dedos cheios de calos deixam sempre uma linha a mais correr.
e se corre pro infinito, de onde vem a luz,
pra saber onde fica o diedro mais que perfeito,
dos versos que vou tecendo mesmo sem saber como se faz direito,
nunca soube de um verso ou de uma casa sem um fiat lux,
mas tentando muitas vezes é que eu posso conceber
e fazer a primeira linha do poema e do projeto se erguer.
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