domingo, 7 de agosto de 2011

Crânio Eletrônico - Divulgação



Estou numa nova empreitada, que posso encarar até como fruto de um reconhecimento por isto que é a minha maior motivação em trabalhar este blog: a literatura, os livros e a cultura de um modo geral.

Digo isto de modo sucinto, pois não me alongarei mais para dizer que foi de muito bom grado que aceitei a proposta de meus amigos de infância de 13 anos, Gilciêr Silva e Raul Sérgio Oliveira para encabeçar os colunistas deste blog, que já sugere muita coisa só no nome: Crânio Eletrônico.

Estarei por lá falando sobre novidades da literatura, lançamentos, informando, e, resenhando - clássicos, emergentes (que era coisa que eu não fazia antes) e tentar fazer valer e não deixar por menos toda a confiança que em mim depositaram.

Já de cara agradeço.

E a quem já me segue aqui, que nos siga, que veja, comente, critique - por que não? Tudo que se soma é ainda benefício em prol da melhoria.

E,a,p' - férias por tempo indeterminado.

sábado, 6 de agosto de 2011

Tempo

Do filme "Morangos Silvestres", de Ingmar Bergman

"Tempo: Série ininterrupta
e eterna
de instantes"


Desde quanto tempo
o tempo é tempo?

Ecoa em mim
o grão de areia
que ele deixou.
E no fim:
é bilionésima parte
de infinitas partes
biobilionésimas.

E,a,p'

(talvez a melhor e mais bonita definição do indizível que já vi)

Fraternidade


I

Fui à contragosto deixar meu irmão à sua escola. Na verdade, à contragosto não tanto: mais porque eu não gostava mesmo de andar com ele, por tudo o quanto não somos. Qualquer vestígio de amizade é pura ilusão, pois que ele fora meu primeiro irmão caçula e de toda forma muito sofri desde seu nascimento física e moralmente. E qualquer coisinha, desde o olhar demorado à qualquer outra coisa era razão de nos estapearmos. A diferença entre nós dois era abissal: nove anos. Mas não é disso que quero falar. Pulemos como se pula corda para outro parágrafo.

Caminhamos eu, ele e mais um amigo dele que ia anedotando qualquer coisa ao pé d'ouvido.
Eles riam e eu ia escutando e rindo comigo mesmo,

- Meu, saca essa.
- Hum.
- O cara tava lá né? daí ele chegou pra dona gostosona que ele tava secando e disse assim, Ó, tenho uma proposta pra tu, aí ela disse, Sai, nem quero ouvir, daí ele disse, Escuta, vou jogar cinquenta reais no chão e tu vai ter que deixar eu fazer tudo o que eu quiser contigo enquanto tu apanha, certo?, aí ela, Certo, achando que o cara era doido, e que ia ser mole pegar uma cinquenta reais do chão. Não ia dar tempo nem dele olhar, né? Diz aí: ele num joga cinquenta reais só de moeda de cinco centavo no chão não?
- Porra, ela se fodeu, hein?

Lembrei que eu também não fui santo quando tinha a idade dele. Antes mesmo eu já sabia que interessava mesmo era o que a mulher guarda dentro da calcinha. Se tinha visto, vi porque meus primos me mostravam sites pornôs no computador, ou então mostravam revistas de "mulher pelada" para mim. Eu não olhava, pois caminhava à frente deles, mas tentava entender o que ia pela sua cabeça, que ânsia lhe movia até encontrar o que tanto se procura?

E ele só tem dez anos.

II

Um telhado avermelhado, absolutamente espaçado sob um sol impiedosamente brilhante de uma da tarde. O telhado tinha espaços entre telha e outra, o que deixava pequenas frestas de luz penetrarem no grande espaço que divisava salas de lado e de outro. Seis pilastras encobertas de azulejo branco cheias de desenhos e nomes sustentavam o local. Debaixo, mais abaixo, crianças correndo, e eu, irritado, encolhido na insignificância de minha invisibilidade, observava o correr das crianças, suas vozes finas a gritar coisas que eu não conseguia ou não queria simplesmente escutar. Observava seus movimentos.

Sobretudo meu irmão. Sua voz não era a minha, era outra, e no entanto viemos do mesmo ventre, e tudo em dez anos meus e dele eram tão diferentes! Ele parecia mais familiar com o ambiente, ao que eu me lembro, sim: eu era todo uma carranca, um estranhamento, uma sensação de estrangeirismo que nunca saiu de mim - eu experimentava da invisibilidade de outrora, e ela nunca havia surgido tão forte.

Meu irmão corria em círculos: era o mais rápido, o mais ágil, sempre um dos últimos a ser cutucado no jôajuda. Ele gargalhava insuportavelmente, era cruel a maneira como ria, como se achava, como liderava. Tudo o que eu não fora. Na verdade não havia crueldade naquilo tudo: eu é quem sempre achei que a crueldade estava em todo detalhe do mundo, uma conspiração irritante contra minha minusculice, minha pequeninês infeliz.

Olhei para suas sombras sob a luz do sol refletida na parede. As suas silhuetas inquietas eram um pouco do que sobrava para além dos gritos e palavrões. Eu lembro que vivi. Era ainda pura inocência, enquanto suas mãos se agitavam para o alto, num momento de quase silêncio enquanto se distanciavam. Os gritos iam junto, ficava eu novamente na minha perpétua invisibilidade.

Sobrou de seus pés, um tanto, um fiasco, um nada - e eu ali, atônito sob a perspectiva de que meu passado era outro. Este, não. Este nunca.

E,a,p'

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Obsessão - reedição

Quando eu lhe disse, Quero dela um absorvente, ela largou a vassoura no chão, e acertou a minha cara com força. Por um momento senti raiva, pensei mesmo em perguntar, Que houve sua puta, tá doida, porra?, mas depois achei compreensível, e diria mais, tolerável, a sua reação. Ora, imaginei de repente, o que não faria eu, caso ela chegasse para mim, e pedisse uma... O que seria tão pessoal quanto um absorvente e ao mesmo tempo, causasse tanto nojo como nela causou. Ela, a zeladora do escritório, sempre fora uma pessoa amável até então, mas deste dia em diante, evitava mesmo me olhar. Fiquei chateado, mas não pude deixar de concordar com ela: Desta vez havia ido longe demais. Mas o fato é que não conseguia tirar de minha cabeça uma maneira de me sentir mais íntimo daquela estagiária da repartição. Mas, eu, que não passo de um cobrador de telemarketing, no máximo, para enfeitar, aprendi num filme, Operador de Fotocopiadora da própria empresa, um burro, miserável, que mal tem o ginásio completo, jamais teria a oportunidade de lhe dar um beijo ao menos, quem dirá, chegar próximo de sua calcinha, onde, obviamente, estaria mais perto de sua vagina, lugar onde ocasionalmente eu gostaria de chegar, logo dela, que era letrada, de gente grã-fina. Mas levei comigo deste episódio a lição de que as coisas não devem seguir então este caminho tão rápido, tão afoito.

De qualquer maneira, deixei de lado a zeladora, que dela era tão amiga, e voltei a me concentrar no seu passar. Ela sequer me olhava, mas eu seria capaz de adivinhar dela uma miligrama a mais de pó de arroz que ela pusesse em seu rosto, de longe adivinharia, inclusive, como foi o caso, os dias de sua mentruação.

Houve um dia que tomei coragem, respirei fundo na minha bobinha, e superei até mesmo minhas crises de asma neste dia, fui até a máquina de xerox, e lhe dirigi o melhor, Bom dia que pude dar. Ela me olhou de soslaio, depois para cima, sem mover o pescoço, e em seguida, balançou a cabeça soltando uma baforada que entendi como enfado.

Neste dia, ela estava visualmente diferente, e seu humor também, pois inquietante estava sobre a cadeira, e aí foi que percebi que estava menstruada, pois ela usava uma calça apertada, e com a qual pude perceber pelo volume que fez em seu ventre, o tal absorvente.

Fora o detalhe que freqüentemente ia ao banheiro, creio que para trocar o dito cujo. Deduzi que ela tivesse grande fluxo de sangue a sair por entre suas pernas, mas pensei, Ora, tudo bem, toda mulher menstrua. Mas o fato é que se me pedisse agora para descrever seu rosto, eu não conseguiria, daquele dia em diante, deixei de lado a facinação que sentia por ela em si, rosto, bunda, peitos, qual o quê!, e passei a prestar atenção no volume do seu ventre, que aumentava conforme chegávamos mais ou menos no dia dezessete de cada mês, raramente passava disto. E para mim, que já tive mulheres em minha cama de toda maneira, achava um mistério elas sentirem nojo de seu próprio sangue. Elas achavam um absurdo que eu quisesse trepar com elas Naqueles dias, ou, Neste estado.

Mas o fato é o que mistério que me envolveu por estes dias a vagina da estagiária, me deixou comovido a ponto de me pegar chorando pelos cantos da casa por não poder apalpá-la. Meus amigos riam de mim, e achavam que tudo devia-se ao meu bom humor habitual. Mas desesperado eu estava.

- Vai tomar no cu, Aurélio. Como é que tu, homem feito fica chorando por mulher. Logo tu, o papão das meninas, o comilão, o patuazão daquele escritório? Cria vergonha, seu arrombado.

- Não é ela, Fred. É o absorvente dela. É o mais próximo que eu vou chegar da xoxota dela, manja? A mina é toda grã-fina, toda cheia de não-me-toques...

- Caralho, tu é nojento meu irmão. Vá se foder, viu... Tocar uma bronha não adianta pra esquecer essa nojeira?

- Não, eu não consigo, e desatei a chorar em cima da mesa; Fred me levantou pela gola da camisa e me deu uma bifa, mandou que eu tomasse vergonha na cara, e me disse,

- Homem que é homem não chora por isso não, porra! Vai te lavar, seu merda! Emporcalha todo o tira-gosto, o puto! O Fred não entenderia. É casado. Pra ele, tanto fazia a esposa dele, a Lídia, estar menstruada ou não. Todo dia era dia de trepar com ela e com outras. E ela, uma ninfomaníaca do caralho, não negava fogo nunca.

Fred era um homem de sorte.

Foi no outro dia seguido de uma bebedeira que pedi para a zeladora me conseguir um absorvente dela. A mulher se sentiu ofendida, e conforme disse, deixei para lá, mas não de todo, pois cinco minutos depois eu já estava atrás dela novamente a pedir que ela conseguisse o tal. Ela se deu por quase vencida e me perguntou então, O que é que tu vai fazer com uma porra de absorvente, Aurélio?, lhe respondi que sinceramente eu não sabia, mas o fato é que se ela não o conseguisse eu iria ter que invadir o banheiro feminino e perderia o emprego por culpa dela. Ela se irritou comigo, mas enfim disse que Sim, porra, contanto que eu a deixasse em paz e não lhe dirigisse mais a palavra. Fiz uma cena, lhe disse que aí seria demais, mas acabou que ela disse que iria ver. Mas eu deixaria de falar com ela sem problemas, se para isso fosse necessário ter em mãos o que eu tanto queria.

No dia seguinte, uma terça-feira, era quinze. Eu não aguentava mais esperar pelo dia dezessete, e quando a quarta-feira chegou, era dezesseis, achei que fosse o dia, pois ela estava freqüentemente indo ao banheiro, voltava com uma cara de nojo, passava o braço na boca, e de minuto em minuto ia novamente ao banheiro, fazia a mesma cara, e antes mesmo que pudesse chegar ao meio do escritório, voltava para o banheiro.

Perguntei a zeladora se já não teria chegado o dia, mas ela fez que não com a cabeça e disse que nem sinal de absorvente nas lixeiras do banheiro. Eu já roía todas as unhas, quando finalmente chegava o dia dezessete, e eu já não dormia mais, pensando na possibilidade de no dia seguinte ter o seu absorvente em mãos, com o sangue de seu útero, ali, pertinho de mim, onde teria encostado sua calcinha, e claro, sua vagina, saberia mesmo se ela tivesse pêlos sobrepostos, pois neles sempre ficam os pêlos do pubis, ou se ela os raspava. Eu sinceramente não sabia o que fazer: se cheirava, se o lambia, comia, se punha nos olhos, se lavaria meu rosto nele, ou guardaria de souvenir numa gaveta de minha casa... Mas então foi que todos reunidos na repartição, a comemorar, todos os funcionários batendo palmas, dando-lhes as mãos e os parabéns e o chefe de braço dado com ela, a estagiária, que estava com um sorriso amarelo.

A zeladora na porta, e eu perguntei, O que houve? Ela menstruou?, não sei em que ordem estas perguntas vieram, mas o fato é que ela me deu a resposta de ambas as perguntas em uma única frase que me soou mais dolorosa que uma facada no peito, tal qual senti no fim do expediente, quando de tanto pensar na notícia que ela me disse abraçada com a vassoura,

- Ela está grávida.

(Uma homenagem descarada a Rubem Fonseca, por seu Secreções, Excreções e Desatinos. )

Infinito sem Nome

É na curva do horizonte
que se percebe
o quanto ainda
se pode ir mais longe.

E,a,p'