domingo, 10 de janeiro de 2016

bala(da) ao ex-amigo

(para um homem infantil)

há dias em que eu olho pra você,
meu ex-amigo,
e sinto pena --
pelas surras que o mundo há-de te dar --
e é pena que não fui eu a dar a primeira,
posto que antes de tudo
teu vitimismo se fez arma de suicida,
um tiro em tuas têmporas
estampido cego e surdo e seco.

mas cabe nestes versos dizer
que só o digo porque de tantos
(de ex-amigos)
dizer-te isto
é uma prova de que nunca poderei fazê-lo
friendo

e agradeço todas as noites por isso,
já que meu eu bruto truculento te fez sentir
arder uma ferida exposta de muitos anos
muitos anos antes d'eu te conhecer

é, meu amigo, antes de tudo, foste isso,
mas hoje é aquilo,
tudo é hoje
baseado em fatos reais.
tudo é hoje
baseado em fetos fecais,
tudo é hoje
baseado em fotos florais.

não é de se espantar que a vida seja tão generosa
para pessoas como você
que vivem a engatilhar o rifle da palavra
contra tantas cabeças
e o ricochete até então não ter se mostrado
suficientemente eficiente
para o olho do seu olho
olhe dentro de si,
para perceber, que por trás da barba feita
do rosto complacente
da quase idade de cristo
ainda sobra muito da poeira de onde vieste

e do canto que se fez ausente
eu lhe digo que crescer, até p'ra mim
que nunca soube o que é crescer
é o remédio mais saudável
para curar os males da alma,
ao invés de chorar tuas lágrimas
no ombro materno
como o filho único
que nunca antes havia conhecido o açoite
que é o que realmente falta
para que quando olhar-se no espelho
sentir vergonha
de vãs palavras jogadas aleatoriamente
de maneira a desfazer todos teus laços

(e já me aperreia a intimidade da segunda pessoa,
pela proximidade,
vou jogá-la para um pouco mais longe)

seus palavreados eu percebo daqui
serem medo de ser entregue
ou de descobrir
que o mundo não gira ao redor dele
e que as pessoas podem sequer se importar
com o ultraje
que é
importância
quando o que importa
é que nada importa realmente.

quantas vezes presenciou
da voz dele antes reles
antes vil
a manobra do tempo
a curva fechada
forçada
como uma queda
direto
pro abismo da solidão.

1 comentários:

M. Cristaldo disse...

E quem nunca perdeu um amigo? Pior mesmo quando é o amigo que se perde...

Fortíssimo seu poema!

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