segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sad & Beautiful World

Rim Lee

A maré das coisas nos torna vulnerável, ou o contrário, às dores. 
Faz um tempo já decidi que não as iria mais sentir, e comecei a regredir alguns anos de minha (suposta) vida para voltar ao início, deitado em minha cama, fetal, às tantas da madrugada, e dia seguinte, acordar, ainda cheio do líquido viscoso da placenta, e cuidar de fazer daquele dia o primeiro dia da vida, sentir os primeiros ares, saber onde os ares são mais amenos, mais rarefeitos, onde bate forte o sol, saber que ele por muito tempo a deitar sobre a pele pode fazer mal apesar do belo espetáculo de vê-lo nascer. O sol nasce todos os dias. Nasce. E renasce. 
Assim, minha pele vai cuidando de adaptar-se aos seus raios, aos seus melhores dias. Os dias que nem sempre são bons – na verdade, a maioria é bastante ruim depois que toca o meio-dia – mas ainda assim divago nos divagares do meu monólogo particular. 
No intento de melhorar os pontos que se inconformam de permanecerem distantes – a vida se torna simples (como um círculo) àqueles que não se interessam por saber um pouco mais do que há por dentro da grande massa que nos revolve à tal maré... 
Nas mesmas poucas vezes em que me dispus a nadar contra a corrente das coisas, acabei por me defrontar com o poder abissal do mar – estar sobre a água, flutuar por algumas horas sobre, é o não ter medo de olhar para debaixo dos pés, ver o infinito se extinguir debaixo dos, and its a sad and beautiful world. Sussurrar isto ao pé do ouvido às minhas manhãs vai fazer com que eu vá aprendendo dia após dia em meus renasceres que nada vale a pena enquanto não nos tornamos cada dia um pouco mais surdos, mudos e cegos – ignorantes, insensíveis e indiferentes às pedradas que diariamente teimam em chover (à quem elas teimam eu não sei, apenas acontecem... entender é um começo).
It’s a sad and beautiful world.
E foi por isso que eu decidi naquele dia ir à praia. Fui ver até onde se deitaria o sol. O mar até tinha força de me entristecer, mas... eu ainda lutava, enquanto engolia água por todos esses anos que passei sem ter tempo de cuidar dos meus rins. Eles não agradecem, não podem e a porta vai se fechando a cada dia enquanto eu calado em renascenças ainda não aprendi a falar.
... e nem pretendo.

eap

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ensaio sobre escorpião I


que há demais em se mostrar pequena parte do meu todo? quando de repente notar, já terei partido numa bela bad trip, que há de me tragar, estrada adentro, sem sentido. quando eu for poeta, aí sim, eu poderei me dar por inteiro a tudo, mas enquanto não, eu vou me doando à conta-gotas, cuidando de ser ator de mim mesmo, cuidando de lapidar minha pele, meus dedos, minha voz, meus sentires e cantares. eu todo moldado na mentira que criei pra mim – mas mentira de poeta é arte, entretanto ainda não sou o poeta que almejo, nunca fui nem nunca serei – sou só a parte que me resta do meu próprio latifúndio, arando a mim mesmo a terra seca, descampando meu peito, descampada a minha história, meus retratos, porta retratos. tudo o que eu construí. eu vou fechar esta porta, eu vou trancá-la, vou passar a chave. nada entra, nada sai, eu estarei longe de tudo, mas perto de qualquer coisa. poderia até complicar mais, talvez abraçar alguém, confundir o nexo, retroceder dois passos, sorrir, dizer que sim, que não, que sim-e-não, e então sair de encontro ao acaso. eu encontro lá o ombro, o cheiro, os lábios semicerrados à minha espera, toco-os com os dedos e ganho tanto quanto perco, me refestelo no meu próprio cansaço, sorridente, e o cigarro sempre acaba quando mais se necessita, o copo sempre esvazia. o resto é consequência.

eap

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

apenas...


para Caroline Andrade
(incomum semelhança)

amar mais...
amar menos...
amar demais,
amar, a menos
que se se ame mais
aos seus amenos
distúrbios sazonais,
que farão claras
as noites serenas
a menos, claro,
que se ame (apenas).

eap

Passagem (I, II, III)


I

é bem assim que me reconheço,
desfazendo meus cantares --
de toda forma que me conheço
eu me refaço em desamares.

é bem assim que me refaço
me arrefeço nos mazelares,
de todo espírito impuro e meigo
que me invade nos calares.

é bem assim, que em mil colares,
colando verso após verso
que no distinguir de teus olhares
vou me desfazendo em gestos.

II

é bem à noite que me canso
de toda a euforia branda
que me revolve os olhos
e me sensibilizo à dança.

acendo meu cigarro guardado
a sete chaves na gaveta...
me esqueci do quanto era gente
antes de ser gente inteira...

levo de leve a leveza que me acalma
entretanto não suspiro breve,
tusso e ponho fora a minha calma
anuncio-me em mil olhos acesos,

qual brasa do lume,
hoje, eu me tanto faço quanto me fiz,
só ponho a cabeça cansada
e cuido de ser feliz.

buscando meu só,
buscando ser só,
buscando só
solitude/solidão.

III

vou calado, calcando o pé no meu cansaço
buscar a verídica parte que me falta,
que me dói e tem doído.
não encontro ninguém, nem nada,
apenas na calada noite
essa noite que se fez lenta
a face obscura de um poema,
onde o nadatudo de minha vida
se fez sólido no fundo do copo que bebia.
eu vou, natimorto, buscando levar
meu eu só no verso de me buscar,
e drummond bem sabe, quando me diz
da vastidão das coisas... o mundo é vasto
e me devasta.

eap

sábado, 20 de outubro de 2012

distante

para juliana franco
(saiu quase sem querer)

viajarei:
e te veria,
te verão,
te invernava,
outonava minhas folhas
sem versos
e, em primeiro,
dormiria
primaveras
do teu lado -
cheira já antes no ar
qualquer coisa de lisergia
esse nosso
quase encontro.

eap

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

versos íntimos iii


isto é sobre amor
isto é sobre poesia

mais que te tenha renegado
em prol da prosa
por tantos motivos,
sabe lá deus, que é isso:
essa vontade - a batalha
vencida contra o papel
assustadoramente
branco.
essa surdez absoluta do senso
de tudo e de tanto, digo:
verso, penso, reflito.
cansa essa palavra, busco outra,
chamo todo meu vocabulário,
sacrifico meus irmãos
em prol de minha desgraça
como escrevente desses versos
só me permito ser
teu pai, tua mãe, teu amante
teu professor e aprendiz - saudade
de ser algo em tua vida
amargo os dias que passo distante
a te rejeitar... embora me venhas,
na mente minto:
eu te repudio, orgulhoso,
não te nego amor nenhum,
embora bem saiba
que, como todas,
me rejeitas, me esfria, me joga de canto
(talvez o segredo de me ter nas mãos
talvez o segredo de me mostrar
sem máscara nenhuma - ódio de amor,
amor pelo ódio, odiar amar tanto - tudo não passa
de uma ilusão - meus versos, minha tinta
meus dias, meus dias)
te busco na cidade,
te busco cansado,
te dedilho,
te surro,
te faço gargalhar,
sinto até teu cheiro,
enquanto me acompanhas
andando pelo centro da cidade -
sou o tumor que em mim mesmo fede.
sou a gana de me ter pelos dedos,
rabiscar tua pele sem senso,
tatuar nela meu nome e apagar
só para ter o gosto de reescrevê-la
e te ferir, ferindo-me, sem saber...
o vácuo que me apetece,
é ele quem me afaga a noite,
é ele quem me acalenta o dia,
é ele quem me dá a certeza de que estou certo
sobre todas as pessoas.
versos íntimos cheiram a sangue,
mas não são nada - um mero teatro
protagonizado por aqueles que não sabem viver.

eap

terça-feira, 2 de outubro de 2012

sobretudo, sobre logo

tenho que dizer que não tenho medo do dia que me sairdes porta afora – esta porta está aberta. como diz aí certa canção, quem deixa ir, tem pra sempre. mas, pulos, meu destino é traçado a cada instante ouço bem o que me dizem sobre ele, ouço bem até o que não me dizem. prefiro que saibas que de nada em mim te admira saber do sol, desses iluminares, dessa cidade, fortaleza até me admira se sustentar sob o sol, à beira mar mas me admira muito mais o jeito como sabe vivê-la (uma arte – sacudir a poeira, levantar-se e ir) em dobrar suas esquinas – em se perder quase sempre é nas ruas que eu encontro o copo meio vazio e cheio das coisas – as janelas me aparecem sempre abertas mesmo fechadas (até enxergo peças de peles pelas transparências). um meu raio de sol que se põe sagrado e profano, meio-dia, meio-meu (aprendi a beleza de se escrever o eu) mas, ainda contorno essas coisas (não usava coisa mas aí, quando me vi vazio, decidi abrir exceção e como dizem por aí, não há exceção sem regra, e não há regra sem exceção) sei que não sei, mas pergunto, por ti, a ti, até assoo o nariz mas, nada me faz tão feliz quanto saber que posso dizer o que bem queira, na métrica que eu decidi, que ninguém me fará parar – podem até não gostar, podem sim, podem apontar-me o dedo na cara, como já o fizeram, mas eu não vou parar... mesmo que eu mesmo o queira.

não é cisma nem birra, é uma doença.

eap

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

na real


fui lá e digo: me arrependo; aliás, arrependo não ter ido antes. disse que quis porque acreditava em mim, ela não, por ser mulher, por estar me amando demais, entende? pensei tanto sobre, mas não pude deixar isso passar:
considerei outras, entende?
quê? grande éfe dê pê você é, desgraçado.
mas...
ah, vá pra pê que pê. vá se fudê.
poderia entender?... que dizer a verdade seria dar a corda. não quis. preferi que odiasse. sei lá... amar é uma viagem besta. repente você tá no alto, amando, desse lado, por outro também, até que um, sei lá, repente acorda... foi assim.
tal noite invadiu meu quarto com um revólver deu três tiros no meu pau. fugiu, nem registrei queixa nem nada. merecesse, mas gritei tão alto, e disse tudo naquele fluxo de ódio. muito até, disse além das gotículas mínimas. daí saiu chorando. achei que fosse se matar com as outras três balas – e na real, não foi assim.
hoje casada... isso faz, sei lá, dez anos. me visitou dia desses, trouxe lírios, parecia outra. conheci seu marido e seus filhos – duas crianças lindas.
ainda bem que detesto crianças.

eap

amor mínimo

porquê volta, nunca perguntei; sabia felicidade d’em mesma cama tê-la, compartilhar desordem natural – essa perfeição dos dias.
madrugada passou, brigamos, xingamo-nos, ligo ligo ligo – o tal do tu-tu-tu insistente.
mês depois, volta, nada tivesse acontecido, beija absurdos, agarro-a, nada digo, fosse assim a mãe – amo-lhe assim: ganhando por perder a cada dia.

eap

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

sonho

um dia, acordou, olhou-se no espelho, fez a barba, foi trabalhar, o carro emperrou, resolveu ir andando, foi assaltado, chegou no trabalho atrasado e sujo, foi demitido, voltou para casa, a conta do reboque, a carta da esposa: vou te deixar, rômulo me ama, levou os filhos, tevê às nove, o time, eterno perdedor, terceira divisão, sorriu, se embriagou da cerveja vencida, escreveu uma carta, ligou pra mãe, ninguém atende, com uma cadeira e uma corda vai à cozinha, amarra-a bem junto à madeira do teto, o salto no vácuo, o crack absurdo: a corda quebrou, caiu sobre a cadeira, fraturou a espinha dorsal.
e hoje, josé é tetraplégico.

eap

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

avec toi, juste la paix


às vezes eu só quero descansar, te quero lar, te quero ar, sem ter tempo de me cansar e se eu me cansar – e se eu cansar – acordo à tarde (contigo é sempre um pouco mais tarde), te tomo a mão, e aí então quem sabe a gente pode rir dos projetos de frases dos nossos disfarces, das coisas fáceis da vida, dos meus enfadonhos ‘enfins’. é que às vezes eu só quero descansar, te querer lar, te querer lá um pouco menos e mais aqui porque pra mim me agrada de contigo dividir o mesmo ar assim eu fico um pouco mais em casa, que essa cidade me tira o fôlego e o som é todo o tudo – esse nada sou eu – apago a luz e aí então é o caos calmo do teu silêncio.

eap

sábado, 15 de setembro de 2012


quanto mais me descubro menos me gosto, menos vontade de me ser sinto.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

canção do vento

vento vai, pra longe me leva, sim
que eu tenho aqui, qualquer vazio
enfim.

vento vai, pra longe me leva, mar
que assim que der, eu vou lá
voltar.

que só de imaginar, meu bem querer
a vida de bandeira, se espraiar,
me dá saudade tanta te ver,
saudade assim não dá...

vento vai, pra longe me leva, viu
que eu já não sei voltar sem mais
sou vil

vento, pra longe me leva, ah s'eu
me afoito de chegar, é que no fim
se deu

de estarmos na beira mar, querer
saber do sol, que é só teu, sem dó
de tua pele se amorenar, ah, morena,
que é disso só que eu faço meu
compasso de dança...

vento vai, pra longe me leva, meu
coração que só quer paz, de tanto
ser teu

vento vai, pra longe me levará,
assim, que eu souber pronde ir
eu vou seguir
caminho só
de chegar
sempre andando
no quebra mar.

eap

domingo, 9 de setembro de 2012

carinhoso


até que um dia me casei. sei que não é a melhor coisa do mundo, sempre soube, mas no fundo estava escrito que no momento em que ela me perguntasse que sim eu jamais lhe iria dizer que não. mas pensando assim, vou me guiando de achar que sou um crápula, que não gosto realmente dela, o que não é verdade – mas como posso ter essa certeza? e se realmente não gostar dela a ponto de não poder ir adiante nessa escolha? que mal há, pergunta a mim minha cabeça, em se admitir para si que não há amor aí? não atinei para isso, e, pensando bem, eu deveria me ter questionado disso antes, mas, tantas coisas, que sequer sei de meu amor próprio. sentado aqui vendo-a se trocar, pôr vestidos na minha frente, andando de calcinha e sutiã pelo quarto como se eu fosse seu irmão, seu amigo gay, sinto que chegamos a tal ponto de nossa intimidade que o pudor sumiu. rememorando e remoendo os três anos sete meses e dois dias que namoramos lembro de tudo, de suas vergonhas como quando começamos a acariciarmo-nos, dessas línguas loucas de primeiras semanas, que se transformam nos beijos fugazes de lábios secos, dessas mãos que insistem em encontrar a carne viva do lado de dentro, para depois manterem-se longe, essas mãos, andando os dois no meio do shopping, no teatro e no café, dessa vontade de se ver juntos dentro de um quarto, dentro de uma intimidade que parece nunca vir, quando acontece, se quer e se quer e se quer, até que, a intimidade obtida, tudo se tornou para ela chato, inclusive o sexo, ela me olha assim como quem quer fazer outras coisas – e, demorei a ver que às vezes as mulheres querem muito mais que isso, e é por isso que ela me olhava daquele jeito, jeito de quem me pergunta por que cê não sente um pouco mais do meu silêncio, da minha cor, dos meus olhos, do meu cheiro, de longe – no fundo elas amam ser amadas, ser desejadas, sexualmente, sim, mas, mais que isso, um desejo de se tê-las, platônicas, atônitas, agônicas e lacônicas e, aprender isso, para um homem, que nada mais é que um bicho, é trabalho árduo – tenho amigos que sei que nunca irão aprender a ser assim, não sei quem de nós mais errado. ela tem um sorriso em me perguntar qual o vestido mais bonito, sorri mais ainda quando opino, ela se veste, gira bailarina na frente do espelho, me olha por baixo dos cabelos avoados sobre seus olhos levemente escurecidos, eu, sentado como estou, quedante o óculos da minha cara, fico pasmo, nesse instante com a beleza dela, ela pergunta que é?, nada, vira-se e vai ao encontro do guarda-roupas se trocar, não, não o quê?, não se troque, por que?, porque cê tá linda daqui, ela enrubesce, e como enrubesce?, não sei, depois de tanto tempo (alguns anos, isso não lhes direi), levanto, vou até ela, tomo da sua cintura, não lhe beijo, sinto sua respiração perto, e o sorriso bobo, que é que cê tem hoje?, nada, cê bebeu?, não, deito-a na cama, deito-me ao seu lado, ponho de canto só os sapatos, ela se apressa em desabotoar o vestido, e eu digo não, oi?, não, não tira, ela fica sem entender, então tomo de sua mão gelada, ponho-a sobre meus ombros, tiro os óculos, abraço-a, fecho os olhos, ela fria, sua pele, e eu quente, então ela diz que não lembrava do quanto minha pele era quente, e eu não lembrava do quanto teu ombro é macio. eram por volta das nove da noite, o som dos carros na janela chegavam e iam diminuindo, até o quase silêncio, apenas seus dedos encaracolando meus cabelos era audível. madrugada ela me diz silenciosa, cicia, eu senti tanto a tua falta.

eap

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

rascunho de samba 1


é porque sou triste
que essa canção existe,
é por estas e outras
que não são aquelas. Roupas
que vesti, cansado de esperar
pelo verso mais perfeito
pela face se pintar.
minha casa, fui eu quem criei
com a tinta do sonho. e enfeitei
de adornos-mil
com verduras e verdades,
talvez, vil, mas, foi
só pra te agradar.
bem-vinda, ó, benvinda...
se não sou samba, sou tristeza
e há quem diga, com certeza
que estarei a me enfeitar
de adornos-mil
só pra te agradar...

eap

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

produção

sem produção.
sem produtos
sem ação.

sem salário.
sem sal
sem alho
sem motivo vário.

sem razão.
sem raça
sem reação.

sem teto.
sem ter
sem afeto.

sem condição.
sem conformidade
sem diferenças
sem posição.

sem vida.
sem vir
sem partida.

sem poesia.
sem pó
sem heresia.

sem amor.
sem ar
sem dor.

sem piedade.
sem pio
sem idade
sem idoneidade.

sem cem,
sem Ser
sem.

eap

terça-feira, 28 de agosto de 2012

importa saber que


eu que digo não me importar 
me importo mais 
que as pessoas que se importam.

eap

Sem nome nº 08


e se eu quiser fazer pior
um inferno,
encho-o de céu.

eap

Sem nome nº 07


meu tempo
é o tempo das coisas.

o que não remonto
desconto em versos,
e, meus trocados eu distribuo
entre as partes indecisas
de todos os meus dias
que procuram, cansados,
desconto deste tempo,
que não é o meu -- mas o chamo
reclamo clamo amo
todos os dias, a cada ano.

meu tempo
é o tempo das incertezas esperadas
chamadas desesperadas.

eap

domingo, 26 de agosto de 2012

a outra (ou luto)


cubro teus pés de rosas e me dou lastimada de lembranças, você era sempre você, mesmo quando me chegava e me era, e me errava. cê só me errava, me punha certa, errada. hoje que tenho mais que fazer? pudesse te despertar, como, alimento meu alimentador, como comer-te assim? sou órfã de ti, dos teus entrepernas, meus teus entrepernas, da líquida calda que nos punha fáceis frágeis ágeis à parte de toda lentidão do mundo. te choro com os dedos, com as mãos, com os olhos fitos no teto, suspirados suspensos suados. hoje cubro teus pés de flores e terra, teu rosto mais fundo mais fundo que o poço do quintal, no qual me pus a jogar moedas, desejando até o fim voltar a faca cravada no teu peito. hoje ter-te tem sido teste destes detestáveis de se ter temor, trago-te de volta e no cigarro te trago, te sorvo, te tomo dos copos de cachaça até cair e me te esquecer. filho da puta. pra quê morrer? pra quê? se eu tanto te quis? as tais flores já vão várias, e não posso muito te dar atenção, os pretinhos vão andando calmamente, vou mais à tarde atrás, de branco.

eap

sábado, 25 de agosto de 2012

gozo


tive duas vidas. basicamente. quando menos esperei, era outra, não uma. tive ímpetos de me jogar no chão e espernear. babei todo o carpete da sala e mordi meus próprios dentes. ai, que era de minha sala de estar. minha mão, aturdida, me tomou no braço, e chorarão os olhos. desliguei aquele botãozinho de rosa dentro de mim, e sentei na sala, cansado, perguntando, suado “deus, que é de mim?”. ela tinha dois dentes inteiros (não só), quase nunca falava, mas balbuciou que “meu meu amor” e eu pude viver para morrer de novo. meu coração só sabia de cor meus batimentos – sentimento além deste sempre soube: era exagero, como aquele amor repentino e desesperado. o formol entrou gostoso no meu nariz, aí foi. na hora do caixão aberto, vi os dois dentes beijar minha testa, meu filho meu amor meu filho meu amor. tivesse dó de me morder, arrancada a língua, enterrada num mar de areia, seria feliz de estar inerte debaixo da terra. lalinha, segurando meu pai, queria que fosse verdade, não fosse minha mão, estava fodido. acendi um cigarro e fui escrever.

eap

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

a um achado II

para raquel rodrigues que
por ser perdida de mim,
cada dia mais achado

eu cobro abraços de quem eu tenho vontade de abraçar
de quem me ensinou a não preconceituar o abraço
de quem me ensinou que, às vezes, um abraço bem dado
vale mais que mil e doze beijos lambuzados de crua libido.
eu cobro teus abraços e tanto mais de teus sorrisos,
por deles, às vezes, me encontrar da maneira como gostaria de ser.
(acho, inclusive, injusto que te entristeças, sendo o que és
e é que és de tanto e tão muito que de te maltratar, me engradeço
-- e, que dor é essa que nos pomos a moer?
sempre se tem uma dor a latejar no peito,
no fundo, todo mundo é triste, eu já te dizia isso
naquelas noites de espera, sob a lua -- uma saudade me comove agora
desfaçamos o parêntese).
mas não te surpreendas, se um dia chegar e sumir por uns tempos
é que, às vezes, é preciso continuar a busca
e, às vezes, é preciso continuar se perdendo
para se ser achado -- qual tu me foste naqueles dias tristes e solitários
de tanta conversa besta, meu deus, de tanta efemeridade...
qual tu ainda hoje me és, contanto que eu te procure
(e cuide de se fazer esquecida -- vão dar por ti linda e magnífica
como és).

eap

sábado, 11 de agosto de 2012

fez-se mar, como dizia marcelo


era de cansaço que era feito o momento – alguém falava’lgo, tinha certeza que sim. cabeceava de sono, só me mantinha acordado a obrigação desobrigada de esquentá-la daquele frio crepuscular de beira-mar. ao longe um zé povinho gritava, cantava, apascentava-se em mim, porém, tranquila e calma, uma morredoura vontade de silenciar – eu precisava falar, mas... o nascer do sol falava mais alto, o vento, o cansaço; longe eu vi seus primeiríssimos raios. ela se refestelava em mim, calor nenhum quase, que me resfriava todo – se desfazia em moleza de cansaço, fazia-se mar, espraiando-se por sobre a areia. por trás das nuvens vinha ele, forte, nem tanto, mas, cansado também. os tais olhos observavam tudo, eu os observava. sei só que suas pernas esticavam doloridas, a fim de afundar os pés na areia macia e fria (suas ondas e marés) – dirá alguém que isso é natural, mas eu não posso esquecer. eu não consigo esquecer.

eap

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

poema à palavra sonhada

essa palavra que alucina, dissemina
sem dó nem piedade, afaga e cumina
numa ideia: ei-la, não mais que ela
é quem quero para suplantar
a dor de toda existência miserável
de toda dúvida e de toda certeza;

essa palavra navalha, essa faca cega,
bisturi enferrujado que insiste penetrar
que insiste penetrar que insiste penetrar,
dilacerar os tecidos da epiderme 
e da derme -- chegará onde quer
fitará o que quiser, e dirá o que quiser
e nos olhos revirados de prazer,
saberá que vai certa e insistirá -- penetrando.

palavra que descerá amarga garganta adentro
(não adianta mastigá-la - 
só espalhar-se-á seu amargor)
fará rasgar a pele e o nervo do esôfago
encostará no líquido biliar do estômago

(regurgitará todas essas palavras, 
a azia queimando
na boca do estômago, 
como vômito e vômito comido)

e fará mal, fará mal, fará mal
como se desejaria que a calda de candura
do mais doce licor descesse,
e, inflamada, e líquida, 
descerá como pedra de fogo,
dilacerando a uretra em pus,
e sólida, jamais descerá, 
sempre desejando voltar.

essa palavra na veia, 
correndo de cima a baixo
e queimando fugaz e esfriando inerte
meus olhos, minhas pálpebras -- 
então distancia as coisas
e aproxima do que se quer 
(esse o nada o tudo da vida)
vai-se por dentro, pico no cérebro
no lombo frontal, agulha no olho
farpa debaixo da unha, que outrora
foi enfiada na carne do coração e 
lambida pela língua aberta.

eis a palavra que quero disseminar.

eap

terça-feira, 7 de agosto de 2012

dos olhos dela nº 01

ela me tem pelos olhos
e me tendo pelos seus
faz lá o que quiser dos meus.

ela me tem pelos olhos
e preciso correr agora,
saber onde vão
(eles estão sempre fugindo)
segurá-los pela mão
adocicar um pouco suas bocas,
as bocas dos olhos,
deitá-los numa cama macia
banhá-los de mar de saliva
e enxugá-los com o hálito quente
de minha boca.

ela me tem pelos olhos,
e tenho que saber deles
bem mais que deles
sou refém.

eap

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

francisco

francisco trabalha numa fábrica.
francisco surdo dos zzzzzzzummmmmmbidos, e os gritos do patrão -- de praxe.
de olhos ardidos, das faíscas, no final das contas era o que menos doía em francisco cego.
das sete às cinco, francisco morto.
pelo amor de... um dia desses, francisco demitido.
-- corte etc.
à procura: nada encontra.
francisco dum filho e duma esposa magros.
faminto francisco e os seus -- há dois meses com fome.
a criança chora todas as noites e francisco não pode dormir.
francisco fuma um de outros cigarro noutro -- até a esponjinha da guimba --
o desespero queimando a ponta do dedo.
resoluto desce a rua, tal vagabundo -- troca por uma arma a tevê.
francisco cansado, à noite, a cabeça no travesseiro, espera todos dormirem.
(eu chorei por francisco)
olha para a esposa (esposa de francisco; mãe de seu filho)
o travesseiro no rosto, esse baque seco.
no berço, chora seu filho, um tiro no tórax -- a criança pára de chorar.
três minutos de francisco.
até dar-se conta: deus, que fiz?!
a bala de francisco -- o terceiro baque na cabeça.
francisco, esse homem. acertou a cabeça,
mas não morreu -- francisco vive, sua cabeça olhando a coisa sangue no chão do quarto escuro, mas, vive
(e todas as noites, antes de dormir eu penso na cabeça de francisco).

livremente inspirado em 
"Frankie Teardrop" por Suicide


eap

sábado, 28 de julho de 2012

Tarde

Ha um silêncio que envolve, sabido, a cada encontro. Mas, prefere-se -- daí se observa, vê-se para que lado olha o olhar, que foge -- aí a busca, num abraço, pra se trazer de volta, e diz-se, ou não; nada, e envolve-se todo num abraço, cheiro que sufoca, até de se fechar os olhos. Não entendo não. Fica abobalhado em casa, refilma tudo de novo na cabeça (acrescenta-se pontos, retiram-se outros) daí o momento fica o dito pelo não dito, ou, às vezes nem isso: às vezes nem precisa; só fechados os olhos. Daí, a pele macia, o cheiro tranquilo de maracujá. O corpo doce doce de se apertar com força -- de se encher as mãos e mastigar suculento. Essa coisa que faz esquecer, ah, deus, sabe lá quanta reclamação. Sabe lá quanto lamento da vida. A vida cria graça até pela tarde que se desfaz silenciosa nisso e noutros silêncios de se deixar o corpo amolecido. Despedir-se é sempre triste, pero, volta-se as costas, reluta reluta reluta, mas não consegue, vira, os olhares batem-se e dão o bobíssimo e terno adeus.

eap

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sem nome nº 11

tu me interessas mais
que o meu caderno --
e no teu corpo quero
escrever meu próximo
e definitivo poema:

marcado a dentes
que mastigarão teu cheiro
e saberão de cor,
o contorno de teu cabelo,
e de tua cintura.

ah, morena,
saudade é um veneno
que só mata quando quero.

eap

sentimento do mundo

encontro mais gosto pelas coisas
que pelas pessoas -- 
mas só porque tenho raiva. 

e tenho raiva porque tenho carinho, 
e tenho carinho por dele precisar 
para me sentir bem 
e no final das contas, 
eu nem sei se realmente quero me sentir bem, 
eu não sei se quero receber 
ou dar carinho, 

eu não sinto tanta raiva quanto supunha 
e as pessoas, acabam, por assim dizer, 
me sendo indiferentes. 
no final das contas, 
o que importa sou eu, 
meus livros, 
minhas músicas, 
minhas ideias, 
minha poesia, 
meu gato rataplã 
e minha cama -- 
todo o resto é acessório -- 

te uso para me confessar x, 
te uso para te rezar y, 
te uso para te chamar 
de mãe ou irmã ou puta z, 
mas, eu lembro de tudo, 
eu lembro de todos, 
mas que raiva sinto.
sinto mais ou menos que raiva: 
não sinto nada.

eap

domingo, 22 de julho de 2012

ácaros

embebedei-me olhando a janela do apartamento. era um dia de julho. sentava e escrevia um poema. o poema era bobo -- bobos eram os meus sentimentos, bobas eram as coisas que me inspiravam. olhava constantemente para o celular, esperando uma sms, uma ligação -- até debaixo da porta olhava, repente, um bilhete invadindo minha sala -- who knows? na janela, aquela estátua de pedra sabão me olhava, e eu estava tão tonto. e eu estava tão sozinho. recobrava lucidez -- desviava o pensamento e ria no chão da minha sala de estar escura -- aquela luz azulada do poste iluminando pensamento bobo -- eu era tão bobo que sequer sabia viver, pensava. redobrava minha dor, rindo. o celular era uma pedra inútil de plástico e bateria de lítio. eu pensei e se eu tomasse lítio? cause i'm not ok, man. i'm fucked up. maybe no: just down, down down down...

aniversariei há alguns dias. me ligaram, me aplaudiram, me amaram por aquele dia -- mas só por aquele. dias depois esquecido -- ou fiz questão de me esquecer, saber das coisas me agradava, entretanto irritava-me terrivelmente a dor que me proporcionavam algumas realidades -- os choques de realidade. bebi um pouco mais -- sabia dos meus limites e deles já havia passado há tempos. mas sabia bem o que estava pretendendo. queria entorpecer meu corpo, deitado no chão atapetado da sala de estar. azulava a sala, e um pouco ao longe, alguém punha the end dos doors. empurrava meu nariz e minha cara inteira no tapete -- lembrei dos ácaros, que vi nos livros de ciências, sentia nojo, achava-os nocivos (como os polvos, as aranhas -- esses bichos com tantos braços, meu deus, e eu só queria dois para um abraço -- acho que aí se esconde o grande medo: essa solidão coletiva, todos a tem, mas poucos a expõem -- aqui, nem me quero ver), mas, fuck all, fuck fuck fuck all this bullshit. a cabeça zonzeava, três mil anos de história na minha cabeça. mais o acréscimo de uns milhões e tenho apenas vinte e três. lembro em super 8 das coisas, queimaduras brandas na tela. corri, caí, o desejo de ser ser ser. nunca soube. hoje mergulhar no grande mar de nada e nadar -- que grande objetivo! nunca aprendi a nadar e sempre sonhei no sonho que morria afogado. deus tem dessas ironias, ou será que só minha mente? o celular não toca. o telefone não toca. a tv me irrita profundamente, a internet me vicia -- três noites seguidas. tinha maconha há dois dias, mas acabou tudo. só restou essa vodca barata, aquela cachaça ruim. aquela que acabei. se a cabeça parasse de girar -- não, óh, não pare de girar! até fecharei os olhos para melhor sentir... woooooooooooooooow

penso nisso -- essa dor que evitamos, mas queremos -- quanto mais sentida, menos acúmulo dessa dor, será menos daqui a alguns dias. eu gosto da dor por isso. ela vem, mas, como vem vai e volta e uma vez a vi voar, ir embora. silenciou meu peito. a vodca acabou. a música atingiu seu ápice e apascentou-se novamente, jimbo já gritou e se acalma brando, como uma criança -- APOCALYPSE NOW -- grita a minha mente. queria parar de pensar. queria parar de querer. queria parar de querer parar. ao menos por hoje, não levantarei daqui, ficar aqui, não quero mais sair. vou me degredar por completo, até ser o pó deste tapete -- sê-lo, sim. alguém virá um dia, arrombará a porta, e, no pouco caso de minha ausência (darão por ela as minhas dívidas mensais), mandará varrer a casa para alugar (talvez seja minha irmã, meu tio, não sei), e, a empregada, aborrecida, me varrerá porta afora -- ou então me deixará escorrer para debaixo do tapete. thats all, darling... os ácaros me recebem com carinho, acariciam meu crânio, me beijam, envolvem-me num abraço a oito braços, despenteiam meu cabelo, e eu os amo -- abraço seus corpos roliços, nunca encontro meus braços nesse abraço que jamais fechará. hoje eu os amo. só por hoje -- e só por hoje  queria ser o motivo de um espirro seu.

> 3:15 P.M. -- sms: renove seus créditos. <

eap

bom dia

um velho estava esperando o ônibus no ponto -- suas vestes, essas coisas simples, o rosto, o rosto de gente velha. velhos velham, do verbo velhar (à la guimarães rosa). tal identificação me inspirou: seu cansaço de velho, seu jeito de velho, suas rugas de velho, seus olhos de velho, que tive que desejar bom dia para ele. desejei, mas desejei-o mentalmente -- me arrependo um pouco de não tê-lo dito em voz alta, mas... eu sequer desejo bom dia à minha mãe, sequer desejo bom dia para mim, sequer desejo bom dia. compaixão santa? pena? dó? nunca vou poder responder. ele simplesmente o era -- era a si mesmo, calado, ele, sentado, fechado. caminhei olhando-o, passei por ele assim.

ele sequer me olhou -- era velho, e tinha a força de um velho -- entretanto, eu, não consegui dobrar a esquina sem antes observá-lo entrar no primeiro ônibus, aí sim soltei a voz rouca, pesada (as primeiras palavras do dia): bom dia.

eap

quarta-feira, 18 de julho de 2012

-

eu vim ver o pôr do sol e me pus a pensar, que de tanto se pôr, o sol um dia vai se deitar e, afinal, não faria mal, se um dia ele esquecesse de acordar.

pra não dizer que não falei de mim

1991 pra cá, muito me contaram, mas a memória não falha:

- acostumou-me ela com me pedir desculpas depois de cada pancada que me dava -- por que, mãe? hoje, do mundo, espero que ele faça o mesmo. por isso palavrinha mata, por isso palavrinha penso e verso. nem tão ruim de todo.

- na frente, o retrovisor mostra: amor pela primeira vez, e desde quando esses sofreres? sei que dista tempo de nem ser gente. já quis ser o romeu da tv. usar com a bela, as segundas pessoas, galantes, mas, ruim das conjugações, trato-as de "tu" por força d'hábito.

- esses amores ainda me matam, mas não somente -- se digo que odeio a vida, é por amá-la demais, apenas não a virei do avesso ainda.

- de resto, descobri certas cores, sons. eles têm me salvado, algumas vozes, algumas palavras. as pessoas, apesar do pé o atrás com todas, também me encantam suas delícias, apaixonam-me. citaria nomes, não fosse comprometedor e piegas, além de, sem querer, esquecer-me de um, mas, pensei, e no fim todas as pessoas me aparecem necessárias -- posto que poucas. saberá que foi importante quem pensou que foi.

- por fim, reclamações 0 -- sequer do óbvio.

- e fim de papo.

eap

sábado, 14 de julho de 2012

rotina

nesses dias de tardes insólitas
a solidão à noite se faz maior.
e maior que a noite é a madrugada
que se estende longa e opaca,
intransponível lençol de estrelas
que não aquece nem esfria,
enquanto esquenta e, sublime,
transfigura-se em dia -- e, sol,
rasga à canto de galo a tranca
que destrincha os primeiros
feixes de luz, que despertam
o último insone às nove da manhã.

eap

quinta-feira, 12 de julho de 2012

além disso

a festa não era das minhas, mas eu nem sentia, que ela me era toda a sedução. o cabelo, suado, misturado ao olho fechado, o corpo cheio de requebres, ritmado, e eu, sabia de mim?, que era só olhar, e beber, fiquei ao seu lado, vi-a beijar outra garota, mas não vi, e ela me sorria quando me voltava o corpo, eu enlaçava sôfrego -- nos olhos, que brilho era aquele por trás da franja de cabelos castanhos molhada? o sorriso que enfeitava seu rosto, queimou-me -- os dentes, aqueles dentes, ainda hoje me tragam, quando penso. além disso, mil flashes de luzes vermelhas, azuis e verdes. sete mil fotos daquela noite e a ressaca do domingo.

eap

Sem nome nº 01

Eu a amo sem nunca tê-la visto. Mas, e daí?
Quantos homens precisariam para reconhecer
no fundo do quarto o silêncio de uma voz?
Quantos filósofos precisariam para reinventar
o mundo em sua ficção da vida novamente
mesmo sem nunca ter vivido sequer os vinte
por cento da ponta desse iceberg chamado viver?
É por isso que tenho dito: eu a amo sem nunca
tê-la visto, e nem por isso me envergonho, pois,
mais vergonha deveria ter o homem que nunca
amou uma mulher em segredo – até para si mesmo –
e da mulher que nunca terá o prazer de saber
o quanto eu tenho me acabado pelos seus andares
pelos seus cheiros, suas vozes, seu papo bom,
seu desjejum de manhã, o modo como acende  o cigarro
ou lê a revista Scientific American sem sentir culpa.
Triste dela, meu deus, e triste de mim, que jamais terei
o prazer de falar estas frases apetitosas e suculentas
bem no seu pé d’ouvido, bem assim, porque o prazer
seria mais meu, e eu ainda o diria dessa maneira,
porque pra ela, que tão linda, penso, que os homens, 
esses bichos de garras e pelos sedentos
– a baba do cachorro nervoso escorrendo no canino 
já devem cansá-la de dizer “nossa como você é linda”
“nossa como você caminha lindo”, “nossa como você
simplesmente existe”, "nossa como você vive" 
e eu teria o prazer de lhe dizer fartamente
com a boca cheia d’água, que eu te amei antes mesmo
que pudesses sonhar em sonhar o sonho que se projeta
na máquina dos sonhos dentro da cabeça do primeiro homem
porque sequer te tinha admirado o corpo, para poder saciar
minha vontade de tê-lo nas mãos e usar e ser usado por ele,
que sequer eu te tinha pensado em te fazer um filho;
quando um filho, na verdade, pensou em ser parido pelo mundo
eu já te desejava, mulher. Eu já te amava antes mesmo
de saber que existia amor, e quando dessas palavras vãs
que a maioria das pessoas estuda nas gramáticas e dicionários –
que antes de saber falar e de todas as línguas, 
eu já dizia que tinha amor
eu já dizia que dizer era pouco, e precisava agir mais.
Mas isso tudo ainda é pouco, para dizer que eu a amo antes de tê-la visto.
Falando assim, parece bobo, casto e até mesmo piegas,
mas, você, que se ri de mim, sabe lá que terá no peito?
sabe lá que trará na voz? Saberá lá se nunca pôde ter amor,
que amor é para poucos; amor é para ela, que sabe bolar um
como ninguém – como ela, e queria que ela me comesse vivo,
me comesse nu, sem vergonha. Que diante dela eu perderia
até o pudor de minhas partes pudendas, perderia o amargor
pelos dias perdidos de cerveja e gordura da carne de porco
farta no almoço e no churrasco de sábado, porque eu
caminhei nas horas, abobalhado, pensando nela,
trôpego no meio-fio e caí, na sarjeta, bebi daquel’água podre,
mas nem senti. O centro da cidade me parecia ter a boa lembrança
dos dias que nunca vivi com ela. Ela existe? Será que existe?
Os prédios me apontavam o céu e eu os negava,
como que para maldizer de deus, de toda a minha sorte,
de não tê-la na cozinha de minha casa, lavando as mãos
no sabão de pedra, e na pedra, talhar meu nome,
e na espuma, na bruma esparsa do sonho em que a fiz,
ela nunca me dizia eu te amo, e nós nunca nos pertencíamos.
Eu a amo antes de tê-la visto, mas isso é mero detalhe,
porque andando no centro da cidade, molhando o torrão
de açúcar no café, eu ainda a remonto, com extrema sensibilidade,
olhando a praça, seu relógio, o sol, no pico de meio-dia,
me mostrando todas as pernas das quais, jamais, nenhuma delas
será igual, nem tão mais fina, nem tão mais grossa
– uma batata, ó, deus, de se alimentar para o resto da vida 
o joelho, redondo, belo, liso, zeloso, com qualquer cicatriz
de uma queda da bicicleta, o cigarro, aos dezessete, semana passada,
ou quem sabe, há dezessete anos atrás.
Enquanto isso, eu ainda vou vivendo na puberdade de meus pensamentos
remontando sua graça, pelas cores de todas, pelas cores de muitas
nas vozes e leituras, na maneira do caminhar sobre o salto,
ou sobre a humilde e penitente sandália, dentro da qual, o pé
que nunca foi nem será beijado como eu o não beijaria,
porque eu a amo antes de tê-lo visto, e, sem tê-lo visto,
enxerguei-a por inteiro, na margem distante, de um verso qualquer.


eap

quarta-feira, 11 de julho de 2012

tão zé

cacá, esse cara, eu sabia que não devia beber -- desde os 16 o conheço. vi-o bêbado pela primeira vez, foi parar no hospital e a mãe dele culpou toda a rua debaixo.
aí todo mundo se afastou dele.
mas entrou de cabeça numa lambuja e se entregou, cuidou de refestelar-se todo nessa corja -- nunca entendi o motivo. alguns dizem que pirou, outros dizem que foi modismo, outros... outros só riem.
junkies só se misturam com outros junkies, é sabido. 
sei que o encontrei, cacá, aquele moleque magricela de óculos mais embaçados na hora do sufoco, na boca do lixo. sim, aquele lugar no centro da cidade, dentro dum apartamento imundo, emporcalhado de merda pelo chão, sangue espirrado no teto, e nos azulejos brancos da cozinha por causa dos que se picavam, e aquele cheiro insuportável de mijo por toda a casa.  
perguntei-lhe como ia, ele disse que "muito bem", e fiquei por entender essas palavras, mas cuidei de ficar bem e fui pra casa jantar.

eap

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sem nome nº 14

provas perdidas

eu te gosto tanto
que me dói,
que me adoeço,
que me dou um câncer,
que me entorpeço,
que me paraliso,
que me emudeço,
que nem pisco,
que me morro.
eu te gosto tanto
que não me reconheço.

eap

(25/04/2012)

Sem nome nº 03

ontem você disse que amanhã
e tudo ficou assim hoje.

eap

quinta-feira, 5 de julho de 2012

um salto

eu aceito qualquer hora dessas
me arriscar num salto,
mergulhado nessa euforia
desses dias de sol incessante,
no ô do precipício de sentimentos.
no final dele, meu coração ecoa
batendo forte até o, óh,
essa fonte tal que
do salto descubro -- eu procuro,
tateio cego, mas, me guio
pela voz dessa iara que ecoa
e chama pr'esse afogar-se.

eap

segunda-feira, 2 de julho de 2012

te adorar

estranho como começou
agora, vamos nos entregar
de corpo e alma -- ah...
quem te vê assim,
mal sabe o que esperar,
e eu que já te conheço, enfim,
já posso te adorar.

eap

domingo, 1 de julho de 2012

esse amor qu'eu quero ter

real imaginário

maria, 30, recém separada, foi deixada ainda com um pequeno feto dentro de si. amargurada, bebia, e dizia "um parasita dentro de mim", as amigas se escandalizavam. mas ela tinha certeza do que fazer, foi lá, médico x disse que tal remédio y era o mais indicado. então fez-se mar de sangue. dor de uma semana, achou que fosse morrer e que deus lhe havia castigado. acamada, olhava em derredor da casa tudo tão estranho, esses tais espectros da separação, maiores agora. dois calmantes, dois lorax por dia, aliviar as tensões.

passada semana, voltou à suas atividades de casa, então rotina na sua cabeça. fazer o almoço, errou a mão, esqueceu que josé, 43, não vinha almoçar, então chorou. foi dublada ou alguém se comprazia de sua dor muda? um choro de criança. mas, criança onde, deus? detrás do sofá, recuou de medo: um feto chorava, os olhos cheios de sangue lhe brilhavam no escuro do pequeno buraco, onde formigas lhe andavam pelo corpo.  o vômito do desgosto, a lágrima do descaso consigo. então deus sabia bem que era feito dela? uma semana nisso? viver abismada (buraco grande em seu peito). era isso? não era? dois lorax. fora atrás duma senhora, por causa irmã espírita, essa transa. a mulher sequer lhe conhecia, perguntou "dor de filho, hum?" não soube o que dizer. a mulher lhe disse "esse seu filho vai renascer. aquele mais apegado, seja o que seja ele, será ele." saiu sem chão, mas alentada. daquele dia, o afeto lhe crescia como um tumor, lhe sufocando toda, por toda demonstração de afeto de crianças ou entes, ou mesmo... seja o que seja.

e josé?

eap

sábado, 30 de junho de 2012

Doce Solidão -- Marcelo Camelo

Posso estar só
Mas sou de todo mundo.
Por eu ser só um
Ah nem, ah não, ah nem dá, ah
Solidão, foge que eu te encontro
Que eu já tenho asas...
Isso lá é bom?! 
Doce Solidão.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

imitação da vida

quando ele me ligou logo pensei, "carente. só me liga assim". mas, cê sabe a boba? a imbecil aqui? pois é. eu nunca soube dizer não até o dia em que ele finalmente me abandonou. sofri; relutei em admitir desde o fim até o sofrimento. o banheiro, esse cenário de novela, água e lágrima, corrediça entre as pernas. uma minha vontade, de, ah, amar -- afinal porque eu que o tinha tanto no peito não o merecia? saciar mesmo, sem remédio. mas essa cama grande e vazia... sofá, uma semana. engordei uns quilos, comendo enquanto assistia filmes antigos de madrugada, era eu ali, chorando no sofá ou era o retrato da insônia? me maquiei, fui ao mercado, quem vejo? ele, comprando carne. como sempre, os piores pedaços. ele tinha que aprender, por isso vi e não disse nada. me sorri amarelo, lhe sorrio roxa, sem medo. pergunta pouco, digo-lhe muito de amigas que não mais tinha visto, de lugares nunca mais visitados, alguns outros que conheci. ele sorri morto, enterrado. eu flerto fácil, blefo, não sei com que forças, e ele cai. o carrinho empurrado, a gente se vê, tomar um café, quem sabe, sugiro, cê sabe, que pode vir quando quiser. e vai. à noite, ele liga, eu estonteante, aumento o volume da tevê no canal de música, finjo não ouvir, ele diz que liga mais tarde ou amanhã. sento no sofá, desenrolo os cachos, rio, danço, cortejo meu par no ar -- essa imitação da vida.

eap

sábado, 16 de junho de 2012

Lemniscata

pra mudar,
um cigarro no outro;
este esperando
infinitamente
sou eu;
esperando
por deus,
pelo presidente
e acima de tudo
por mim
e por você
para começar
a mudar.

eap

quarta-feira, 13 de junho de 2012

a idade da pedra

eu tenho deslizado pelas ruas, lambido um pouco da água das sarjetas, sentido o calor do sol, amorenado a pele, e fumado a bituca do cigarro que o senhor joga no chão. eu tenho estado preto do sujo das ruas e tenho mendigado um trocado do pão. 

noite dessas eu te encontrei na rua, e me escondi, que teus olhos, essas duas luas, esses dois faróis, ainda me buscam na escuridão de cada beco das esquinas do centro, mas eu tenho que fugir, sabe?, não porque eu goste, mas, sei lá, dá raiva de ouvir tua voz lamuriosa, por isso, quando lembro eu me refaço, escupido da pedra e pronto, te esqueço. 

aí só quero outra e mais outra.

eap

sexta-feira, 8 de junho de 2012

verdades

ainda existe amor,
e eu te digo:
podes crer.

eap

as pernas do mundo

quando jovem existia tanto desejo, o tempo passou, quanto dos teus anseios foram satisfeitos? hoje em dia aquela vontade de criança de se crescer e ser, sei lá, adulto, se resume às obrigações mortas do dia -- que se não estão mortas, ao menos vão matando aos poucos, essa cruz. um bom yuppie, right, baby?

um dia, dei de relaxar. tapa na pantera, veio e disse, pô meo, deixa de ser careeeeta biiiêêêcho, vacilão da pôôôrraaa, meu, aquele hippie, sabe como é. como se dizia.

hoje, lembrando, parece que o mundo abriu as pernas para mim -- eu no orgasmo do mundo no meio daquela suruba universal de confluência de cor e som.

e tu me acredita, maria, que isso tudo é só um docinho debaixo da língua?

eap

vadinhos

é que dos amores máximos, ele sentia o mínimo. sabe lá porquê. não fosse maldade, as mulheres jamais o diriam, e uma mulher nunca mente -- aquelas todas, que ele encostou, com o papo mole, manja?, cafajestão, o bigode (na tua vida era a décima primeira praga do egito); todas sabiam, nenhuma resistia ao seus dengues de saudade. até as que levavam umas bolacha na cara, até as que ele sequer ligava -- pra quê? chegava, já é de se saber o que se quer. umas até ressaca de bebida ruim tratava, pra no dia seguinte sair dizendo que volta já.
(essa história, a novela de quantas, meu deus?)
eap

anjinho desasado

tinha tanto quanto pudesse, mesmo assim infeliz. aí veio aquele dia, que ninguém acreditou. tantas cartas, palavras, avisos prévios de natal, ano novo, aquele meio baldeado aniversário -- a vela não pedia outra coisa senão felicidade. uma corda, meu pai, o pescoço, mesmo grosso, não a sustentou -- esse tal anjinho desasado -- agora se sabe falho no alçar de voo.

eap

A Cura

Eu quero fazer um poema forte,
frio e duro como o ferro
inflexivo como o aço
inerte feito a pedra -- que mesmo
da mais pura, dura,
do mais rude traço,
ainda nasce a flor que cura.

eap

domingo, 3 de junho de 2012

Poesia Viva

Por quê é nas tuas palavras, nas tuas queixas
que eu encontro inspiração para reclamar e respeitar
o outro - tu me descobre os sete sentidos de uma palavra.
Que é na tua tristeza aqui e antes para depois euforia triste,
que eu faço poesia - que és bem tu a tal da poesia viva.

eap

Levantando Bandeira



(Escarrando o catarro purulento
de teu pulmão tísico
conquanto eu abro minhas feridas,
tímidas, de ser físico.)


Ai, Bandeira, quanta bandeira eu dou:
de ti em teus eu fiz a mim nos meus,
e hoje quem os olha já sabe que são eus,
por causa do muito de mim que de ti me inspirou.

Tua dor em vida, desejando vida
é minha dor de quase morte
esperando a sorte,
para que no final a gente se encontre,
naquela mesma esquina
onde os muitos e poucos se encontram
depois de finda a nossa sina.

E, Bandeira, eu te espero encontrar
qualquer dia desses,
ver de nós dois, qual mais dolorido,
inflamado e, ao mesmo tempo, calado.


eap

quarta-feira, 30 de maio de 2012

-

Tudo era assim meio nada; e de repente me veio você e me engrandeceu tudo tudo – quem era eu naqueles dias?

-

A lua, um dia me disse que não dizia nada e que o céu não existia – e, de repente, tudo fez sentido.

sábado, 19 de maio de 2012

-

Há uma hora na vida em que a nossa não é a dos outros -- o caminho certo será aquele que nos apontar o bico do sapato.

Sem Nome nº 24


Que a gente se embevece
de nascer
de viver
de morrer.

Sempre há culpa para tanto.

Que a gente se embevece
mas se embriaga
se droga
se mata.

Sempre há culpa para tanto.

Que a gente se embevece,
se ama
se come
se maltrata.

Sempre há culpa para tanto.

Que a gente se embevece,
se lambe
se fode
e se diverte.

Sem culpa nenhuma.

eap

Sem Nome nº 25

A fumaça que leve sopra,
que leve me abusa,
que leve me toma,
que leva minha astúcia,
que leve me leva,
por um tempo que sopra,
que acabará por me acabar,
e, quem dera, fosse cedo,
posto que esta fumaça sopra,
mais que leve me leva
aos poucos, aos pingos,
de leve me condena,
de leve me enterra.
Sei de cor o movimento,
então levo à boca,
salivo e tremo de vontade
e é de viés que me vejo
e louvo de desejo,
acenderia uma vela,
pra, quem sabe,
você me levar
leve como quem quer me levar,
leve a vagar,
desde sempre,
cavalgando no pretume
pela névoa adentro.

eap