sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mínimas IIX – Aceitação

Alguém, não lembro quem, dizia-me, convicto de minha burrice, indignado, na verdade, com minha opinião:


– Bastou que lê-se meia-dúzia de livros para que passasse a se achar no direito de negar Deus!, dei de bruços com cara de enfado e disse,


– ...pra você ver o quanto é frágil esta crença...


eap

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

“O Instinto do Instinto Secreto”


 Para Afonso Abreu

– Três dias. Já fede daqui.
– Por tanta demora, supõe-se que a desgraça já vai longa, não é? Tinha razão. Ele não tinha ninguém.
– Provavelmente. Mas esse cheiro vai incomodar os vizinhos.
A porta batendo.
– Está esperando alguém?
– Não.
Olho-mágico: dois homens com coletes e à paisana olhando para o corredor. Mão segurando já o coldre.
– Que merda.
– Eu não entendo.
– Abra a porta, procure não demonstrar nervosismo.
– Que?, olha com desdém.
– ... Vou estar ali sentado.
Abre a porta, abotoando ainda uma camisa engomada; os óculos sobre o nariz.
Os policiais perguntam seu nome, ele confirma, senta, oferece café, ao que os policiais não aceitam, pois que é de rápida a entrevista.
– Só?, pergunta o policial gordo.
– Sim, sim. Moro sozinho.
– É... Então, o que esteve a fazer ontem à noite?
– Estava em casa dormindo.
– Soube de alguma coisa anormal acontecendo?
– Não... Ainda não soube de nada, pois que sempre tomo notícias do que há quando vou a casa de meu vizinho pela manhã, para esperá-lo ir ao trabalho comigo.
– Entendo.
– Que aconteceu?
– Estamos apenas averiguando.
– ...
– Algum incômodo em especial?
– Você alguma vez já o viu ou ouviu falar, fazer alguma coisa que lhe incomodasse? Fica calmo, disse o da voz sentada.
– Não na verdade. Trabalho o dia inteiro. Aos sábados e domingos durmo ou leio. Saio vez por outra apenas para resolver empecilhos do trabalho...
– Administrador?
– É... Toda aquela coisa. Reuniões, ações, relatórios, cobrar dos outros, os outros me cobram... enfim, é uma rotina estressante. Dá vontade de matar um às vezes, e riu.
– Não!, gritou aquele que estava ali sentado e ninguém via.
– Hm, disse o outro policial de barba, tomando nota.
– Por enquanto é só, senhor. Qualquer coisa que nos puder ajudar, aqui o nosso cartão. Nesse número o senhor vai poder nos contatar à qualquer momento.
– Sim, sim.

***

No carro os dois dão fungadas no talquinho.
– Que tu acha?
– Ora, aquele magrelo?
– Como assim? Foi um tiro.
– É, mas ele bem poderia nos ajudar... o prédio dele fica de frente para o outro prédio. O filho da puta preguiçoso do caralho, passa o dia dormindo. Risca o nome do corno.
– Tem certeza?
– Claro.
– O cara era importante. Tá com cara de passional. O marido da outra tinha histórico... Tava na cara que ia dar merda... O fulano arrancou os aparelhos dos dois, comeu a mulher depois de morta... Tá na cara.
– Quando sair a análise do esperma, vai se confirmar...
– Por que então os filhos da puta mandam a gente averiguar essas evidencias!
– Ah, larga mão de ser preguiçoso, porra...
– Vamo tomar uma?
– Simbora.

***

No apartamento o desespero do ego e do alter.
– Cê acha que eles desconfiam?
– Depois dessa cagada...
– Eu não acredito, eu não acredito! O maldito!
– Eu falei que tomasse cuidado e não se deixasse levar pela familiaridade, pela conversa fiada dos policiais...
– Que inferno!
– Não se descontrole, é apenas um gato!
– O gato era quase uma merda de parente! E, a culpa é minha! Deixava a porta aberta sempre! Só um animal! Um pobre animalzinho!, convulso choro balbuciado.
– Não vejo onde isto se encaixe... Se acalme... Ei, onde você vai?
– ...
– Ei, não faça isso! Não! Não!

[estampido seco]

eap

(talk)


(well... everybody just needs to talk)
hey, everything i know,
is just a little part
of a great party
that never happened in my life --
this just passed between my eyes
and I was on the floor,
kissing the flow of dirty footsteps
left of all our history

eap

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Versos Íntimos

eu que quis viver e abusar do absurdo
agora me dou de cara
com o mundo - e nunca tive tanto medo.

você tem um pedaço deste coração
e eu sou um poeta em pedaços...
quando decidirmos o que disto é mais importante
vejamos até onde isto vai chegar...

toda a minha história
é feita de poesia morta...
me pego pensando nisto às vezes
e pergunto-me, se é normal isto...
quando de repente, sou comovido
do sentido que procuro dar a tudo isto...

e eu que procurava abusar do caos e do absurdo,
hoje me vejo de cara com a calamidade de tudo,
uma prostituição incalculável de minha história -
meu corpo nu e renegado, chicoteado, queimado...
brasa dilacerando a carne...

quem me daria chances,
quem seria assim tão cruel?
quem poderia me dizer que sim
sabendo que eu digo não a tudo isto?

é o destino dos infelizes,
dos pobres mortais -
dos pobres que morrem...

aquele zumbido surdo do caos
uma mosca pousando num copo de leite
ao som do violão encostado na parede,
cheio de poeira e de música perdida, vadia,
reles, nota alguma (nota zero)

o homem da poesia torta, movediça.
o ser de mãos calibradas para o erro,
o ser que se posiciona fraco, o ser-ou-não-ser
que entra à noite em desespero...

o menino perdido e sujo,
o menino que amava outros,
sem saber que o amor jamais salvou nada
e sim foi morto durante seis seis seis,
milhões de séculos...
desde o início...

eu só lamento não ser aquilo
que todos esperavam ser.

eap

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

In Random II - A Voz Muda

Do disco "Parklife" - Blur
Quando tudo enfim se desvanecer, vai sobrar só o resto da cinza dos cigarros, e eu vou estar lá pra ver os filhos da puta com a boca escancarada e fedida -- provavelmente terão suas vísceras postas ao sol para secarem mais rápidas e servirem de alimento aos urubus que vão adorar a carne que é podre antes mesmo de putrefar-se; quando eles tiverem um resquício de sentimento, vão entender que o que falo não é piada -- minha voz tem sentido, foi o que minha mãe disse, e tem dito, apesar de que, bem sei que muita coisa ela não entende, e no final, a culpa é sempre da mesma pessoa (das mesmas pessoas). Quando eu te disser isto novamente, daqui uns trinta tristes anos, em cima de uma cadeira de rodas, rabugento e cheio de doenças você vai provavelmente dizer que é castigo de deus, que é minha língua que faz meu corpo pagar, mas eu sei que não é isto, pois você terá morrido primeiro que eu, e iludido, cheio de sorriso na cara, pobre e fodido, achando que haverá um paraíso... [risos] Paraíso! Inferno ou paraíso é uma questão de que ângulo se observa o mundo... Mesmo eles, sabem que o paraíso é uma ilusão, tem apenas a moral em que se apoiar e iludir, e você estará neste momento em que eles dizem É assim, se vangloriando em mil aleluias e améns, por já ter sua lição de casa preparada antes mesmo de nascer, pois seus pais já estavam lá para lhe ensinar, e não me faça falar de seus avós... Não tenho dito que sou o melhor, não. Nunca direi isto. Sei, sabemos, todos nós (eu, você, eles) que eu sou o pior dos piores, pois sofro sem sentido (como vocês acham), pois sofro sem por quê (idem) e que me enraiveço de jovem... Que é de minha mente? Só eu sei. Se tivesse instrumentos à mão, não faria nada, mas tenho a impotência como uma faca encravada na garganta. Dou-te a direção. Aponto o dedo. Sabes bem, tens pernas e braços. E aí?

[o resto é silêncio]

eap

sábado, 24 de dezembro de 2011

Da Vida


Sabemos tão pouco da vida,
a ponto de não reconhecermos
o valor que a morte lhe dá.

eap

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

-

Sonhamos tanto acordados que esquecemos às vezes de fazer isto enquanto dormimos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Corpo

body

Trago em teu corpo
uma poesia
feita e refeita,
aperfeiçoada por anos
de emaranhamento de tecidos
de glóbulos e órgãos,
pulsos emocionados
dum coração moluscular,
que bate,
e que não ouso nunca desenhar.

Na verdade, não trago nada,
a poesia nasce feita,
aprimora-se por si mesma,
e no final, resta deliciar-se
de ler e interpretar
cada parte do corpo
cada parte do todo.

eap

O Fruto

Antigamente conversávamos:
- onde está Deus?
- está no céu.
Mas, onde o céu,
Se não há céu?

Existe o espaço.
Infinito.
E onde o mistério?
Eternamente...?



eap

sábado, 17 de dezembro de 2011

Minimas VII - Theo

Theo, conversa vai, conversa vem, hora de se ir. Como não podia
deixar de ser, tinha que dar a última:

- Pois vai lá, Zé, eu passo lá... Tu não mora perto dum negócio que
é tipombar, né?
- ... vai se foder...
- Ei, mã, sério, o nome do bar, é o... como é mesmo ein?
- Sei lá...
- É o cupimbar, né?
- ...

*

Afonso não se aguentou: o hit do momento passou em frente aos dois,
- E a Fátima corococó, e o Estênio tofraco, e o Theo mu-mu-mu.
Theo, nem precisou pestanejar - menos ainda rimar:
- e o Carlito gulu-glu-glu.
- ...
Porque já dizia a filosofia dos moradores da Betel, batizados de betelistas:
Quem tem papai de apelido "Seu Peru", não abre a boca pra falar da mãe
dos outros.

eap

20 Verdades Sobre Poesia

Retirei alguns excertos de coisas que disse-e-não-disse um dia para algumas pessoas (ninguém) para que entendamos um pouco a diferença entre ler, entender e fazer poesia, de acordo, claro, com o que entendo por isto ser. Por isso, não vá achando que se não consegue ou não conseguiu quaisquer destas coisas que não se poderá ler, entender ou fazer poesia: há tempo para tudo neste mundo.

Mas sigamos em frente:

01 - Para se entender poesia, é necessário perder um pouco a alma a cada dia.
02 - Para se entender poesia, é preciso estar de peito aberto, sem mágoas nem feridas.
03 - Para criar uma poesia, é essencial, que o dizente tenha em si a alma pessoana - do poeta que finge tão completamente a que chegará a fingir que é dor a dor que deveras sente.
04 - Para se ser poesia, é necessário um bocado de açúcar, afeto e um tanto de sadismo.
05 - Para ser poesia, é necessário uma dieta de pão e sangue.
06 - Para se ser poesia, é preciso coração machucado, que goste de sal nas feridas, que sinta prazer em banhar-se de álcool.
07 - Para fazer a poesia ter filhos, vá ler João Cabral, Bilac, Bandeira, Rimbaud, Baudelaire. Vá ler Drummond, Cecília e Vinícius. Aproveite e veja também Chico, Noel, Pixinguinha e Cartola.
08 - Para fazê-la ter filhos, é preciso cruzar a sutileza do bater de asas de um beija-flor com a pata estúpida de um elefante viajante.
09 - Para se ser poesia, é preciso bem mais que uma rima rica, decassílabos e alexandrinos - por que não cabralinos?
10 - Para se ser, é preciso ser neguinha, é preciso ter cabelo de carapinha, beber cachaça, jogar capoeira e pedir a benção à Dona Menininha lá na Bahia de todos os santos. Oxalá!
11 - Para se ser, é preciso ser de todo mundo dentro de sua própria casa.
12 - Para se ter poesia, é garantido que se saiba e se fale abertamente do deixar a vida, acreditar mais na morte - sem tirar o olho da outra (e também, da sorte).
13 - Para se ter poesia, é obrigatório o direito de mentir, e o dever absoluto de imaginar - que a vida é pequena numa só.
14 - Para se ter poesia, é necessário o compromisso com a verdade, mesmo quando se mente, "se é que você me entende".
15 - Para se fazer poesia, é preciso ser humano, e é preciso ser bicho e planta também - já fui vento, já fui móvel, fui uma garrafa de cana e o seu Zé do armazém.
16 - Para se fazer poesia, é preciso não ser nada, nem poeta.
17 - Para se fazer poesia, é quando se mais precisa - e na verdade sempre, que ela está em qualquer lugar.
18 - Para se fazer, é preciso muito cuidado, zelo e paciência. "Olha a porta, se ela não te inspira, esquece que ela existe! Renegue-a!"
19 - Para se morrer poesia, é preciso que tudo vá pelos ares, que toda se exploda, e que, acima de tudo, não existam mais olhos, nem cérebros e muito menos corações.
20 - Para se renascer poesia, você irá criar onde quer que seja - vá lá ver Dante no inferno!

eap

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre Café e Cigarros

Eu te digo que não vou parar. Estou velho, cansado, cheio de contas a pagar. Qualquer dia desses me encontra você com a boca cheia de formigas numa esquina qualquer - e aí? Dá-me certo prazer, dá-me certo gosto - é a diferença entre estar vivo e estar morto. O paladar, o olfato. Estou morto, meus pulmões estão dilacerados, eu sei. Mas quem não está? quem não morrerá? Nunca conheci um ser imortal, e também, tem graça isso de ser imortal? É por isso que sorvo sem preconceito. Trago, aspiro, transpiro e enervo minha alma - se ela existe. Traga-me um café. O café isto também, em líquidos. Imagina-te num banho numa cachoeira de café. A negritude, só de pensar, me dá medo. É por isso que todos gostam da água: dá para se ver através dela e amá-la por ser o que é, é convenção isto de amar e preservar a água. Eu preservaria o café, os cigarros. Punha meus pulmões sobre uma grelha e comê-lo-ia. Os urubus, coitados, estariam esfomeados de tanto esperar. Mas meu coração, coisa de aço, como disse Cecília Meireles, não dá-se por vencido. Começa por se transformar numa bomba que se remexe e me mantém vivo, conquanto o cigarro vai se transformando numa brasa só, abrasando, acinzentando-se, e sendo poeira jogada ao vento. O gosto deste despedir-se de si mesmo dói no peito, e para chorar a alma desesperada dos aflitos, tomo uma xícara de café. Quando eu movo, sentido horário, a colherzinha, misturo o açúcar, vejo a espuma se dissolver no líquido espesso, livre, fora as bolhas. Milhões de bolhas juntas - apenas vivendo de observar enquanto degusto o café. Estalo de língua e eu lembro de outros cafés que tomei mundo afora. Minha mãe, aquele café forte, amargo, sem açúcar, quase - outra fumante, minha inspiradora do que sou; minha avó, um café ruim, amargo como fel e vingança, feito para quem masca fumo; o café de meu avô, aguado, açucarado, ótimo para nada. Eu pergunto quanto tempo mais durarão meus pulmões, cansados de respirar o ar puro da nossa cidade cinza. Meus lábios entumecidos de lama, e quanto mais eu penso em mim, mais raiva tenho dos outros - café, café, café, mais uma xícara, que eu posso dormir quando morrer. Vamos atravessar um período de secas intelectuais e este ato será mais um a se extinguir. Falaremos do asfalto e do concreto, da fumaça palpável, do cheiro que entra dentro da neblina (um lobo em peles de cordeiro) e ilude essa cabeça ansiosa - e não me venha você dizer que meu cigarro irá um dia me matar. Vamos, sente aí, tome uma xícara de café ao menos.

eap

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Gosto de Cereja

Talvez o céu fosse uma grande e única labareda de fogo azulado
que lembraria nossa vã vontade de sentar e observar
a paisagem e achar bela, como nunca - como não é.
E, bem, é mais fácil: conversas à atormentar cabeças,
loucas por uma bala atravessada, sim, bem no meio dos olhos.
Quando por fim, deixarmos de tanto nervosismo e comoção,
sejamos um pouco mais corajosos para não sermos tão ingênuos
em considerarmos a nossa espécie humana digna...
O ser e o não ser nunca estiveram tão decididos do que ser,
e não é necessário nenhuma ironia ou aforismo para que se chegue
a resposta que tenho a dar.

eap

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Estrangeiro de Albert Camus

Ao ler o primeiro parágrafo de O Estrangeiro de Albert Camus, temos uma noção do que virá pela frente. A frieza com que recebe a notícia da morte da mãe permeará todo o livro em diversos âmbitos, os quais o livro percorrerá, o sexo, as amizades, o assassínio, a vida e a morte.

"Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo. "Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

É fácil identificá-lo no olho do furacão existencialista como uma das obras mais famosas, juntamente com o livro do compatriota, Sartre, O Ser e o Nada, entretanto o autor não quisera este rótulo de existencialista ao seu romance, que se derrama todo na estética do absurdo - estilo principiado com o escritor tcheco Franz Kafka, em obras como O Processo, O Castelo, entre outras. O Absurdo nesta obra está na máquina estatal que oprime a liberdade do personagem central, Mersault, que por não ver razões em nenhuma crença, nenhuma fé, nenhuma ciência, é assim tido como livre, e esta liberdade acaba por conduzi-lo ao seu destino final, que se chocará com esta máquina. Esta noção do Absurdo está no modo como, à maneira do Sr. Joseph K., de O Processo, Mersault é tratado em seu processo pelo assassinato de um árabe, como fosse alheio ao que ocorria ali na sua audiência. Além de se utilizarem da frieza com que fora ao velório de sua mãe como prova irrefutável, aos olhos de um promotor carrasco, de sua psicopatia, senão isto, de sua vontade e intensão de matar o tal árabe.

Entretanto, o protagonista não tinha qualquer razão para fazê-lo, e para ele, tanto se lhe fazia o que iria acontecer à sua vida. Existir é apenas isto que encaramos todos os dias: nascemos para morrer. A existência, puramente, ao homem, deveria pautar-se na liberdade do indivíduo, mas esta liberdade é ofensiva ao Estado, e é aí que Liberdade e Absurdo são faces da mesma moeda, de acordo com o pensamento camusiano.

Pouco sei sobre a filosofia existencialista. Mas o fato é que é explícito o jogo das ideias destes homens nas pouco mais de cem páginas que permeiam o romance, que está, ao lado de O Processo, entre os cem livros do século XX. O porquê é simples: está ali explícita a forma como a máquina estatal controla a liberdade do homem a ponto de encurralá-lo contra a parede e fazê-lo digerir as vontades e deveres impostos por eles.

Mas, no que tange ao modo como Camus lidou com a literatura, é um livro de facílima leitura. Períodos curtos, ideias jogadas enxutas nas páginas do livro, e, acima de tudo, um assombroso jogo que permeia a segunda parte do livro, que seria o encontro de Mersault com o estado - já que a primeira parte seria o usufruir de sua liberdade, o que nos mostra o sexo, o banho de mar, os passeios, etc.. É um livro popular. Tanto, que sua influência fora dar de cara com a banda de rock gótico inglesa, The Cure, na letra da canção "Killing a Arab" - que à época fora má interpretada. Além de uma adaptação cinematográfica pelas mãos de Luchino Visconti, em 1967, com Marcello Mastroianni no papel de Mersault.
Killing a Arab - The Cure

É uma leitura obrigatória para quem procura respostas a questionamentos sobre a sua própria liberdade, e, parafraseando as palavras de Arthur Dapieve "é uma espécie um tanto cruel de livro de auto-ajuda".

eap

sábado, 10 de dezembro de 2011

Desgracida de Dalton Trevisan

Trevisan pode ser considerado o melhor contista vivo de uma geração promissora que veio logo após aquela efervescência do pós-45, que se propunha a ser diferente. Trouxe consigo uma pá de companheiros e fez ainda outros amigos ao sair de sua progenitora Curitiba para o Rio de Janeiro, onde ficaria amigo de Rubem Braga, desde então, de lá para cá, Trevisan, cada vez mais recluso vai aperfeiçoando o minimalismo com que cria seus personagens e fatos, pitorescos e engraçados, sem renegar, claro, os seus evidentes influentes (Tchekóv é um deles, Machado é outro). Desde meados da década de 50 seu talento é reconhecido, e antes da explosão de ótimos contistas na década de 80 (a exemplo de Caio Fernando Abreu) era tido como o nosso maior expoente do gênero - um mestre.

O que tudo isto tem a ver com "Desgracida", sua mais recente antologia de pequenos contos? Tudo. Aqui podemos entender como e porquê o "Vampiro de Curitiba" tornou-se um dos mais respeitados contistas contemporâneos  ao lado de Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Ignácio de Loyolla Brandão (apenas para citar da mesma época e ainda vivos).

O volume, até que pequeno (220 páginas), reúne aquilo que o escritor misantropo sabe fazer de melhor: contar os casos do cotidiano desta cidade, expressionista muitas vezes, que é a cara de seu autor  pode-se dizer que Curitiba está para ele assim como a Bahia está para Jorge Amado. Trevisan transpõe as pequenas histórias para a sua visão de mundo e de literatura formando um mosaico de figurinhas, que são Joões, Marias e Polacas, todos, endiabrados, cruéis, marginalizados, caquéticos, imundos, e, pasmem, até líricos e humanos  diria desgraçadamente humanos ainda mais com todo o erotismo cafajeste, tão próprio de suas obras.

Tudo isto somado a linguagem coloquial, típica do povo curitubano, que Trevisan soube tão bem adaptar ao seu estilo minimalista (do clássico "Ah, é?", passando pelos perversos "Dinorá" e "234" - que tive a oportunidade de ler), somadas à textos de cunho altamente psicológico, no que tange às atitudes desmedidas de seus personagens, e falando lado a lado com "a ralé" curitibana, sob o signo do sofrimento e da crueldade. Fora isto tudo, vemos as piadas, os aforismos e poemas-conto, que já são de praxe do autor.

Mas o diferencial de "Desgracida", e que, muito provavelmente, o fez vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria conto [que o autor já havia vencido com "Novelas Nada Exemplares" (1960),  "Cemitério de Elefantes" (1964), "Ah, é?" (1994)], está na segunda sessão do livro, que sucede as "Ministórias", que são as "Más Traçadas Linhas", que reúne cartas que o escritor dirige, afetuosamente, a Pedro Nava, elogiando-o, e dizendo, sem meias medidas, que compara-o a Proust, e que seria até melhor, já que "não é chato nunca", além de cartas a Otto Lara Resende, onde critica, se bem entendi, Grande Sertão: Veredas, além de salientar, citando autores por quem tem predileções, tais como, com bastante frequência, Machado de Assis (a quem chama "Machadinho"), Léautaud e Anton Tchekóv.

O livro, que é uma amostra da competência de Trevisan ao longo de sua carreira, guarda boas cartadas, como o conto Iluminação, que guarda um tom memorialista e certa epifania na nesga de perna branca que surge na perna de uma polaca, e ainda Marishka, que é um canto louco de amor à uma mulher fatal - aqui a referência cinematográfica à mulher do conde Drácula. São essas, duas joias raras em meio a este volume, que pode ser dito como um produto notável de uma grande carreira construída sem frescuras, demonstrando que em time que está ganhando, e muito bem, diga-se de passagem, não se mexe.

E, às suas palavras, "despeço-me com um piparote".

eap

O Estrangeiro - Trecho

" [...] Voltava a me esforçar para mudar o rumo do meus pensamentos. Escutava meu coração. Não conseguia imaginar que este barulho que me acompanhava a tanto tempo pudesse um dia cessar. Nunca tive uma verdadeira imaginação. No entanto, tentava imaginar um certo momento em que a batida desse coração não mais se prolongaria na minha cabeça. Mas não adiantava. A madrugada e o recurso estavam sempre lá. Acabava chegando à conclusão de que o mais sensato era não me tentar refrear."

(CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Editora Record - Rio de Janeiro 2011 - 32ª ed., Pg. 116)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Mulher Amada - E Uma de Trevisan

Meia duzia de tabefes, já cai toda chorosa no chão a mulher,
vontade de morrer, matar, irrompe em prantos a flor murcha,
-- João, por que tu não me deixa em paz?...
O dentinho de ouro mordendo o beiço grosso, ainda a unha
cravada no umbigo cabeludo -- e ainda cheira,
-- Ia eu saber viver sem esse...
-- ...mulher amada já não sou!
-- ...assado de panela todo dia? ainda mais roupa lavada?
-- ...bjeto sexual, só...
-- Não fosse isso, voltava pra mãe...
-- Mas tua mãe já morreu, João.
Triunfante musgo na ponta do canino -- um alface,
-- Então o jeito é aguentar, desgracida.


eap
 
 A Dalton Trevisan por seu "Desgracida".











"Só de vê-la -- ó doçura do quindim se derretendo sem morder -- o arrepio lancinante no céu da boca."


(TREVISAN, Dalton. Ah, é?. Editora Record - Rio de Janeiro. 1994, Pg. 15.)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vergonha

-- Não quero porque não quero e pronto, mãe.

-- Deixa o menino ir.

Não se sabe ao certo. Mas o que é certo é que tinha medo. Não gostava. Tinha seus segredos, e quem não? Pior era de se saber o que era, depois via o menino, ia falar para a mãe, que já é sabido, gostava de implicar, coruja que era. Seria capaz de impedir que fosse para lá -- e não fazia outra coisa, depois do trabalho, para casa, e ainda tirava uma boa quantia para o aluguel, que ajudava, e ainda assim não dava, mas não deixava de comparecer, bom filho que era. Ia à casa da família de seu pai, aquele escroque que os deixou -- a mãe sempre perguntava: Notícias? Mesmo que dissesse que não, era sabido, coruja que era, que desconfiaria, e com razão, família é família, não é de se confiar. Aturava de tudo, desde a música aos cabelos, tudo era comentário, crítica, o caralho. Mas ia. O que lá o aguardava, não compensava de todo, mas era já um alívio breve, uma quase respirada de um ar, mais ou menos, puro. Acabou o menino que foi mesmo. E ficou inseguro, cheio de medos. No caminho, disse ainda no ouvido,

-- Fique lá em cima, na casa de sua madrinha, não desça por nada... E foi fazer aquilo, que lhe era vergonhoso, que lhe pesava, que lhe doía tanto fazer... Mas precisava. Ou era isso, ou não ir onde queria, no sentido literal da palavra. Já que se pagava para viver, para caminhar, para ir a qualquer lugar... E precisava tanto ir, sair, pegar uma condução, ônibus, busão, coletivo, sabe lá, qualquer coisa, para sair, caminhar, respirar, não ver tanta coisa ruim, chateações absurdas, que a sua vida lhe tinha imposto de uma hora para outra. Quando deu por si, abriu a porta, e quem do outro lado não estava, senão seu irmão, que observou atônito a vassoura nas mãos de seu irmão, que não teve muita reação, senão dizer, Entre... o menino entrou e olhou, meio assim-assim para o irmão que segurava uma vassoura numa mão e na outra um espanador, sem camisa, cansado, suado, desgastado, como não poderia deixar de ser... Na verdade, pouca coisa entrou em sua cabeça. Estava preocupado com outras coisas que seus onze anos lhe diziam ser preocupantes, mas sabia, ali dentro, na esquina da cabeça, que aquilo não era bom. Sentiu qualquer coisa de angústia, e saiu andando atrás da tia, que por ali perto estava, mas, era como se o chão tivesse estado a pairar no ar... E por aquele instante os irmãos pareciam estar agora a se reconhecer.

Na volta para casa, ambos estavam exaustos, um de tanto brincar, outro de tanto estudar e trabalhar, ganhar, sabe lá que quantia pífia àquela humilhante situação... no carro da outra tia, depois que chegaram, não deram palavra. Num dado momento da noite, quando a tristeza talvez bata de forma mais pungente, ou o frio da noite se sabe mais denso, o irmão mais velho disse ao irmão mais novo, olhando para a tevê,

-- Não fala nada pra ninguém.

Não iria precisar. Vozes além lhe diziam que alguma coisa estava errada, mas que não se preocupasse: o silêncio era um caos organizado. Estava ali, mas descansando, talvez aguardasse o momento certo para se dizer, e se dir-se-ia disto, um passar na cara, quando as lições de moral não tardassem, teria argumento à ponta da língua.

eap

Garotos e Garotas -- Parte 1

Ele era quase todo felicidade, conquanto não mexessem em seu calo: nada de relacionamentos. Seja de amigos, parentes, seja de amores, pessoas mesmo ausentes. Quando em vez se pegava em pé de guerra com a memória. Tudo era demais: pessoas demais, responsabilidades demais, vida demais, coisas demais. Mas se no fundo era feliz, então tudo bem. Até aquele dia, era claro que sua vida se guiava num nível de constante bonança. Quando, naquele dia, justamente naquele dia, em que as horas mortas se sobrepunham por entre a gritaria do povo, gente feliz demais, mais que ele, que era quase feliz, mesmo sendo notado em sua cara morena uma tristeza messiânica, naquele dia, veio-lhe um coração frangalhado de desassossego apaixonado. Ele saberia como dizer sim, mas era tão mais velho, que sua tristeza se camuflou de um espanto, de um temor, de uma angústia, e de repente, uma repulsa. A superioridade masculina. Daí feliz. Daí orgulhoso. Embora inconsciente. Era coisa de se ser homem. E em meio a folia, da balbúrdia dos felizes alunos em integração, veio a garota com ar de inocência. Quatro anos, era demais. Além do quê, não é lá essas... Não. Por que, por que, por que, a martelar, e, dois caminhos: sim, você não é linda, e não, eu não quero, você é muito jovem -- o que acarretaria desenlaces que sua mente juvenil jamais se permitisse conformar. Disse o que disse, com dó de lágrima derramada -- é pena, essa não era a reação que esperava. Preferia raiva, ódio, desejo de morte... Mas tristeza não. Tristeza não se brinca. Ele bem sabia que tristeza não era coisa de se brincar. Fora para casa sem mais na cabeça. É de se morrer? Não... Ano que vem capo fora, já nem aqui nem lá... E assim por diante.

E,a,p'

sábado, 26 de novembro de 2011

Uma do Velho Buk

"Caro Hans van den Broek,

Obrigado por sua carta contando-me da remoção de um de meus livros da biblioteca Nijmengen. E que ele é acusado de discriminação contra negros, homossexuais e mulheres. E que é sádico por causa de seu sadismo.

A única coisa que temo discriminar é o humor e a verdade.
[...]
No meu trabalho como escritor, eu só fotografo, em palavras, o que vejo. [...] Se eu escrevesse só e continuamente da "luz" e nunca mencionasse o outro, então como artista eu seria um mentiroso.

A censura é a ferramenta daqueles que têm a necessidade de esconder realidades de si mesmos e dos outros. [...]"

Carta de Charles Bukowski sobre a retirada de seu livro Crônica de Um Amor Louco das prateleiras da biblioteca holandesa ao Ministro Hans van den Broek.

Texto na íntegra aqui.

domingo, 20 de novembro de 2011

A Ideia Vaga II

A revolução começa no pensamento, corre ao papel à velocidade da pena, a tinta fresca te revolve a pensar novamente, divulgar teu poético?, belo?, anárquico?, que de tuas ideias são feitas? Que de tuas ideias são completas? A vaga noção do que queres é o que te move, mas diante disso, a ideia ainda é vaga,  mas vaga e vagará ainda em tua mente cheia de viver e fulgor. Aguarda-a e ela te envolverá como um vírus a se multiplicar e ser, não mais uma parte estranha a teu corpo, mas um organismo vivo, o todo de ti, lúcido e são.

E,a,p'

Asas

Broken Wings - Antônio Callomeni
Andava sozinho pelo centro da cidade, quando vi algo que assustou absurdamente aos que por lá passavam comigo, que foi a imagem de um homem voando. Todos pararam estupefatos, observando suas asas plumosas assomarem e galgarem as árvores, cheias de esplendor. Subiu até o alto, e quem estava andando comigo lá ficou a observar o anjo charlatão. No chão uma boina, que, acompanhada da chuva abundante que caía do céu naquela tarde nebulada de terça, era encharcada de moedas e cédulas de variados cifrões, palmas que explodiam às acrobacias do homem, que se vangloriava por ter consigo aquelas asas. Eu rio condoído. Saio caminhando pelas ruas do centro, aquelas árvores da praça do Justiniano de Serpa, a Filgueiras de Melo, onde, logo à frente a multidão se acumula. Eu tento não olhar, mas o infortunado rapaz alça um voo mais rasante e passa com suas asas rente à minha cara, fazendo com que eu me virasse e visse o espalhafato da multidão que me olhava rindo. Balancei a cabeça sozinho, pus as minhas mãos no bolso, em busca de um calor, embora eu gostasse do frio, e não usasse guarda-chuvas. E fui, caminhei até a outra extremidade da calçada, e ainda até o Imaculada Conceição, contemplei o lixo à esquina e desci um pouco mais. As pessoas ainda gritavam, quando, cansado, e longe sentei numa calçada mais adiante e comecei, mais uma vez, a cortar as pontas de minhas próprias asas com um canivete, embora elas insistissem em crescer.

E,a,p'

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu não nego, eu entrego...

"Diz assim,
que eu rodei
que eu bebi
que eu caí
eu não sei 
eu só sei 
que cansei, enfim,
dos meus desencontros,
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos"

Chico Buarque - Desalento do disco Construção (1971)

Amor de Deus

Eu prometo, senhor,
nunca mais prometer
tudo sem ser nada.


Eu prometo, que será
a última vez
que eu direi última vez.


Eu juro, que não usarei
sinonímia para esconder
o que seria promessa.


Eu prometo que não acredito
e acredito em não prometer
para que eu não precise acreditar.


E,a,p'

domingo, 6 de novembro de 2011

-

O sentimento de gratidão é a coisa mais ingrata deste mundo.

Mínimas Máximas VII -- A Irmãos Caçulas

- Ei, ei, Eliézer!
- Diz...
- Obrigado Brasil!
(faz um coração com as mãos e deixa os olhos vesgos)
- ...
***
- Ei, ei, Eliézer!
- Fala.
- Sou seu fã!
(faz um coração com as mãos e deixa os olhos vesgos)
- ...
***
- Ei, ei, Eliézer! Tu gosta?
- De quê?
- Do perfume da bosta?
- ...

Irmãos menores...

sábado, 5 de novembro de 2011

Um Conto Violento (ou Niilismo)



- Porra, vai tomar no cu, Zé. Cadê aquela velha "ultraviolência"?, me perguntaram um dia.

Fiquei chateado, porque nestes últimos tempos tenho abrandado minha cabeça, ela nem sequer sangra de tanto pensar, e por isso eu não quis matar ninguém. Na verdade, na verdade mesmo, ninguém fez por merecer uma morte.

Sigo a premissa de matar desafetos em ficção. Ora, mas a quanto tempo eu não sinto um ódio deste grau? Sabe lá... O legal disto tudo é que só quem ganha é a linguagem. Dois dias atrás eu recebi aquela crítica de pessoas que esperavam de meus contos violência, o caos urbano, porrada na cara, chute nos colhões. Pois aí vai uma dica para quem espera um conto violento. Na verdade eu vou matar um personagem fictício.

Em primeiro lugar, para se criar um conto violento, é preciso frieza, um olhar clínico, um senso de humor cínico e negro. Quando falo negro, não é gargalhar, é ironizar a maldade como fosse normal. Tipo, E ele enfiou o braço dele todo no cu como se estivesse a ponto de palitar os dentes. É certo que o hiperbolismo ajuda nessas horas. Você já viu um cu com dentes? Nem eu. Daí passemos a descrição de violência, que pode ser de dois tipo: um física no mano-a-mano e/ou covarde, com armas brancas e vermelhas e pretas e de toda sorte de cor.

Particularmente gosto da covarde, pois enfiar uma faca no olho de um personagem é bem mais fácil e rápido. Aliás, esta descrição deve ser rápida, senão vai parecer que você está trabalhando na autopsia. Por exemplo, imaginemos que o fulano que me perguntou onde está a ultraviolência estivesse de frente para mim de braços abertos. Suponhamos que no meu bolso eu tivesse uma faca, iria no meio dos peitos dele. Duas facadas com o peso de uma pedrada. Sentiu a velocidade? Pois então. depois de tudo isto, o rapaz sendo maior que eu para variar, merecia ter sua cabeça esmagada por meia dúzia de pulos sobre a sua cabeça, mais ou menos na altura dos olhos, que é para ver se eles saltam fora da caixa. Isso, muito bem.

Agora vem a parte mais cruel, o pós-porrada. Geralmente se pensa, Derrubei. Venci. Errado. O cara pode levantar a qualquer momento, e é aí que tens que mostrar que levantar dali pode ser a pior das ideias. Munido da faca, que pode ser qualquer uma, você vai pôr a ponta dela na gengiva do rapaz, e cavar, cavar, até encontrar a raiz do dente e depois arrancar com a mesma faca. O rapaz vai sorrir lindamente, e falando em sorrir, corte-lhe os lábios, para que se tenha certeza de que este sorriso lá irá permanecer. Depois, recomponha-se, e passe a dedicar-se a fazê-lo sofrer. Para os fumantes, o cigarro pode ser apagado em dois locais estratégicos: ou no ouvido ou no olho -- se não tiver saltado da caixa.

Bem, depois disto, você pode comprar um banjo, acender uma fogueira, e com um espeto, pegar as peles que irá cortar com a mesma faca -- que quanto mais cega melhor -- mastigar a sua carne enquanto ele agoniza até morrer, ouvindo sua voz celestial cantar "Oh Susanna, don't you cry for me/ I come from Alabama...".

Você se pergunta, E a foto acima com isso?

Laringite.

E,a,p'

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Reflexão


Tem certos dias em que a gente acorda com aquela vontade meio inconstante de não falar nada e falar, de não olhar pra nada e olhar, de dizer que não vai e ir, e assim por diante.

O problema é a reflexão.

Vez por outra eu me pego refletindo em não refletir, e acabo chegando a conclusão de que, como disse Amarante, "não te dizer o que penso já é pensar em dizer". Não querer refletir é refletir sobre a não-reflexão. Pior é que nem é complicado, é simples, direto, e é um ciclo vicioso.

Dois dias atrás estive assim, eu, José da Silva Sousa e não sei mais das quantas de sobrenome, sem conhecimento, sem documento de identidade, sem fotografia que me deixe relembrar, me peguei pensando na vida, nos caminhos descruzados, de braços largos que ela me forneceu sem que eu pedisse, e me dei conta de que ela tem mania de me jogar na cara muita coisa e dizer, Vira-te, como fosse fácil isso.

Se vida fosse vida, janela fosse apenas uma janela, tudo seria bem mais simples... Mas há o ser e o nada, há a coisa e a não-coisa, há muito em que se refletir... E vez por outra meu corpo chamava, Ó José, por onde que você anda que não volta pra me viver?, ele perguntava, daí eu voltava, com enxada na mão, sem remédio. Mas se a coisa fosse simples, eu pensei depois, talvez não tivesse eu onde estou. E de repente o lampejo bateu como uma pontada forte, e vi coisa de cinco ou seis coisas que eu gostaria de nunca ter visto, que eram todas à cheiro de morte -- esse cheiro amargurado, pesado e fedorento.

Enxugar o sol da testa é que era remédio.

Fui à jantar em casa, com um buraco no estômago, cheio de fome, e vi o prato de comida, mulher sem sorriso, o filho conversando criancice, que não é nada e tudo, e  cachorro com rabo abanando mosquitos, na porta de casa. E a casa nem é minha, eu não tinha parado para perceber que em sete dias por semana, em sete longas horas diárias eu nunca parava para perceber que era absurdo chamar de meu um teto que não é, nunca foi nem será. E a mão foi a testa, aos olhos, que molharam o arroz copiosamente, mas, sem que ninguém percebesse, enxuguei-os de relance, com mão aberta, e recompus minha figura. 

-- Que foi pai?
-- Num foi nada, menino. Vai jantar.

Se eu não tivesse parado para refletir, se eu não tivesse parado, se eu não fosse eu! Não se dá direito a pensar o homem, não tem o direito de pensar, de refletir sua condição, que o que é forte, esmorece, e então, é implosão, coisa de se sentir dó, que homem chorando é coisa mais desalentadora que nunca já se viu. Vi meu pai chorar uma vez, uma de tristeza, outra de dor, nunca outra vez, e aquilo nunca saiu da minha cabeça, pois eu sempre achei que homens não choravam, heróis não choravam nem sentiam dores. Mas... Heróis? Quem falou neles? Quem os inventou? Deus?

Ora, a resposta é uma coincidência.

E,a,p'

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

-


Sinceridade é iludir a si mesmo de que a verdade é sempre a melhor solução.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

-

A cada segundo que passa eu sinto menos interesse pelos próximos que virão.

domingo, 23 de outubro de 2011

Nutshell - Alice in Chains





We chase minsprited lies
We face the parth of time
And yet I fight, and yet I fight
This Battle all alone
No one to cry to, no place to call home...

My gift of self is raped
My privacy is raped
And yet I find, and yet I find
Repeating in my head
If I can't be my own, I feel better dead...

[Layne Staley/Jerry Cantrell]

Concretude



Eu desafogo minha mágoa com o desgosto das horas mortas
que perpassam pelas minhas pálpebras.

Eu fecho estes olhos doídos de terra entre eles
para que não doa mais que já,

entretanto, a cabeça não deixa passar impune
toda a dor inconsciente que se revela
nas páginas e nos jornais televisionados.

A concretude com que se me mostram as coisas
é de pedreira cruel, é de voraz desejo de me despir
de minha vaidade de poeta.

Eu fecho os olhos cegos e brancos e lúcidos,
eu fecho os olhos malditos que são reais, pegajosos
e duma imensidão colérica e seca -- mas não fujo:

não hei de fugir, como fizeram um dia,
diante da progressão do monstro tentacular.
Eu encaro frio e abro os braços para a sua pólvora e seu enchofre.

E,a,p'

sábado, 22 de outubro de 2011

Para morrer é que se nasce



Mania de trancar as portas, aquela, e aí, todos sabiam que ele estivera a enlouquecer. Entretanto, aquele rapazote era aquele de se faltar sorte. Poderia ter qualquer idade, melhores tempos, entretanto, sentado, com cara de desprezo para a rua. E não cansava de repetir para si mesmo que a vida que levava era a mais próxima da segura. No entanto, fora uma contradição, como todo homem que se preze.
Ao mesmo tempo em que conservava sua vida, como conserva-se uma sardinha numa lata, resguardava um pseudo-desprezo por toda a existência mundana – pela sua própria inclusive. As pessoas o viam, e tinha um certo dó de sua condição. Mas ele mantinha intacta aquela sua ideologia cruel de nunca levar para o pessoal os roubos, nos dizia, resignado, que aquela era a sua condição. Vivia numa tristeza de dar dó, achava ainda aquela justificativa para o seu azar... Falava de Jorge Amado e de seu Capitães da Areia, da maneira como pôde enxergar claramente a condição daqueles que estavam por baixo da camada social. Nós ali, ah, nós nada de livro. Tinha tanta coisa na vida com que se preocupar...
Contava vantagem, contava anedota. Tinha gosto de usar as palavras mais rechonchudas que conhecia – dava vontade de mordê-las – para contar seus doze casos de assalto, dez dos quais à mão armada comprovada pelos olhos que a terra um dia ia de comer. Fazia rir a todos, e punha aquela xícara inseparável ali ao seu lado, café ali. Sua mãe olhava-o de soslaio, enquanto costurava, tricoteava ou assistia.
Era uma figura aquele rapaz. Pena ter morrido em casa, depois que escorregou num carro de controle remoto do irmão e caiu com o pescoço em cima da quina de uma cadeira e, com a faca que cortaria o pão, enfiou-a no peito, um tanto quanto contrariada, sua voz ainda dissera, segundo sua chorosa mãe, que o destino do homem é inadiável. Morre-se, por isso se nasce.
Deveria ter perguntado a ele por que o homem se reproduz – mas o seu pseudo niilismo me diria que reproduzir-se é uma opção dos fracos e dos proletários... e me fariam bem suas palavras, assim, soltas como que a contar anedotas de marginais que contra ele impunham suas vontades, vícios – e no fundo quem se viciou fui eu, em ver aquela xícara entre seus dedos.
Sentar na esquina é tudo que se há de fazer.

E,a,p'

Os Felas Interativos e como Mardem mudou o "Morreu, morreu!"...

Johnny Knoxville, do Jackass: isto não foi um acidente...
Entre nós, havia, aliás, há, do presente do indicativo, uma tradição muito maldosa que é a de avisar quando o mal chega quando ele já está inevitável sob os gritos de "morreu, morreu!", o que chateava alguns dos nossos mais prezados companheiros... Bem. Esta história não começa por aqui.

Na verdade, voltemos ao Mardem, nosso querido Vaca. A história é a seguinte. Theo, Gilciêr, Mardem e Raul num belo dia, assistiram ao filme do Jackass, que para quem não conhece, são alguns idiotas fazendo idiotices, como por exemplo, cheirar wasabi, acertar os próprios testículos com bolas de sinuca, deixar que o chutem para testar um protetor genital, entre coisas mais do tipo, que cito apenas os que o horário e o meu estômago permitem. O problema é que eles esqueceram de assistir o começo ou o final do filme que contêm em letras garrafais mais ou menos assim:

"É PROIBIDO, PARA SUA PRÓPRIA SEGURANÇA, QUE NENHUM DOS ATOS PRATICADOS NESTE FILME SEJAM REPETIDOS POR VOCÊ OU QUALQUER UM DE SEUS AMIGUINHOS IDIOTAS."

É mais ou menos essa a cara de
alguém ao dizer "morreu, morreu!"
Bem, com exceção do "idiotas", eles seguiram a risca tudo isto, e puseram um palavrão muito em voga naqueles tempos na boca do Theo, o líder inconsciente (ele e os outros) dos Felas, que era o "fela da puta", que "fela", é uma variação cearense, mais para o lado da Caucaia, de "filho", entretanto, em "filho", apenas, a variação dá em, no máximo, "fi" (veja por exemplo o caso de "meu filho": "meu fi"/"meu fio"/"mo fí", etc.), daí, se alguém te chama de "fela", pode ter certeza: é "filho da puta" mesmo -- para isso me serviram as aulas de fonologia e sociolinguística. E decidiu: vamos nos chamar Felas.

Entretanto o aparato hollywoodiano é bem maior, e todos os Jackass com certeza têm seguro de vida e plano de saúde -- coisa que nós, (risos), não tínhamos -- no máximo, tínhamos plano funerário, que cobria apenas danos aos dentes.

E por este motivo todo mundo tinha medo de se dar mal e quebrar os dentes, os ossos, se machucar gravemente, o que contribuiu para que a investida no universo digital na rede internacional de computadores dos nossos colegas fosse um tanto quanto empobrecida e trash. Na verdade era muito feio de se ver mesmo, creia em deus pai... O único que estava se lixando pra sua saúde era o Mardem, que resolvia o caso se jogando de cabeça (literalmente, às vezes) nos vídeos.

E se jogava do skate, deixava que o derrubassem, quebravam cabos de vassoura no pobre diabo, acertavam lâmpadas nas costas dele, derrubavam-no do segundo andar, e tome voadora, e tome porrada, murro na cara, chute... Nesta época, precisamente, os Felas se vingaram de muitas surras que levaram do Mardem.

Entretanto a febre de vídeos baixou, e não saimos (sim, eu participei de dois -- por sinal os últimos) da terceira edição -- diabos, que vergonha do caramba...

A febre dos vídeos baixou, não a do Mardem, que parecia que vivia convulso duma febre imposta por satanás nos seus couros. E vivia ainda se jogando, enfrentando a morte com a sua loucura -- indo inclusive, de encontro com a confusão dos torcedores rivais quando eles voltavam, o que lhe rendeu uma pedrada.

Um dia, não contava ele, andando de skate, que iria ser atropelado. Só ouviu o diabo do "morreu, morreu!", e quando viu o carro de Enéas, A Máquina de Fazer Sexo/ Billy, The Kid/ Highlander/ Ídolo da Juventude/ O Filho do Demônio, lhe atropelou de marcha ré. Os rapazes ficaram preocupados, que ele havia se estabacado no chão feito um pacote, e levantaram-se pra ver.

Mas ele não morreu. Não é trágico.

Enéas saiu do carro, bêbado como sempre, e perguntou se ele queria beber, entende-se aí a preocupação de Enéas.

Mas o melhor, depois da gargalhada assombrosa da rua, foram as primeiras palavras de Mardem, ao se levantar,

-- Vocês filmaram? Vocês filmaram?

Foi nesse dia que o "morreu, morreu" foi precedido do "vocês filmaram?", e Mardem, mesmo sem saber, mudou o rumo desta história, que não mudará nada na vida de ninguém.

E,a,p'

sábado, 15 de outubro de 2011

-

O que mais irrita às pessoas é que somos exatamente quem somos - e não o que elas desejariam quem fôssemos. Ser o que realmente se é, é o primeiro passo para sentir-se livre, que controle nenhum segura esta nossa vontade animal de Ser.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Um Silêncio Ecoa

Gatinha de rua. Bica Lisboa
Fotógrafo: Rui P.
A rua tem estado um pouco mais deserta
talvez pelo movimento escasso de certos senhores
e o mais provável é que não nos lembremos,
no dia seguinte, da falta que esta tranquilidade faz

tanto nos comprazemos de sua inquietude rotineira...
gargalhadas bigodudas e embriagadas...
balidos, e qualquer outra variação
que me atrapalham o som da tevê no domingo.

Um filete de sangue deveria ter lavado,
desde um canto da calçada à outra ponta.
Passaria por minha casa, daí então eu lavaria minhas mãos
para tudo, para todos...

Quando de um dia eu tiver deixado este sentimentalismo tolo
eu talvez vá chegar a ser tão vivo quanto o asfalto quente
que dia após dia, alguns senhores têm beijado.

Eu recolho a cabeça entre os travesseiros
procuro sossego em meu sono --
eu preciso tanto dormir, não apenas fechar os olhos.
Amanhã será um novo dia de inquietações, 
e eu preciso estar vivo.

E,a,p'

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sujeira e raiva - Fotos de Charles Peterson

Nirvana, Motorsports Garage, Seattle, 1990 -- Charles Peterson
Essa é apenas uma palhinha do que guarda o site do ex-fotógrafo oficial da Sub Pop -- consequentemente do grunge -- na sessão "touch me i'm sick" (trecho retirado da música de mesmo título da banda Mudhoney). Lá podemos ver o quanto de raiva, sujeira e honestidade o rock noventista pôde nos oferecer -- nada do rock technicolor que faz mal a quem tem astigmatismo hoje em dia...

Outra de minhas fotos favoritas:

Endfest, Kitsap, WA, 1991 -- C.P.


sábado, 8 de outubro de 2011

Sete Pecados

(Na falta de uma foto com bolada nas costas
uma na cara faz um efeito no mínimo parecido)
Afonso é o mais cafajeste dos felas. Não digo isto em falsidade tremenda, porque ele sabe, se vangloria e ama ser assim. É certo que não nasceu assim. Precisou ainda encaliçar muito o couro para ser o que é. E se existiu na face da terra uma máquina de fazer gente sem futuro, essa máquina era movida a duas mãos, ossos expostos e muitas, mas muitas espinhas. Seu nome é Theo. Francisco Estéfano, descendente direto dos Gomes, lá da Caucaia -- não poderia ser pior.

Existe um caso rápido que vou contar antes de adentrar em Afonso, mas que vale a pena ressaltar. Sal, irmão de criação de Mardem (sim, sim, aquele mesmo que almoça com Kurt Cobain), quando chegou era o mais próximo que tínhamos na Rua Betel de um nerd bem comportado. Foi só enturmar-se com "o bando" do Theo, que se tornou um capeta que xingava a mãe no meio da rua pra todo mundo ouvir, quando ela disse assim,

-- Sal, seu filho da puta! Eu vou te matar! Vou botar veneno na tua comida!
-- Bota, sua rapariga! Bota!

Enfim, existe outra história, que tem a ver com uma repetição nojenta de "fish, fish, fish" de um filme pornô que hoje eu não tenho coragem de contar.

Mas voltando a Afonso, este infeliz sempre fora um azarado, um saco de pancadas até atingir a sua atual estatura, de 1,84 metro. Hoje, claro, ninguém faz mais o que um dia fizeram com ele. Mas quando de sua juventude, chacota era pouco para o que sofria. Uma dessas era a brincadeira dos Sete Pecados.

Você já brincou de Sete Pecados com certeza. Se não, resumo grosseiro: o nome de cada um dos participantes no chão, e cada um joga uma pedra. Aquele que receber maior número de pedras no seu nome pagará os Sete Pecados. Digo assim, mas nem sei se o é. A parte das pedras e da bolada nas costas é o que interessa para a história.

Theo, sem vergonha do caralho, ia lá no nome do desgraçado do Afonso e pegava um punhado de não sei quantas pedras e jogava no nome dele sem que ele percebesse isto. Quando ele dava por si já tinha mais pedras no seu nome que o número de participantes. Chorava, o pobre velho... Mas fazer o quê, era o jogo, e ainda tinha a pressão do Theo:

-- Bora fela da puta, deixa de ser chorão! Vai peidar pra dentro?

Na hora de pagar os Sete Pecados, existe uma linha, de mais ou menos uns dois metros de distância do alvo, no caso o Afonso, que tinha que ser respeitada.

Mas aquele era o Theo, senhoras e senhores! Lá ia ele perder a oportunidade de meter a porrada no Afonso? Não era todo dia aquilo, e se tinham esses dois metros, ele reduzia essa distância para no máximo dez centímetros e acertava as costas do Afonso que se torcia que nem sapo com sal grosso na pele.

-- Égua mã, vou mais não...
-- Covarde!

E ficava nisso. Unindo o útil ao agradável, no final das contas, Theo transformou Afonso no homem que é hoje... Não é lá muita coisa... É certo que a custa de muita bolada e trapaça -- mas quem se importa? é só mero detalhe...

E,a,p'

Desintoxicando o Onírico Pelas Mãos do Engenheiro


[Sem nome nº 12]

"Pesadelos que perpassam
pelas pálpebras inquietas
do fundo escurecido
de minha memória
revelam..."
.
.
.
"Em densas noites
Com medo de tudo
De um anjo que é cego,
De um anjo que é mudo."


João Cabral de Melo Neto
Poema de Desintoxicação



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

[Sem Nome]

(nº 15)

É em tua sofrida vertigem
que consigo enxergar
a minha monumental patetice

e o resto é só uma ilusão
interposta de certos comentários irônicos
que a tua mente cuida de criar

e fazer da nossa cidade, esse céu amontoado de fogo pálido
que há de queimar a alma dos infelizes.
.........................................................................................
[E eu tenho quebrado meus dedos
mutilado seus nós,
tentando calar minha mente
que fala pelos cotovelos.]

E,a,p'

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma Mentira


Eu estive triste por muito tempo. Mas nem por isso me dei por vencido. A todo instante sou tomado de uma punção de que me move lento e contetado -- tentado, eu dizia? -- a fazer o que se tem que fazer. É por isso que eu escrevo. Eu escrevo como quem espera salvar alguma coisa com isso -- talvez a mim mesmo, talvez a própria esperança de salvação.

Mas não há volta: uma vez escrito, o escrito não morre. Se mata o escrevente, insistente na sua tolice, ele sim, vai para o inferno, e lá ainda está a queimar e esturricar, conquanto seus escritos, estes não: permanecem como o estigma fixado à ponta de caneta, que não o salvou, apenas fez com que talhasse fundo em sua (agora peço desculpas por usar esta palavra que não uso nunca), com que talhasse fundo em sua alma. Almas mortas são as de todos os que se fazem escritores, o que penetram nesta floresta densa de ramificações -- palavras, sentimentos. Se se escreve para se salvar algo, eu ainda não soube o que. 

A mim ainda não salvou, nem há de salvar ninguém. E eu não espero que salve, que eu não sirvo para demagogia, tampouco auto-ajuda. Eu sempre estive à margem da salvação mesmo -- uma espécie de anti-auto-ajuda; uma espécie de escrito para a morte, e a descrença... Que se há de fazer com a vaidade das mãos?

Fico, fico e fico a perguntar... No final, que resposta que há, senão aquela parede de tijolos vermelhos furada em cada ponta, no meio -- e no meio -- nada. O cimento, concreto, confuso, estridentemente silencioso, que essa (perdão por mais uma palavra que não uso), que essa coisa, essa tal "verdade" das coisas é difícil de cavar. E para descobri-la é preciso primeiro saber sobre si mesmo -- a busca do interno universal, sabe? E meu corpo tem sofrido as dores da alma, as dores da maldita alma... O sintoma mental tornou-se físico, tedioso, horrível. Fardo duro de se levar nas costas: ser o que não se é -- e todos a te confundirem, enquanto você rasga, dilacera, escancara a feiúra de sua existência, e não é uma auto-piada, e não é um humor negro. A seriedade vai-se embora, e nada fica realmente resolvido depois que as pessoas veem a sua beleza de morte-em-vida.

Na verdade, isto acaba aqui.

E,a,p