canto um canto descontente
por minhas derrotas diárias.
é dura a batalha do despertador
com a vontade de fechar os olhos
e imaginar ou viver onde
orfeu estende seu lençol de estrelas.
mais dura é a batalha do espelho,
que reflete três pontos distintos na linha do tempo:
o presente,
onde as luzes refletem minha carne escura,
meus olhos puxados,
as cicatrizes e as marcas de cigarro;
o passado,
que é a imagem envelhecida refletida, depois das luzes,
com toda a fadiga desses anos;
o futuro,
que é para onde convergem todos os movimentos
e deles se esvaem o cansaço do tempo que escorreu.
de todas as maneiras,
a batalha é árdua,
e custa ver neste espelho um corpo
que já viveu mais de duas décadas.
a última batalha do dia
é a realidade que corta feito uma navalha há muito amolada
com os excessos do tempo a ferrugem corroem
e da carne desce o líquido viscoso, antes de penetrar na carne
e, só aí, vir o sangue.
queria chorar menos
as horas
que não podem voltar,
entretanto,
queria chorá-las até que enfim
nalgum ponto dentro de meu corpo
doesse o ínfimo dessa insuficiência que me causa
ser o guerreiro de tantas batalhas --
das quais nenhuma safo-me vencedor.
eu só queria pedir desculpas
pela raiva que sinto
da vergonha que sinto
de ser triste
mesmo quando tudo parece tão completo.
talvez seja esse meu sangue lusitano-hispânico-balcânico
que tenha lírica sofredora
de tantas batalhas
e os queixumes do banzo que aqui se mistura
com o sangue dos índios mortos
de tantas batalhas,
[genocídios]
mas deus,
como disse um companheiro
"para que tanta batalha
cê é um amante
não um guerreiro?".
sábado, 12 de dezembro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
aliens (i, ii e iii)
olho para a vida como quem observa o fim do dia,
toda tarde se aurora o sol, coroa a noite,
num roxo-alaranjado-azul de nuvens cinzas,
e cresce por trás a lua, e dá a sua volta de 90 graus
entornos do nada,
rasga a malha do universo,
deixa apenas o reflexo da existência da morte,
quando vem a morte
a lua se vai, para aurorar em outro lugar --
mas a vida é assim para mim, que quando chega a madrugada
ganha ares de viver mais,
de pensar mais,
de se sentir mais à vontade
dentro do corpo em que fui condenado viver,
refletindo sobre a morte, a vida,
ou o que quer que seja,
enquanto a poeira do cosmos
recobre meus cabelos, e os seres interestelares,
de vida tão primordialmente superior,
vão tecendo os caminhos pelos quais
ninguém precisa atravessar o caminho de ninguém.
-------------------------------------------------------------
observo o mundo
o mundo me observa
nós sabemos tudo um do outro
e ao mesmo tempo nos desconhecemos
eu sou só mais um,
mas existindo inexisto,
o mundo é ele todo,
nas páginas dos livros,
diante dos meus olhos,
o mundo é azul pequeno,
mas nesse quarto ele parece infinito,
e eu não posso nem ao menos tocá-lo,
fazê-lo meu, pois que não sou parte dele,
e nem de outro mundo, mas não sou uno,
como eu, outros aliens andam pela terra,
unidos em suas unidades,
unidos em seus egoísmos,
acabados em seus começos,
condenados em seus concebimentos,
julgados pelos seus julgamentos,
os aliens se dirigem aos seus quartos,
descrevem palavras ininteligíveis,
sem formas aos olhos mundanos,
tão fracos, tão fortes,
tão vivos, tão mortos.
quando formos carne,
união de toda forma,
os cães uivarão para a lua,
e saberemos que a hora é aquela
meia-noite eterna
para os seres que não dormem
conquanto se deslumbram com a mais boba ideia.
------------------------------------------------------------
abandonei-te um pouco,
como sempre faço nas vezes em que tenho
que purificar aquilo que chamamos
alma.
mas saiba já que viajei um pouco dentro
do que fui chamando de praticidade,
pelo peso que em meu peito rasgava
dizer cada uma dessas coisas
que sempre digo
quando quero te maltratar -- me maltratando
sempre
no final.
mas não há final,
porque sou feito de extenso oceano,
silencioso
e horrível
na face dos peixes abissais
iluminando a escuridão
apenas para afastar os que ousam aproximar-se
do sentimento cego que vagueia pela imensidão
sentimentos que raramente veem a luz,
apenas quando enquanto em flama
queimam ardentementes
no vácuo e sem dor
sem oxigênio
não há fogo
apenas o sentimento,
o flutuar das vozes
que sempre estão aptas
a dizerem o que há no meio
de tudo o que há.
sou alienígena
sem lar
sem planeta
sem sol
sem lua
sem água
cultivando um câncer
a cada turno de morte
a preço de salário.
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terça-feira, 8 de setembro de 2015
de si para si (momentos mornos)
dos bons momentos
quero o pudor de não sabê-los
e deixá-los tenros,
descansando mornamente em apenas estar
em banho-maria, esquentando o frio esquento,
para a delicada delícia de saborear
depois
o que outrora fora estrago,
o que outrora fora esmiuçar o que se pôs,
mas é que na hora
a gente não toma tento
do momento
e ele fica assim desatento por si mesmo
como se desejasse
ser mais que mero elemento
do agora,
gerundismos,
e eu me perdoo,
por ser intertexto,
mas há coisas que tomam forma
no momento em que são feitas.
quero o pudor de não sabê-los
e deixá-los tenros,
descansando mornamente em apenas estar
em banho-maria, esquentando o frio esquento,
para a delicada delícia de saborear
depois
o que outrora fora estrago,
o que outrora fora esmiuçar o que se pôs,
mas é que na hora
a gente não toma tento
do momento
e ele fica assim desatento por si mesmo
como se desejasse
ser mais que mero elemento
do agora,
gerundismos,
e eu me perdoo,
por ser intertexto,
mas há coisas que tomam forma
no momento em que são feitas.
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sábado, 18 de julho de 2015
suindara
nem sempre fui assim rude,
endureci-me pelas pedradas,
pela pedra fiz poema e alimento
para a vida inteira,
sentindo o profundo das coisas
mesmo na densidade absoluta
das colinas
que tocam o céu e as nuvens
encravadas no chão,
não menosprezei nada.
nunca.
perdoai a praga primeira de minha boca,
perdoai meus pecados,
meus ais,
meus vis instintos de carne,
perdoai também o que sequer se possa dizer
pecado.
a coisa mais ínfima,
dentro da psiquê
que sequer sente culpa,
perdoai, pois,
sei bem que delas
tudo se pode sangrar,
conquanto meus dedos entranhassem assim,
vulgares,
em corpos e orifícios,
saber sagrado
o grande cu
e a santíssima buceta:
eu nunca me atrevi a me atrever.
mais que a língua se umedeça
e de tudo não mais meu corpo se apeteça
porque disso não me entumeci
até o último fio de cabelo
da manteiga e da gordura
num banho para o abraço.
quando o céu virar um mar de fogo sobre nossas cabeças
saberão que antes de tudo
antes de ser o sacro
o corpo era vil
e o enxofre que cairá sobre todos
não distinguirá
bom de mau,
por isso digo,
que como a montanha,
sou encravado no céu,
e toco a terra,
como o pequeno demônio
encravado em teu ouvido
sussurro palavras obscenas
camufladas de amor eterno,
mas nunca fui assim tão derramado,
antes,
muito antes disso,
eu era pedra
e ela fez de mim poema, verso,
multiverso.
endureci-me pelas pedradas,
pela pedra fiz poema e alimento
para a vida inteira,
sentindo o profundo das coisas
mesmo na densidade absoluta
das colinas
que tocam o céu e as nuvens
encravadas no chão,
não menosprezei nada.
nunca.
perdoai a praga primeira de minha boca,
perdoai meus pecados,
meus ais,
meus vis instintos de carne,
perdoai também o que sequer se possa dizer
pecado.
a coisa mais ínfima,
dentro da psiquê
que sequer sente culpa,
perdoai, pois,
sei bem que delas
tudo se pode sangrar,
conquanto meus dedos entranhassem assim,
vulgares,
em corpos e orifícios,
saber sagrado
o grande cu
e a santíssima buceta:
eu nunca me atrevi a me atrever.
mais que a língua se umedeça
e de tudo não mais meu corpo se apeteça
porque disso não me entumeci
até o último fio de cabelo
da manteiga e da gordura
num banho para o abraço.
quando o céu virar um mar de fogo sobre nossas cabeças
saberão que antes de tudo
antes de ser o sacro
o corpo era vil
e o enxofre que cairá sobre todos
não distinguirá
bom de mau,
por isso digo,
que como a montanha,
sou encravado no céu,
e toco a terra,
como o pequeno demônio
encravado em teu ouvido
sussurro palavras obscenas
camufladas de amor eterno,
mas nunca fui assim tão derramado,
antes,
muito antes disso,
eu era pedra
e ela fez de mim poema, verso,
multiverso.
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temporal desiludido
não é que o tempo seja absurdo
o absurdo do tempo é que ele é.
sem mais nem menos.
ao certo descobriu-se incerto
mas na incerteza se fez dialogar
tão são de todo o destino
que nunca mais quis olhar para trás.
como o tempo, levo a vida.
sempre para frente,
sempre incerto na certeza,
mas cheio do vigor
de quando deu-se
o derradeiro fiat lux.
"agora, amanhã e para sempre, amém."
foi a santíssima trindade que criei
para que quando dúvida,
lembrar sempre do tempo
e dos seus pés descalços
que carregam consigo
em suas costas,
o peso da eternidade.
o absurdo do tempo é que ele é.
sem mais nem menos.
ao certo descobriu-se incerto
mas na incerteza se fez dialogar
tão são de todo o destino
que nunca mais quis olhar para trás.
como o tempo, levo a vida.
sempre para frente,
sempre incerto na certeza,
mas cheio do vigor
de quando deu-se
o derradeiro fiat lux.
"agora, amanhã e para sempre, amém."
foi a santíssima trindade que criei
para que quando dúvida,
lembrar sempre do tempo
e dos seus pés descalços
que carregam consigo
em suas costas,
o peso da eternidade.
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