sexta-feira, 23 de março de 2012

Valsar Deitado


Éramos, por assim dizer, metade amantes, metade incestuosos irmãos. Suas lágrimas, nem todas doces, algumas amargas, eu engoli todas, e da sede que me deram, foi que tomei coragem para leva-la ao meu leito, e ali, deitados, meu divã, ouvi-a, ela me ouviu, e por instantes, estes, que duram tempos que não se medem no relógio dos homens, ela me amou e tem amado com tamanha constância que meu peito arfa como fosse eu aquele jovem Proust asmático.
Caralho... Como eu gostaria de poder ter na língua essas palavras, mas, que acontece, é que, no movimento de lábios, a procura doida dentro um do outro, meu corpo só se sabe falar por signos não linguísticos – o que dizer dos instantes infinitos, onde,  eu, extasiado , contemplava teu rosto, e por fim, minha língua tinha o trabalho lento e delicado de conhecer cada ponto entumecido de doçura na carne de teu lábio – ah, o portão belíssimo de tua candura, esse sorriso, o salto triplo no vácuo, a joelhada certeira na cara, tudo do mais doce impossível dos prazeres, as coisas que eu jamais teria descoberto sem a paciência do amante oriental que sou.
No mais, o corpo é a parte mais engraçada de tudo, pois que não é que nos enxergamos pequenas crianças na descoberta boba dos sorrisos enrubescidos de curiosidade e vergonha. Shy. Já chegaste vez na vida a reconhecer que mais bela palavra pra definir aquele momento? É algo assim como o zumbido elétrico e sussurrado das guitarras do My Bloody Valentine – aquela transa sexual deles, mesmo que também vermelha de timidez, olhando o cadarço desamarrado dos sapatos, essa coisa sem sentido – aquelas pobres crianças indefesas e infelizes, como nós, atordoadas em meio ao som branco dos segundos sem cor, sem som, sem nada.
E quanto que digo, meu bem, que isto tudo, é só uma parte do todo que já chega, chega já, ao som de um carinho a passar todo dengoso, naquela sala, naquele quarto, nas cozinhas e às vezes, um banheiro. A brincadeira da cócega que queima à fogo frio de dedo molhado, sei que enraivece, mas, é de se encantar, ver o sorriso surgir, mesmo que de livre e espontânea pressão. Não te enraiveça nem entristeça – é só guardar na memória que, mesmo que para o mal, funciona o tempo inefável em favor das coisas boas.
E, bailemo-nos, que, sei desde antes, que foi tu quem me ensinou a valsar deitado, e quando de pé, minha paspalhice é maior que a de Graham Coxon naquele clipe da moça do vestido vermelho – da qual tu roubaste o encanto para me atordoar por dias e dias, esse estender-se perpetuando por semanas em minha memória, e, aí vai tua pele trigueira, me chacoalhando o peito...

eap

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