sexta-feira, 29 de junho de 2012

imitação da vida

quando ele me ligou logo pensei, "carente. só me liga assim". mas, cê sabe a boba? a imbecil aqui? pois é. eu nunca soube dizer não até o dia em que ele finalmente me abandonou. sofri; relutei em admitir desde o fim até o sofrimento. o banheiro, esse cenário de novela, água e lágrima, corrediça entre as pernas. uma minha vontade, de, ah, amar -- afinal porque eu que o tinha tanto no peito não o merecia? saciar mesmo, sem remédio. mas essa cama grande e vazia... sofá, uma semana. engordei uns quilos, comendo enquanto assistia filmes antigos de madrugada, era eu ali, chorando no sofá ou era o retrato da insônia? me maquiei, fui ao mercado, quem vejo? ele, comprando carne. como sempre, os piores pedaços. ele tinha que aprender, por isso vi e não disse nada. me sorri amarelo, lhe sorrio roxa, sem medo. pergunta pouco, digo-lhe muito de amigas que não mais tinha visto, de lugares nunca mais visitados, alguns outros que conheci. ele sorri morto, enterrado. eu flerto fácil, blefo, não sei com que forças, e ele cai. o carrinho empurrado, a gente se vê, tomar um café, quem sabe, sugiro, cê sabe, que pode vir quando quiser. e vai. à noite, ele liga, eu estonteante, aumento o volume da tevê no canal de música, finjo não ouvir, ele diz que liga mais tarde ou amanhã. sento no sofá, desenrolo os cachos, rio, danço, cortejo meu par no ar -- essa imitação da vida.

eap

2 comentários:

Lucianny Motta disse...

Pulou os muros e invadiu a privacidade do lar, do meu lar, do meu corpo, da minha alma e descreveu tudo tão detalhadamente que o nó na garganta chega ser um mero detalhe.

Eliézer Araújo disse...

juro por deus que não vasculhei nada na sua vida. é essa tal busca do universal clariceano, mexe com tudo :)

Volte sempre!

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