domingo, 20 de novembro de 2011

Asas

Broken Wings - Antônio Callomeni
Andava sozinho pelo centro da cidade, quando vi algo que assustou absurdamente aos que por lá passavam comigo, que foi a imagem de um homem voando. Todos pararam estupefatos, observando suas asas plumosas assomarem e galgarem as árvores, cheias de esplendor. Subiu até o alto, e quem estava andando comigo lá ficou a observar o anjo charlatão. No chão uma boina, que, acompanhada da chuva abundante que caía do céu naquela tarde nebulada de terça, era encharcada de moedas e cédulas de variados cifrões, palmas que explodiam às acrobacias do homem, que se vangloriava por ter consigo aquelas asas. Eu rio condoído. Saio caminhando pelas ruas do centro, aquelas árvores da praça do Justiniano de Serpa, a Filgueiras de Melo, onde, logo à frente a multidão se acumula. Eu tento não olhar, mas o infortunado rapaz alça um voo mais rasante e passa com suas asas rente à minha cara, fazendo com que eu me virasse e visse o espalhafato da multidão que me olhava rindo. Balancei a cabeça sozinho, pus as minhas mãos no bolso, em busca de um calor, embora eu gostasse do frio, e não usasse guarda-chuvas. E fui, caminhei até a outra extremidade da calçada, e ainda até o Imaculada Conceição, contemplei o lixo à esquina e desci um pouco mais. As pessoas ainda gritavam, quando, cansado, e longe sentei numa calçada mais adiante e comecei, mais uma vez, a cortar as pontas de minhas próprias asas com um canivete, embora elas insistissem em crescer.

E,a,p'

1 comentários:

Raquel Rodrigues disse...

É é. Somos os vilões de nós mesmos. Auto-sabotagem.
Gostei do miniconto!

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