as ruas que andamos
existem
de outras formas
como antes fossem
fotografias recortadas
de um tempo que só segue em frente
tudo o que me move
é estar sempre indo
por mais que em momentos como esse
em que me vejo
revisitando o passado
eu crie muito mais
do que deveria
na verdade
há um carinho pelo meu próprio jeito
de ser ambicioso por tudo isso
mas, de verdade,
que o passado
é uma casa demolida
onde antes
não havia espaço para o futuro
é tempo de reformas
e, tudo o que importa
é uma janela
ampla
para tudo o que vem
sou um homem de desejos simples
de poucas palavras
de fala mansa
de pavio curto
e muito de um pouco de tudo - que é quase nada
e, só de ter
as paredes brancas de agora
impregnadas com o meu suor
e os mosquitos
com lorelei ao fundo
dormindo
já me vejo pondo os primeiros tijolos de uma nova casa
as primeiras palavras de uma folha inteiramente branca
sem esquecer que há uma lixeira com erros imensos
e garranchos que não vou mostrar a ninguém
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Disparate para N.O.A.
Queria te encontrar para dizer que estou feliz por ver que as coisas têm dado certo para você - sim, eu sei que estão, e você sabe que eu sei.
E, por incrível que pareça eu lembro dos nossos últimos momentos com certa amargura mas com um tom de misticismo que eu nunca entenderei como pude ter tido tanta certeza do que fazia. Porque, por mais que nos amássemos (e nos amávamos), sentia em meu peito que eu era um vírus para a sua vida.
Embora a cidade tenha ficado pequena demais para você, com todas as ruas dando de encontro para o seu rosto, é certo que retirar a única pedra de sustentação do teu caminho foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por você. Claro, que, ao falar isso posso estar dizendo que eu era para você como se fosse um deus - mas eu e você sabíamos e sabemos ainda que deuses não existem e eu também não me consideraria um.
Lembrei, enquanto me agraciava com tuas vitórias, da história do cara que chuta uma tal vaca do precipício, mesmo sabendo que essa vaca era a única fonte e sustento de uma família. Logo depois ele volta e vê que a família prosperou.
Diferente da família que não via um futuro pela frente, eu enxergava em ti todo o potencial que uma vez vi em 2009, quando éramos amigos, ainda na batalha - daonde o nosso amigo Metal está hoje em Novo México - e eu sabia que tudo o que fazíamos era um desperdício.
Não digo com isso que me arrependo. De jeito nenhum, a vida segue, e o máximo que podemos fazer é pegar carona nela.
Mas ao me chutar da tua vida rumo ao precipício, não posso deixar de crer que você cresceu e muito e grande. Era esse o estímulo que você precisava. E, claro, sinto muito se fui rude no modo como pus as coisas ou se nos momentos seguintes as coisas ficaram mal esclarecidas.
O fato é que, eu sempre serei um vírus - e não falo isso para me autodepreciar, é da minha natureza isso. Nunca fui a sustentação que eu mesmo precisei e me sentia culpado de não ser a que você precisava naquele momento.
Assim sendo, a única coisa que fica para a minha própria reflexão é saber o que preciso chutar de minha vida para que ela comece a dar certo?
Será que você sabe a resposta?
De qualquer maneira, em algum momento eu posso estar sendo o vírus de outra pessoa, mas eu não o quero ser. Só que desta vez, ao invés de refazer o que fiz, vou procurar a única saída possível que é obter o melhor que o esforço real por algo real é capaz de oferecer.
E é isso que você tem que eu ainda não tive.
Precisei esperar 26 anos para descobrir que até aqui viver não passou de uma mentira e que os planos de verdade vão começar agora. É o fim da letargia.
Nunca poderei dizer isso pessoalmente, mas sei que você sabe que pode me encontrar aqui. E quando estiver lendo isso, saiba que estou verdadeiramente feliz pelo rumo que a tua vida tomou.
E, por incrível que pareça eu lembro dos nossos últimos momentos com certa amargura mas com um tom de misticismo que eu nunca entenderei como pude ter tido tanta certeza do que fazia. Porque, por mais que nos amássemos (e nos amávamos), sentia em meu peito que eu era um vírus para a sua vida.
Embora a cidade tenha ficado pequena demais para você, com todas as ruas dando de encontro para o seu rosto, é certo que retirar a única pedra de sustentação do teu caminho foi a melhor coisa que eu poderia ter feito por você. Claro, que, ao falar isso posso estar dizendo que eu era para você como se fosse um deus - mas eu e você sabíamos e sabemos ainda que deuses não existem e eu também não me consideraria um.
Lembrei, enquanto me agraciava com tuas vitórias, da história do cara que chuta uma tal vaca do precipício, mesmo sabendo que essa vaca era a única fonte e sustento de uma família. Logo depois ele volta e vê que a família prosperou.
Diferente da família que não via um futuro pela frente, eu enxergava em ti todo o potencial que uma vez vi em 2009, quando éramos amigos, ainda na batalha - daonde o nosso amigo Metal está hoje em Novo México - e eu sabia que tudo o que fazíamos era um desperdício.
Não digo com isso que me arrependo. De jeito nenhum, a vida segue, e o máximo que podemos fazer é pegar carona nela.
Mas ao me chutar da tua vida rumo ao precipício, não posso deixar de crer que você cresceu e muito e grande. Era esse o estímulo que você precisava. E, claro, sinto muito se fui rude no modo como pus as coisas ou se nos momentos seguintes as coisas ficaram mal esclarecidas.
O fato é que, eu sempre serei um vírus - e não falo isso para me autodepreciar, é da minha natureza isso. Nunca fui a sustentação que eu mesmo precisei e me sentia culpado de não ser a que você precisava naquele momento.
Assim sendo, a única coisa que fica para a minha própria reflexão é saber o que preciso chutar de minha vida para que ela comece a dar certo?
Será que você sabe a resposta?
De qualquer maneira, em algum momento eu posso estar sendo o vírus de outra pessoa, mas eu não o quero ser. Só que desta vez, ao invés de refazer o que fiz, vou procurar a única saída possível que é obter o melhor que o esforço real por algo real é capaz de oferecer.
E é isso que você tem que eu ainda não tive.
Precisei esperar 26 anos para descobrir que até aqui viver não passou de uma mentira e que os planos de verdade vão começar agora. É o fim da letargia.
Nunca poderei dizer isso pessoalmente, mas sei que você sabe que pode me encontrar aqui. E quando estiver lendo isso, saiba que estou verdadeiramente feliz pelo rumo que a tua vida tomou.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
onde está a poesia que estava aqui
onde está a poesia?
um dia a tive
no peito,
hoje, só a tenho
nos livros.
um dia a tive nos momentos
mais singulares
hoje não a encontro
em lugar nenhum.
um dia a fiz,
outro dia,
apaguei.
outro dia tentei,
no mesmo dia,
fracassei.
onde está a poesia
que estava aqui?
já me perguntei,
já saí nas ruas a procurar,
perguntei aos meus amigos,
se em alguma rima
ela poderia estar.
mas não mais a encontrei,
a poesia está morta
em seu lugar, perto
de mim, putrefata;
hoje, tenho
contas
em seu lugar
tenho tudo
o que sempre quis
longe.
mas, se ainda há, não sei
mas se há, não a sinto ou tenho.
se ela não está
como podem existir
os versos de agora?
a poesia não pode morrer
sem que uma única vez
tenha vivido.
assim, como é,
tema de metapoema
a poesia é apenas
a junção de palavras
sem forma
sobre a forma
e a forma
- não se escrevem manuais de poesia
ela nasce
feita
sem escolha -
tudo o que ela era,
foi,
ou será,
acaba de ir embora.
eu não a matei,
tampouco a dei à luz,
ela simplesmente
criou vida,
tem RG e CPF
Título de Eleitor
CNH - a qual pegou a estrada
e deixou a porta aberta
e um ninho
vazio
mas se a poesia realmente existe
ela está escondida
mas ocupada
em rugas
concreto
num rosto sério
que nem se esperança
nem se desespera.
a poesia, meus amigos,
quando vem
não espera,
e é por isso que eu deixo
a porta sempre aberta
um dia a tive
no peito,
hoje, só a tenho
nos livros.
um dia a tive nos momentos
mais singulares
hoje não a encontro
em lugar nenhum.
um dia a fiz,
outro dia,
apaguei.
outro dia tentei,
no mesmo dia,
fracassei.
onde está a poesia
que estava aqui?
já me perguntei,
já saí nas ruas a procurar,
perguntei aos meus amigos,
se em alguma rima
ela poderia estar.
mas não mais a encontrei,
a poesia está morta
em seu lugar, perto
de mim, putrefata;
hoje, tenho
contas
em seu lugar
tenho tudo
o que sempre quis
longe.
mas, se ainda há, não sei
mas se há, não a sinto ou tenho.
se ela não está
como podem existir
os versos de agora?
a poesia não pode morrer
sem que uma única vez
tenha vivido.
assim, como é,
tema de metapoema
a poesia é apenas
a junção de palavras
sem forma
sobre a forma
e a forma
- não se escrevem manuais de poesia
ela nasce
feita
sem escolha -
tudo o que ela era,
foi,
ou será,
acaba de ir embora.
eu não a matei,
tampouco a dei à luz,
ela simplesmente
criou vida,
tem RG e CPF
Título de Eleitor
CNH - a qual pegou a estrada
e deixou a porta aberta
e um ninho
vazio
mas se a poesia realmente existe
ela está escondida
mas ocupada
em rugas
concreto
num rosto sério
que nem se esperança
nem se desespera.
a poesia, meus amigos,
quando vem
não espera,
e é por isso que eu deixo
a porta sempre aberta
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poema,
poemas medíocres
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
bom jogador
perdi amigos
mas não perdi
a vida
perdi empregos
mas não perdi
a vida
perdi amores
mas não perdi
a vida
perdi lares
mas não perdi
a vida
perdi o rumo
mas não perdi
a vida
a vida de percas
sem nunca
ter sido cheio
de tudo
de todos
tudo que perdi
eu peço de volta
mas diferente
como eu tenho sido
como eu quero ser
sem tantas desculpas
eu perdi
mas
às vezes
parece que ganhei
meu orgulho diz
lá dentro
como um quasímodo
que tudo bem
mas não,
minhas unhas roçam minha carne
e gritam
que eu perdi
embora vencer
nunca tenha sido meu propósito.
eu vejo olhares,
laras, isis, davids,
gabrieis, lucas, italos,
fernandos, robertas,
janes, isabelas.
pessoas que foram
que eu perdi
sem saber porquê
mas tudo bem.
afinal
a gene cresce
mas pra sair do lugar
perde
o firmo
e junto levamos
raízes.
para se ganhar
é que se perde
e se dói
de tantas formas
mas
esta sala,
esta casa,
estes livros,
tudo o que eu crio,
e todo o amor que eu preciso,
me fazem bem
e de tanto perder
eu começo a acreditar
que não preciso mais
de nada.
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soul II
tenho uma dor que não cessa
por mais que eu negue
e entregue
o melhor de mim
em tudo o que faça
tudo parece errado
terrivelmente errado
e quanto mais faço
mais desfaço
o que outrora refiz em traços
porque a palavra não é sempre minha
é sempre de outro lugar
pois que uma vez sendo
nunca mais teria razão de ser
e é por essa razão de ser e não ser
que ela rasga minha garganta
e toma as vezes
de um nó
que se desata
toda vez
que eu refaço
o que eu não consigo desfazer
revejo meus erros
e acertos
e acerto
como um erro
previamente calculado
para ser assim:
espelho sujo
espelho sujo
onde não tenho rosto
apenas reflexo
do que sou
sujo, sujo e sujo.
quanto tempo faz que na minha pele
sinto o odor do tempo
e temo
que nada disso seja físico
e sim
uma dor que não cessa
e se transmuta
em forma de monstro
que agarra meus cabelos
e aperta meus pulmões
toda vez que trago
para mim
o erro
errar é humano
mas
que humano erra
sem uma vez
ter tido a intenção de acertar.
errar é humano
mas me sinto bicho
e como bicho
não posso errar
como bicho
não posso me aceitar
errado
é por isso
que me desfaço
dos espelhos de banheiro,
dos retrovisores,
gumes
e câmeras
para fazer uma redoma de vidro
por onde talvez
todos possam me enxergar por dentro
como realmente soul.
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