Eu não te tenho,
porque nunca tive,
não te alcanço mais,
porque nunca te alcancei.
Eu não te respiro,
porque sou anaeróbico.
Eu sou antigo,
o mais antigo,
na rocha, na putrefação,
onde deitou, lavou, ficou.
Eu rastejo, anelídeo, anelar.
Estou à boca,
estou perdido
em meio a tubos dormindo.
Eu aguardo à sombra...
Quando de meus dedos eu tive prazer?
Apenas quando seguro trêmulo o gatilho
-- os dedos de um verme, se eles o tivessem.
Ai, que eu queria te matar.
Ai, como eu queria te morrer.
E enfiar minha cara em carne viva
num copo de cachaça,
esperar ferver minha raiva
a todo instante,
em brasa de cigarro --
queimar a pele, os dedos,
a unha, a língua e os olhos.
Como eu queria te morrer!
Matar em mim essa massa incessante
de glóbulos vermelhos, de plaquetas,
elas, que me curam feridas -- por que?
se no mais, é fim morrer?
Eu provavelmente não me morreria por isso.
Mas queria que você fosse degolado,
sem que eu soubesse,
até que um dia, eu acordasse,
anaeróbico,
comendo, lentamente,
cada parte do cérebro
para entender aí o que se passa.
domingo, 30 de outubro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011
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A cada segundo que passa eu sinto menos interesse pelos próximos que virão.
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domingo, 23 de outubro de 2011
Nutshell - Alice in Chains
We face the parth of time
And yet I fight, and yet I fight
This Battle all alone
No one to cry to, no place to call home...
My gift of self is raped
My privacy is raped
And yet I find, and yet I find
Repeating in my head
If I can't be my own, I feel better dead...
[Layne Staley/Jerry Cantrell]
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Concretude
Eu desafogo minha mágoa com o desgosto das horas mortas
que perpassam pelas minhas pálpebras.
Eu fecho estes olhos doídos de terra entre eles
para que não doa mais que já,
entretanto, a cabeça não deixa passar impune
toda a dor inconsciente que se revela
nas páginas e nos jornais televisionados.
A concretude com que se me mostram as coisas
é de pedreira cruel, é de voraz desejo de me despir
de minha vaidade de poeta.
Eu fecho os olhos cegos e brancos e lúcidos,
eu fecho os olhos malditos que são reais, pegajosos
e duma imensidão colérica e seca -- mas não fujo:
não hei de fugir, como fizeram um dia,
diante da progressão do monstro tentacular.
Eu encaro frio e abro os braços para a sua pólvora e seu enchofre.
E,a,p'
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poemas medíocres
sábado, 22 de outubro de 2011
Para morrer é que se nasce
Mania de trancar as portas, aquela, e aí, todos sabiam que ele estivera a enlouquecer.
Entretanto, aquele rapazote era aquele de se faltar sorte. Poderia ter qualquer
idade, melhores tempos, entretanto, sentado, com cara de desprezo
para a rua. E não cansava de repetir para si mesmo que a vida que levava era a mais
próxima da segura. No entanto, fora uma contradição, como todo homem que se
preze.
Ao mesmo tempo
em que conservava sua vida, como conserva-se uma sardinha numa lata,
resguardava um pseudo-desprezo por toda a existência mundana – pela sua própria
inclusive. As pessoas o viam, e tinha um certo dó de sua condição. Mas ele mantinha intacta aquela sua ideologia cruel de nunca levar para o pessoal os roubos, nos dizia, resignado, que aquela era a sua condição. Vivia numa tristeza de dar dó, achava ainda aquela justificativa para o seu azar... Falava de Jorge Amado e de seu Capitães da Areia, da maneira como pôde enxergar claramente a condição daqueles que estavam por baixo da camada social. Nós ali, ah, nós nada de livro. Tinha tanta coisa na vida com que se preocupar...
Contava
vantagem, contava anedota. Tinha gosto de usar as palavras mais rechonchudas
que conhecia – dava vontade de mordê-las – para contar seus doze casos de
assalto, dez dos quais à mão armada comprovada pelos olhos que a terra um dia
ia de comer. Fazia rir a todos, e punha aquela xícara inseparável ali ao seu
lado, café ali. Sua mãe olhava-o de soslaio, enquanto costurava, tricoteava ou
assistia.
Era uma figura
aquele rapaz. Pena ter morrido em casa, depois que escorregou num carro de
controle remoto do irmão e caiu com o pescoço em cima da quina de uma cadeira e, com a
faca que cortaria o pão, enfiou-a no peito, um tanto quanto contrariada, sua
voz ainda dissera, segundo sua chorosa mãe, que o destino do homem é inadiável.
Morre-se, por isso se nasce.
Deveria ter
perguntado a ele por que o homem se reproduz – mas o seu pseudo niilismo me
diria que reproduzir-se é uma opção dos fracos e dos proletários... e me fariam bem suas palavras, assim, soltas como que a contar anedotas de marginais que contra ele impunham suas vontades, vícios – e no fundo quem se viciou fui eu, em ver aquela xícara entre seus dedos.
Sentar na esquina é tudo que se há de fazer.
E,a,p'
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