segunda-feira, 25 de julho de 2011

Fabulário Geral do Delírio Cotidiano - Charles Bukowski


Talvez, apesar de todo a classe, Rubem Fonseca tenha tirado daqui boa parte do título de Secreções, Excreções e Desatinos, pois que não é diferente o enfoque que o gloriosamente chulo Charles Bukowski direciona seus mais de 30 contos - em sua maioria ambientados na catastrófica cidade de Los Angeles, que tanto viveu, amou e onde ambientou a maioria de suas histórias bizarras, escrotas, violentas, etc..

Lá se encontra toda a famosa arte que criou, de prosttutas, mulheres de amor fácil, amigos bêbados, iniciantes a poetas, as suas influências do meio literário estadunidense e outras, além de ser muito difícil disvincular a imagem do próprio Bukowski da maioria de seus contos - que poderiam muito bem se enquadrar no gênero crônica, já que alguns não passam de simples observações sobre determinados assuntos, livros, autores e aspectos socio-políticos em relação ao estilo de vida norteamericano, e a maioria extravasa o nível da ficção (ou implode à uma realidade tão absurda quanto possível, que era de toda, ou boa parte, a realidade do Velho Safado), chegando inclusive o personagem principal a ser ele mesmo: Buk.

Ginsberg, Hemingway, T.S. Eliot, Pound, cummings, e uma gama de influências literárias são demonstradas e analisadas pelas palavras do velho - inclusive, aos mais puristas, vai soar um tanto quanto polêmico, pelo fato de que Buk não gostava nem um pouco de Leon Tolstói, principalmente, daquele seu Guerra e Paz. Na antecapa do livro há um logo em vermelho: O último grito da geração beat. Ora, Bukowski transcendeu a geração "beat" - mesmo porque, esta durou até pouco antes de suas publicações, além de em pouco bater com seu estilo.

Mas, partindo pruma análise um pouco mais pessoal, Bukowski dos romances não é o mesmo dos contos. Li boa parte de Misto Quente (clássico obrigatório para quem o curte) e Pulp, que parecem ser os lugares onde as palavras de Buk se acomodam com maior facilidade e melhor expressão. Não sendo este um livro menor, o problema sou eu em relação aos contistas que escrevem romances e dos romancistas que escrevem contos. Por exemplo: o mesmo Fonseca, é um dos melhores contistas que já li, entretanto, ao ler o seu Agosto, cansei-me facilmente, pois que a leitura é mais clássica, menos visceral, mais densa. Poucos são os contistas que sabem navegar no romance (ou nos dois gêneros). A maior exceção do nosso meio está para Machado, que atuou em todos os gêneros (conto, crônica, poesia, romance, teatro, crítica...). Buk também foi um poeta nato. Escreveu para mais de 30 livros de poesia, dentre as quais, talvez a mais famosa, seja uma chamada Bluebird - a qual aqui já recolhi parte dos versos - que demonstra que os brutos também são sensíveis - ou que a brutalidade é apenas uma casca fina, criada para sua própria proteção.

Alguns contos, enfim, valem a pena perpassar uma boa olhada e repetir depois de findo o livro, dentre os quais separei alguns por ordem de aparição: Na Cela do Inimigo Público Número Um; Cenas da Penitenciária; Você Aconselharia Alguém a Ser Escritor?; O Grande Casamento Zen-Budista; Sensível Demais; Se Quiser e Gostar; Sem Meias; Um Bate-Papo Tranquilo; Cerveja, Poetas e Mais Papo; Uma Para Walter Lowenfels; "Animal Crackers In My Soup" (o melhor de todos, talvez); Um Cara Popular; O Grande Rebu da Maconha e O Cobertor. Em todos, explode a crítica sagaz e mal-humorada de um homem que apanhou demais da vida - mui provavelmente.

E,a,p'

2 comentários:

Raquel Rodrigues disse...

Nem sei se o odeio ou se começo a lê-lo logo, o mais breve possível!

Eliézer Araújo disse...

Se depender de mim, leia-o o quanto antes e esteja preparada para fortes emoções e tensões escatológicas. Aquilo que te disse de enfiar o dedo no cu pra coçar é o mínimo, às vezes :)

Postar um comentário