quarta-feira, 20 de julho de 2011

Viagem (Parte 2) - Carta Aleatória



Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros



Meu caro,

Uma vez dessas eu te disse, lembro bem, que era a primeira vez que sentia algo que parecesse com ódio. Mas bem não era: soube disso agora, que perpassava os olhos pelas velhas lembranças duma infância que passou por nós dois, Zé. Olha, que a infância passou rápido, tanto que demorou para acontecer... Hoje que ela é, senão aquele resquício sujo, como fosse última gotícula de delícia no fundo da panela? Eu sinto dó e dor. Mas não por nós dois, por essa nossa distância, por esse nosso rosto frio - a mão trêmula com garra negra, o olho duro e esbranquecido, de tão branco esquecido, de tão esquecido, pálido: branco. Era fértil o terreno que fecundava nossa pequena horta de alegrias. Hoje é mais um dos muitos pedaços.

Lembro de todas as datas especiais, as que não foram tanto assim, as que parecem que evaporam da memória, como a esconder qualquer coisa, mas vendo bem assim, não fizemos qualquer bobagem, posto que a nossa vida era a tranquilidade das plantas que cresceram em minha antiga casa - vá lá ver e não vais mais reconhecer aquele casebre abandonado e amarelo pelo tempo. Hoje sobram bitucas de cigarro das nossas fugidas da aula no chão da calçada da escola, um pileque de cachaça no barzinho que ficava lá em frente, aqueles pulos desesperados pela porta dos ônibus para fugir da passagem, tua revolta, meu grito, nossas vozes, as vozes de Tati, do Curumim, da Sandra, os meninos todos. Quem morreu, quase eu, e boa parte. Zé, eu descobri: a vida é uma gatuna.

Se te escrevo assim, rápido, é que a saudade me aperta o peito, me dá nó na alma, dor na goela. Semana passada lembrei de você enquanto comia. Senti uma dor sisuda no estômago - lembrei de tua gastrite, do jeito como tu debruçava a cabeça sobre o meu ombro e sentia a dor, sem chorar: ria. Teu sadismo montou essa minha personalidade, e se a morte deixa alguma coisa de bom, eu ainda não consegui descobrir, que de tudo aquilo, só sobrou a falta, que é uma traça que vai comendo pedaço por pedaço impiedosamente. Quando eu dei por mim, escrevia esta carta pra esse amigo velho. A página vai amarelada: mancha de café que eu não tive coragem de escrever tudo de novo. Bem me conheces, sabe que minha vontade é sempre aquela de ser engolido pela cama toda manhã. E não me culpavas, agora então, não me culpes, que eu sou assim.

De tudo, deixo que saiba que sofro, mas não de saudades, nem clamando por teu retorno. Sofro por não poder gritar minha ferida como tu gritas e a deixa e exposta. Bem que no fundo, mesmo negando, há em ti essa poesia inquieta que não te deixará ser feliz enquanto não assumirdes este lado obscuro que de ti emana, meu mano. Saiba: É aqui que fico, aguardo teus beijos, teu abraço, teu afago, tua reconfortante presença - ou quem sabe, me mate logo com tua absoluta ausência, que viver assim é que não dá.

Um abraço, até a vista.

Desse teu amigo que tanta falta sente, E.


Fortaleza, 20 de Julho de 2011

1 comentários:

Raquel Rodrigues disse...

Pungente.
Latente.
Tá latejando aqui.

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