sexta-feira, 15 de julho de 2011

Viagem















A viagem seguia com certa velocidade, até chegarmos e tomarmos um rumo de volta. Bem, nem tanto a velocidade me agradava, mas é verdade, e agora digo: se tudo me passava rápido, era porque minha cabeça preferia estar em qualquer lugar. Não estava em minhas mãos o volante; D., que dirigia com afinco, mesmo sem dormir a dois ou três dias, conseguia manter prumo na direção. Seus cabelos, que só cheiravam ao vômito da véspera sacudiam-se com certa sofreguidão por conta do vento. Ele tinha mesmo na sua alma essa coisa selvagem, indefinível; à flor da pele. Seus óculos ainda refletiam o pôr do sol, enquanto eu via qualquer coisa pelo movimento das janelas, acúmulo de árvores secas, infinitas, que ganhavam vidas cheias de fulgor. Parecíamos dois loucos, quando pusemos as coisas na mala, dissemos, Vamos, e seguimos a estrada. Cada parada um cigarro; ele sugava o cigarrinho e apertava os olhos, sugava com força e prendia a boca, soltando em minha boca a fumaça deste. Bem, era provável que não estivéssemos tão ruins de cabeça assim. Nossos pais ainda esperavam aflitos por notícias nossas, mas essa viagem não tinha vontade alguma de acabar. Eu olhava para os olhos dele, e dizia, Cê é um louco... Iria com ele para onde quer que ele fosse. Tinha a certeza que nossa vontade iria nos levar ao infinito e além. O cheiro da bebida já embebeda mais este momento torpe, que cambaleia o olho, chovida chuva de emoção colhida pelos cruzados olhares que ficam a se perder dentro do Corcel. Valente corcel prateado que cruza as estradas. Se guarda alguma coisa, algum segredo, vontade maior que a de ficar só assim, isso eu não conseguia dizer, que a força do seu cavaleiro era o punho frouxo de D., que só sabia que queria guiar à beira-mar.



-- Quando a Argentina bater, a gente pára.



E era até agradável que me dissesse quando que íamos chegar - era mais agradável, na verdade, porque suas terrenas vontades às vezes me dava vontade de esquecê-lo. Deixá-lo como o conheci: pedindo carona, pondo o pé na estrada, n'algum lugar desses que de repente desse por levá-lo onde ele queria. Prefiro-o assim, a falar coisas que eu pretendia esquecer com o tempo. Se se desgrudasse um pouco de todas as lembranças, seríamos então as pessoas que queríamos ser, não quem querem que sejamos, que é o que fomos um dia. Se de cidade em cidade vamos indo, que fazer procurando, não tenho noção. Mas esse mundo tem me guardado algo que para conhecer tive que me desconhecer, deixar de egoísmo. Ser do mundo no mundo. Porque é desta terra que somos feitos e que nossos ancestrais foram feitos, mortos, ressuscitados na pele de todos nós, pigmento de cá e de lá que nos formam, e o resto, toda a porcalhada que falamos. Fica no asfalto, deslizando, leve, como marola que escorrega pela água. Dá quase que tristeza.



Seguimos. Se chegaremos ou não, só a neve dirá. Queira o tempo que nada do dele nos faça volver. Que voltar é coisa que não faço. A estrada passa, no cabelo de D., eu sinto que a liberdade pouco a pouco vai se instalando no seu cérebro. Ele sorri do nada, como quando nos sentimos bem, naquele barato de sempre, de rir de tudo. Ele poderia me pôr no gancho de seu abraço quente, e aí, seguiríamos fazendo um Road Movie cheio de nossos momentos. Que voltar é coisa que não faço.



Ansioso por On The Road - O Filme e também por ler o livro famigerado de Jack Kerouac.

1 comentários:

Raquel Rodrigues disse...

E nesta hora eu só queria estar dentro desse Corcel valente. Tendo como destino o rumo da frente, sem ter como voltar. Só seguir. =/

Excelente texto, como de costume, E.

Postar um comentário