domingo, 14 de agosto de 2011

Mais uma dose de café


___Ela me olhava por trás dos óculos com cara de quem estava me sacando fazia tempo - mas sacana era ela mesmo, que achava que enganava alguém, olhando assim, descaradamente.
___Eu ia tomando o café, discreto, olhando com olho de peixe - um olhar que o homem sabe fazer: ele te olha, mas não te vê. O burburinho da cafeteria parecia um trovão. Eu não sei porque eu insistia em marcar encontros nesses locais cheios de pessoas populares, felizes, divertidas. Alisei o coldre - gesto típico, que tive que disfarçar como coceira no sovaco. O paletó me irritava e eu sentia que não estava bem dentro dele, que tava com cara de pastor.
___O homem entra porta adentro com discrição e vai deslizando entre as cadeiras e pessoas, parecendo uma sombra monstruosa. Ele pensa que não vi e senta ao lado da mulher. Na verdade, ele tem certeza que não vi, porque na mente dele, ele não estava se esquivando da minha vista, e sim das pessoas, para chegar até ela - a mulher dos óculos, que cruzara as pernas assim que ele chegou. Ela tinha certeza de que eu a via - mulheres são mais inteligentes que os homens - mas não são mais inteligentes que eu com uma arma num coldre.
___Quando eles começaram a conversar, uma turminha lá atrás gritou, É isso aí, e começaram a vaiar, gritar e bater palmas. Talvez eu seja muito velho, mas essa juventude me enche a paciência com essas coisas. O ambiente ficou ensurdecedor com o barulho da jukebox, que tocava uma música desagradável. Eu tinha certeza de que minha úlcera iria estourar a qualquer momento.
___A mulher levanta e vai até o banheiro. O homem tinha oferecido para ela um pacotinho, que, se não fosse meu olho treinado, teria passado despercebido, como passou para a maioria, senão todos. Fui até a mesa. Ela iria demorar - ia fungar um talquinho no banheiro - esses yuppies merecem morrer mesmo - ele, no caso, não ela. Discretamente me sento ao lado do homem que pula de um susto. Ponho a mão na mão dele e carrego até o meu coldre. Ele sente a arma, fica da cor da minha camisa e sua frio, rapidamente, muda de cor.
___- Escuta, se ficar quieto, não vai chamar atenção e eu prometo que vai ser rápido.
___- Mas, mas...
___- Sai da mesa, vai lá pra fora e devagar.
___O homem tremia - o que era ruim. Deixou uma cédula embaixo do porta-guardanapos e saiu. Eu saí logo em seguida, pondo também uma nota debaixo da minha xícara de café.
___No lado de fora o homem procurava acender apressadamente o cigarro, mas a mão tremia. Acendi para ele, enquanto ele procurava parecer tranquilo.
___- Passa teu dinheiro e a chave desse teu Mercedes... não se esforça que é pior. Eu disse. O serviço é o seguinte: tá vendo esse carro? Você vai pegar ele, vai para o mais longe que puder. Eu não quero mais ver essa tua porra de cara. Se eu por acaso de te vir, você vai segurar o cano da minha bereta pela segunda e última vez, mas vai ser com a gengiva, porque eu vou arrancar todos os teus membros e todos os teus dentes. Agora corre.
___Dito isto, o homem entrou no Gol prata, acelerou e sumiu na curva da avenida. Entrei no café, sentei ao lado da mulher, que esperava impaciente.
___- Demorou tanto assim?
___- Eu tinha que ter certeza que ele não tava armado.
___- E ele? Cadê?
___- Deve ter ido pra casa... Não vai mais te importunar.
___- Será que ele vai até a polícia?
___- Ele não é o primeiro. Mas com o que já arrecadamos, dá para parar.
___- Você acha?
___- Acho.
___Ela recostou a cabeça em meu ombro, seu telefone tocou, mas ela não atendeu. Quem sabe outro dia. Agora quero mais uma dose de café.

E,a,p'

1 comentários:

Raquel Rodrigues disse...

Viajei, Eliezer!
Imaginei tudo isso a acontecer no Café Vitrola!
rsrs
Bom demais sair por aí assim, estando aqui, de frente a esta tela colorida... Só as letras tem esse poder.
Parabéns parabéns parabéns!!!! :D

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