sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre Café e Cigarros

Eu te digo que não vou parar. Estou velho, cansado, cheio de contas a pagar. Qualquer dia desses me encontra você com a boca cheia de formigas numa esquina qualquer - e aí? Dá-me certo prazer, dá-me certo gosto - é a diferença entre estar vivo e estar morto. O paladar, o olfato. Estou morto, meus pulmões estão dilacerados, eu sei. Mas quem não está? quem não morrerá? Nunca conheci um ser imortal, e também, tem graça isso de ser imortal? É por isso que sorvo sem preconceito. Trago, aspiro, transpiro e enervo minha alma - se ela existe. Traga-me um café. O café isto também, em líquidos. Imagina-te num banho numa cachoeira de café. A negritude, só de pensar, me dá medo. É por isso que todos gostam da água: dá para se ver através dela e amá-la por ser o que é, é convenção isto de amar e preservar a água. Eu preservaria o café, os cigarros. Punha meus pulmões sobre uma grelha e comê-lo-ia. Os urubus, coitados, estariam esfomeados de tanto esperar. Mas meu coração, coisa de aço, como disse Cecília Meireles, não dá-se por vencido. Começa por se transformar numa bomba que se remexe e me mantém vivo, conquanto o cigarro vai se transformando numa brasa só, abrasando, acinzentando-se, e sendo poeira jogada ao vento. O gosto deste despedir-se de si mesmo dói no peito, e para chorar a alma desesperada dos aflitos, tomo uma xícara de café. Quando eu movo, sentido horário, a colherzinha, misturo o açúcar, vejo a espuma se dissolver no líquido espesso, livre, fora as bolhas. Milhões de bolhas juntas - apenas vivendo de observar enquanto degusto o café. Estalo de língua e eu lembro de outros cafés que tomei mundo afora. Minha mãe, aquele café forte, amargo, sem açúcar, quase - outra fumante, minha inspiradora do que sou; minha avó, um café ruim, amargo como fel e vingança, feito para quem masca fumo; o café de meu avô, aguado, açucarado, ótimo para nada. Eu pergunto quanto tempo mais durarão meus pulmões, cansados de respirar o ar puro da nossa cidade cinza. Meus lábios entumecidos de lama, e quanto mais eu penso em mim, mais raiva tenho dos outros - café, café, café, mais uma xícara, que eu posso dormir quando morrer. Vamos atravessar um período de secas intelectuais e este ato será mais um a se extinguir. Falaremos do asfalto e do concreto, da fumaça palpável, do cheiro que entra dentro da neblina (um lobo em peles de cordeiro) e ilude essa cabeça ansiosa - e não me venha você dizer que meu cigarro irá um dia me matar. Vamos, sente aí, tome uma xícara de café ao menos.

eap

1 comentários:

Erika Marques disse...

Que geniaaaal. Amei. Vou ler pro resto da vida. Escrito da melhor forma minhas duas paixões 😍

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